Capítulo 4

Ponto de vista de Ethan Blackwood

A leve inclinação para cima nos cantos dos olhos dele, o jeito como os lábios se curvavam para baixo quando se comprimiam, até aquela linha tênue entre as sobrancelhas quando ele franzia a testa—

Eu encarei o garoto por alguns segundos, uma sensação inexplicável de que havia algo errado crescendo dentro de mim.

Ele parecia exatamente com as fotos minhas quando criança.

Se eu não me lembrasse claramente de que, em mais de trinta anos, eu só tinha estado com uma mulher — Vivian — e Vivian nunca tinha tido um filho, eu quase suspeitaria que esse menino fosse meu filho biológico.

Os olhos da criança eram brilhantes demais. Como obsidiana polida, aparentemente tímidos, mas escondendo uma serenidade além da idade.

Eu tinha quase certeza de que aquilo era um golpe cuidadosamente arquitetado. Provavelmente algum truque novo de um concorrente — nos círculos empresariais de Manhattan, esse tipo de esquema não era incomum.

— Ethan, me diga a verdade: essa criança é sua ou não?

Harrison de repente colocou o menino sentado numa chaise longue, as mãos na cintura, me encarando como se eu fosse um criminoso em julgamento.

O ar no terminal congelou na hora.

Pelo canto do olho, vi o garotinho parar de esfregar o joelho, piscando aqueles olhos grandes entre o avô eriçado e eu, com o rosto pequeno cheio de espanto.

Eu me abaixei, peguei o brinquedo de super-herói aos meus pés, os dedos apertando a cabeça do boneco de plástico.

— Vovô, do que o senhor está falando? Impossível.

O vovô claramente não acreditou em mim; deu um passo à frente, a voz subindo vários tons:

— Como é impossível? Essa criança é a sua cara quando era menino! Se não é seu, de quem é? Você andou se metendo com alguma mulher uns anos atrás e—

— Não. — Meu tom continuou calmo. — Eu não tenho filho.

Entreguei o brinquedo de volta ao menino, olhando direto nos olhos dele — aqueles olhos me encararam de volta, desprotegidos, mas com uma estranha compostura.

— Qual é o seu nome? — baixei a voz. — Qual é o seu objetivo ao se aproximar de mim?

Um tapa acertou a parte de trás da minha cabeça. Do vovô.

— É assim que você fala com uma criança? Saia da frente!

Eu vi a expressão do vovô se transformar na mesma hora; ele se abaixou diante do menino com um sorriso bondoso.

— Menininho, qual é o seu nome?

— Vovô, eu sou o Evan. — o garoto respondeu obediente.

— Evan? Que nome lindo! Você se separou dos seus pais? — o vovô apertou alegremente a mãozinha do menino e a sacudiu de leve.

Notei Evan piscar os olhos úmidos, o olhar dele percorrendo meu rosto duas vezes.

Então — ele colocou o brinquedo de super-herói atrás de si e bateu na barriga do boneco algumas vezes, num ritmo específico.

O gesto foi tão sutil que qualquer outra pessoa teria deixado passar.

Mas eu não.

Estreitei os olhos. O que essa criança estava fazendo? Mandando um sinal?

Evan ergueu o rostinho gordinho, ainda com lágrimas grudadas nos cílios.

— Eu... eu não tenho pai, e não consigo mais encontrar a minha mãe.

Franzi a testa.

Essa criança tinha acabado de chamar “Mãe, espera por mim” — claramente a mãe estava por perto. Mesmo assim, agora os olhos dele exibiam um pânico perfeitamente dosado, como um refletor de palco ajustado com cuidado.

A atuação desse menino era boa demais.

— A gente acabou de voltar do exterior — Evan baixou as pálpebras, os ombrinhos dando um leve encolher. — A mamãe disse que precisava encontrar alguém muito importante e mandou eu esperar aqui, mas eu corri rápido demais e me perdi...

Ele fez uma pausa, ergueu o olhar, a voz com o tremor exato.

— Vovô, eu estou com tanto medo. Posso ir para casa com vocês?

— Não.

— Vamos, vamos para casa.

O vovô e eu falamos ao mesmo tempo, em direções completamente opostas.

Evan imediatamente fez uma expressão assustada e digna de pena, se agarrando à perna do vovô, as duas mãos prendendo o velho com força.

— Vovô, esse tio é tão malvado.

Dito e feito, no segundo seguinte a bengala do vovô acertou minhas costas.

— Tudo bem você manter essa cara dura na empresa, mas por que ser cruel com uma criança?

