Capítulo 3
Ponto de vista de Ethan Blackwood
A dor de cabeça foi a primeira sensação a voltar.
Não o latejar surdo de uma ressaca, mas aquela sensação de rasgo, única de quando uma droga está passando—espalhando-se do meio das minhas sobrancelhas para dentro do crânio, como um cinzel, descascando com precisão cada camada da consciência.
Abri os olhos. O teto era de um branco encardido desconhecido.
Certo.
Sentei na cama, o olhar varrendo instintivamente o lado direito.
Vazio.
Os lençóis exibiam vestígios tênues de terem sido mexidos com cuidado: uma marca rasa no travesseiro, qualquer calor já havia sumido. Ela estava fora há algum tempo.
Ela saiu sem deixar rastros, sem produzir nem um som.
Fiquei encarando aquele espaço vazio por alguns segundos, em silêncio, e então abaixei o olhar até a mancha seca, vermelho-escura, no lençol.
Não desviei de imediato.
A luz da manhã que vinha do Hudson tornava aquela cor anormalmente nítida através da janela. Permaneci em silêncio dentro daquela nitidez por muito tempo, a mente processando duas coisas ao mesmo tempo: primeiro, alguém me drogou ontem à noite. Segundo, aquela mulher—ela também havia sido drogada.
A primeira mantinha minha fúria como uma lâmina desembainhada, fria e pressionada contra a minha testa. A segunda me impedia de classificar aquilo como uma conspiração comum.
Fechei os olhos, tentando resgatar o contorno dela de memórias fragmentadas.
As imagens estavam quebradas, mas certos detalhes eram estranhamente vívidos—ela tinha um cheiro extremamente suave; não era perfume, era mais próximo de algo natural, vegetal, limpo, com um toque de frio. Quando meus dedos tocaram a lateral do pescoço dela, bateram em algo duro: um pingente de pedra preciosa, de arestas vivas, gelado como uma pedra tirada do fundo d’água.
E a luta dela.
Aquela força era leve como um protesto silencioso, mas nunca desistia.
Ela não queria.
Esse pensamento fez meu estômago se contrair com força, e aquela tensão se misturou a uma emoção à qual eu não estava acostumado—não era culpa; era mais quente do que culpa e muito mais difícil de processar.
Vesti um roupão, fui até a janela do chão ao teto e disquei para Lucas.
—Descubra quem era a mulher que entrou na minha suíte ontem à noite.
Do outro lado, Lucas ficou em silêncio por dois segundos e então mudou para o modo trabalho.
O relatório veio rápido, mas a conclusão foi insatisfatória.
Havia um ponto cego no ângulo da vigilância do lado de fora do meu quarto. O rosto da mulher não tinha sido captado por completo, apenas uma silhueta—figura esguia, vestido de noite, descalça, carregando os saltos em uma das mãos.
Descalça.
Minha expressão escureceu um pouco.
—Puxe todas as filmagens de todo mundo entrando e saindo do 28º andar naquele horário —eu disse, num tom uniforme. —Quero informações completas sobre essa mulher.
Lucas hesitou e então falou num tom extremamente medido:
—Ethan, precisamos iniciar simultaneamente os protocolos de PR? Se esse assunto—
—Não precisa.
Desliguei e continuei parado junto à janela, o olhar pousado nas águas cinzentas e pesadas do Hudson ao longe.
O envenenamento era uma conspiração direcionada a mim—não havia dúvida. Mas aquela mulher—quando ela se escondeu no meu quarto, já mostrava sinais de que a droga estava fazendo efeito: respiração irregular, temperatura elevada, e ainda assim a força com que ela lutava parecia mais autêntica do que a de qualquer pessoa com intenção premeditada.
De um jeito ou de outro, eu tinha que encontrá-la.
A segunda ligação de Lucas veio vinte minutos depois.
—Ontem à noite houve um baile beneficente no 28º andar, organizado pela família Sterling —a voz dele continuava firme. —Festa de aniversário da filha deles, no salão do hotel.
O sobrenome deu uma volta na minha mente sem acionar nenhuma lembrança direta. Figurantes na roda do mercado imobiliário, mal importantes.
—Vá até a Sterling Estate —eu disse. —Descubra a lista completa de mulheres que estavam nessa festa, principalmente as que saíram no meio.
—Entendido.
Pousei o telefone e olhei para fora de novo.
A ligação final de Lucas veio mais rápido do que eu esperava.
Ele tinha concluído a investigação na entrada da Sterling Estate, com a objetividade de sempre. Informações sobre os convidados da festa de ontem, sobre os nomes de quem saiu no meio.
Então ele fez uma pausa e acrescentou:
—Um detalhe. Vivian Sterling—agora há pouco, na entrada, notei que ela estava segurando um colar de safira. Corrente fina de ouro, o pingente tem facetas complexas, e a técnica de cravação parece vintage.
Meus dedos se apertaram levemente.
Safira. Arestas vivas. Gelada.
Era aquele.
—Vivian Sterling. —Enterrei o nome na mente, confirmando o peso dele, e então disse: —Continue cavando. Quero tudo sobre ela.
Ao desligar, fiquei junto à janela, a peça do quebra-cabeça na minha mente se encaixando silenciosamente no lugar—
Mas havia algo que não batia.
Seis anos depois, sala VIP do aeroporto.
Eu estava encostado num pilar do corredor, vestindo um terno cinza-chumbo, a gravata impecavelmente ajustada. A sala VIP do JFK tinha pouco movimento; alguns transeuntes ocasionais desviavam instintivamente de mim — eu sabia que não era porque eu estivesse bloqueando a passagem, e sim porque havia algo em mim que fazia as pessoas sentirem que não deviam se aproximar.
Isso tinha virado um hábito. Ou melhor, uma postura defensiva que eu já nem percebia.
— Ethan, dá pra mudar essa expressão na sua cara?
Meu avô, Harrison Blackwood, estava sentado numa poltrona, me observando, o velho sotaque nova-iorquino pingando desdém. — Com essa cara, não é de se admirar que, com a sua idade, você ainda não tenha um filho!
Não respondi. Já tinha lidado com esse tipo de conversa vezes demais e, fazia tempo, eu desenvolvera um mecanismo completo de resposta em silêncio.
Meu avô não tinha a menor intenção de parar. Ele puxou o assunto de volta para Vivian.
— Seis anos! — ele se virou para me encarar, o olhar trazendo aquela acuidade única dos velhos. — A Vivian está com você há seis anos e ainda não engravidou. — Fez uma pausa; o tom ficou, de repente, carregado de sentido. — Tem alguma coisa errada com você? Eu conheço o melhor hospital da Suíça, e já que vamos pra lá mesmo—
Virei o rosto para ele.
Ele engoliu o resto das palavras. Mas aquele olhar dizia claramente: “Só estou levantando uma possibilidade”.
Peguei uma caixinha de presente elegante na minha bagagem de mão e a empurrei em direção ao meu avô.
— Biscoitos de aveia sem açúcar que a Vivian fez — eu disse. — De acordo com o seu plano nutricional.
Meu avô abriu a caixa com desconfiança e pegou um biscoito, dando meia mordida.
Então, com a maior elegância do mundo, cuspiu aquela meia mordida de volta dentro da caixa.
— A Vivian fez isso? — empurrou a caixa para longe, bem longe, como se contivesse algo perigoso. — No último jantar de família, ela estava servindo sopa e derramou uma tigela inteira de sopa quente na minha calça. Sabe o que ela disse? — ele bufou, frio. — Disse que eu estava gagá e que minhas mãos trêmulas derrubaram. Na frente de todo mundo.
Eu não disse nada.
— Troque ela, Ethan. E rápido. — o tom dele mudou de reclamação para uma espécie de veredito familiar inapelável. — Encontre alguém decente, alguém que possa ter filhos. Olhe o James dos Harrington, ali do lado — o bisneto dele já consegue sair e comprar coisas sozinho. Me viu anteontem, se jogou no meu pescoço me chamando de bisavô... — um raro traço de inveja apareceu no rosto dele. — Eu ainda não sou bisavô. Como é que eu vou pra Suíça fazer tratamento com o coração em paz?
O ar da sala pareceu ficar pesado demais de repente.
Foi então que um grito fino, choroso, atravessou o burburinho da sala—
— Mãe! Mãe! Espera por mim!
Olhei instintivamente na direção do som.
Um menininho de macacão azul vinha tropeçando para cá, erguendo um boneco de super-herói; o pé dele enganchou em alguma coisa, e ele se projetou para a frente—
Caiu a dois passos do meu avô, os joelhos batendo no chão, e o brinquedo voou das mãos dele, rolando até parar aos meus pés.
A reação do meu avô foi surpreendentemente ágil. Ele se levantou da poltrona, se abaixou e pegou a criança no colo, a palma da mão batendo de leve nas costas dela. — Meu Deus, cuidado! Onde você se machucou? Deixa o vovô ver—
O menino, erguido de repente, parou por um segundo, as lágrimas ainda grudadas nos cílios, os olhos grandes e brilhantes, encarando meu avô.
Eu me abaixei para pegar o boneco de super-herói do carpete, planejando devolvê-lo assim que encontrássemos o responsável pela criança.
Nesse instante, a voz do meu avô mudou de repente.
A mudança foi sutil — da doçura de quem consola uma criança, se transformando silenciosamente num tipo de “choque” que eu nunca tinha ouvido na voz dele.
— Ethan. — ele me chamou, bem baixo. — Vem aqui. Vem olhar—
Ele examinou aquele rostinho redondo em seus braços, a voz ficando ainda mais baixa e mais certa. — Essa criança... essa ponte do nariz, essa curva da boca... comparando com as suas fotos de infância... é como se tivesse sido esculpido no mesmo molde.
Levantei os olhos, encarando aquele rosto, com as órbitas ainda vermelhas, nos braços dele.
O ruído da sala pareceu ser abafado por algum botão invisível.
Aqueles olhos — castanho-escuros, brilhantes e límpidos — me devolveram o olhar sem qualquer defesa.
Meu coração falhou por meio compasso.