—Vovô. —Baixei a voz, mantendo a paciência. —A origem dessa criança é incerta, a aparência dele é coincidência demais. A gente devia contatar a segurança do aeroporto e entregá-lo para—

Os olhos de Evan ficaram vermelhos de repente.

Lágrimas grossas rolaram pelas bochechas, pingando no carpete cinza-claro do saguão; a voz dele saiu quase inaudível.

Vi Vovô puxar Evan para mais perto, a bengala batendo no chão com um estalo seco que ecoou por várias fileiras de assentos.

—Essa criança quer ficar comigo — fomos feitos um para o outro! Quero ver quem é que vai mandar ele pra polícia!

Ele levantou a cabeça, os olhos carregando uma gravidade rara, inegável.

—Eu não vou pra Suíça. Não é tão importante assim — nada é mais importante do que meu bisneto.

—Vovô, o senhor vai pra Suíça pra fazer tratamento—

—Olha como essa criança é esperta. —Harrison não estava ouvindo absolutamente nada; abaixou a cabeça para cutucar a bochecha de Evan, os olhos incapazes de esconder a adoração. —Igualzinho a você quando era menino. Evan, o bisavô vai comprar doce pra você. Vamos pra casa primeiro e, com calma, a gente procura sua mãe, tá bom?

Discretamente, puxei o celular, os dedos voando pela tela, pronto para contatar Lucas direto e mandar vasculhar o aeroporto.

Foi então que peguei Evan me lançando um olhar de soslaio.

Foi rápido, como um feixe de luz que varre e recua; e então ele se aninhou obediente no abraço de Vovô e assentiu:

—Tá... Bisavô.

Aquele “Bisavô” saiu doce e certinho, arrancando de Vovô um sorriso radiante; até as rugas no canto dos olhos pareceram se suavizar.

—Não. —Guardei o celular no bolso; meu tom, como sempre, frio. —Vou contatar a segurança do aeroporto agora para pedir um anúncio. Se não encontrarmos um responsável em meia hora, precisamos seguir o protocolo e chamar a polícia.

Vovô se levantou de supetão, puxando a mãozinha de Evan em direção à saída, os passos muito mais ágeis do que o normal.

—Nem pense! Ethan Blackwood, estou te avisando: eu vou ficar com essa criança. Se você ousar atrapalhar, eu vou doar todas as minhas ações da Blackwood Enterprises pra caridade, sem deixar uma única!

Fiquei parado, observando o velho e a criança se afastarem.

A luz do sol entrava oblíqua pelas enormes janelas do saguão, do chão ao teto, esticando as duas sombras, compridas. O cabelo branco de Vovô e o topete teimoso de Evan formavam uma silhueta absurda contra o contraluz.

Então, de repente, Evan parou.

Ele não se virou; apenas inclinou levemente a cabeça, como se estivesse pensando em alguma coisa. Aí se virou e me olhou de cima, os olhos brilhantes parecendo especialmente nítidos naquele contraluz intenso—

—Bisavô, eu posso ir com aquele tio também? —ele disse. —Eu gosto daquele tio.

O burburinho do aeroporto pareceu baixar uns três decibéis.

Os olhos de Vovô se acenderam; ele parou na hora e se virou para mim, projetando o queixo com uma expressão triunfante que fez minha têmpora pulsar.

—Tá ouvindo? A criança disse com a própria boca! Você vem com a gente também. E não esquece de ajudar a encontrar a mãe dele — você pessoalmente, nada de entregar pra polícia.

Olhei para o velho e para a criança.

Nos olhos de Vovô havia uma alegria impossível de conter; Evan baixou as pálpebras, e o canto da boca dele se ergueu de leve.

Aquela curva durou só uma fração de segundo, mas caiu exatamente no meu campo de visão.

Guardei o celular no bolso, a voz calma:

—Como quiser. —Parei. —Mas deixa eu te lembrar, Vovô: não vá acabar sendo passado pra trás e ainda ajudar a contar o dinheiro.

Vovô bufou, levando Evan em direção ao estacionamento com ares de quem manda em tudo, resmungando:

—Que tratamento na Suíça, o quê? Nada é mais importante do que meu querido bisneto...

Fui atrás, dois passos atrás, o olhar fixo no topete teimoso do menino, balançando na luz do sol da tarde.

O arrepio na nuca se intensificou.

Quem, exatamente, estava armando essa armadilha para mim?

E onde encontraram uma criança que parecia tanto comigo?

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