Capítulo 1

Meu pai fez um smoothie para mim todas as manhãs durante seis meses. Eu achei que era amor.

Era um relaxante muscular.

Ele vinha colocando a quantidade exata na minha bebida para fazer meus dedos tremerem na puxada total — o suficiente para me tirar o primeiro lugar em todas as competições importantes. Não o bastante para me matar. Só o bastante para deixar Laurel me vencer.

Laurel. A filha da amante dele. A garota para quem ele comprava joias de diamante sob medida enquanto me dava acessórios em promoção de prateleira de liquidação no meu aniversário. A garota que ele queria enfiar na minha família, na minha casa e no meu lugar no pódio.

Eu encontrei a prova. Parei de beber os smoothies dele. Lutei com unhas e dentes para voltar ao número um.

Então, dois dias antes da seletiva nacional juvenil de tiro com arco — a única competição que decide tudo — ele pegou uma barra de aço e acertou meu braço direito com ela.

Meu braço de puxada.

O osso quebrou. Os médicos disseram no mínimo três meses. Meu treinador não conseguia me olhar nos olhos. Todos os olheiros, todas as bolsas, todos os sonhos pelos quais eu tinha sangrado por mais de três anos — tudo acabou com um único golpe do homem que deveria me proteger.

A seletiva começa amanhã de manhã. E eu não consigo segurar um arco.


Eu estava cortando um bife ancho quando meu pai abriu a boca.

“Precisamos conversar. Sobre Nolan.”

Ergui os olhos para o homem sentado do outro lado da mesa de jantar. Meu pai.

Amanhã era o primeiro dia da seletiva nacional juvenil de tiro com arco. Nos últimos três anos, ele tinha criado o hábito de arrumar briga com a mamãe na noite anterior a toda competição importante que eu disputava. Às vezes reclamava que ela não apoiava a carreira dele o suficiente. Outras vezes começava a surtar por causa dos gastos da casa. Barracos altos, feios, planejados para destruir minha concentração quando eu mais precisava dela.

Esta noite, ele tinha elevado a aposta.

“O que você quer dizer com isso?” Mamãe pousou a taça de vinho na mesa, franzindo a testa. Ela tinha acabado de voltar do escritório — ainda impecável, ainda tensa.

Papai respirou fundo e vestiu aquela expressão que eu conhecia bem demais. Culpa ensaiada. Dor fabricada.

“O hospital ligou hoje. Houve um erro nos registros deles quinze anos atrás.” Ele fez uma pausa dramática. “Nolan não é nosso filho biológico.”

A taça de vinho da mamãe tombou. O vermelho se espalhou pela toalha branca.

“Que porra é essa que você está falando?” A voz dela falhou. Ela se levantou de um salto e ficou encarando ele.

“É verdade!” A voz do papai subiu, e os olhos ficaram vermelhos na hora certa. “Eu fiz um teste de DNA em segredo! Nolan não tem nenhum dos nossos genes! E nosso verdadeiro filho — uma filha, por aí, sofrendo há quinze anos — eu já encontrei!”

Mamãe perdeu o controle. Agarrou o guardanapo e atirou na cara dele. “Você enlouqueceu de vez? A Brynn tem a seletiva AMANHÃ e você faz isso AGORA?”

Papai ficou de pé e bateu a palma da mão na mesa — a imagem perfeita da indignação justa. “Nossa própria carne e sangue está por aí! Vou trazê-la para casa amanhã! A Brynn é a irmã mais velha — ela não consegue lidar com uma notíciazinha?”

Então ele se virou para mim.

E eu percebi — aquele pequeno lampejo de triunfo escondido por trás da atuação. Ele estava esperando que eu desmoronasse. Esperando que eu gritasse como a mamãe. Esperando que eu entrasse numa espiral tão forte que passasse a noite em claro e aparecesse no estande amanhã incapaz de puxar meu arco.

Eu não dei isso a ele.

Terminei meu último pedaço de carne. Mastiguei. Engoli. Limpei a boca com o guardanapo.

“Terminou?”

Papai piscou. Ele não tinha visto essa reação chegando.

“Brynn, que tipo de atitude é essa? Ela é sua irmã!”

“Oh, minha irmã.” Ergui uma sobrancelha. “Vamos voltar um segundo. Você disse que o hospital trocou os bebês. Um acidente aleatório. Então por que essa ‘irmã que vem sofrendo por aí’ por acaso treina no meu clube de tiro com arco?”

O rosto do papai se contraiu.

Eu me levantei. Apoiei as duas mãos na mesa. Inclinei-me para a frente até estar olhando direto nos olhos dele.

“Por que, por acaso, o nome dela é Laurel? Por que, por acaso, ela é filha de Renee Whitmore? Você realmente achou que eu não sabia que a Renee foi sua namorada na faculdade?”

Mamãe parou de tremer. Ficou completamente imóvel e então virou o rosto devagar para olhar para o papai.

“Isso é — você está inventando!” A cor sumiu do rosto dele. Sua voz saiu fina e oca.

“Você queria enfiar a filha da sua amante nesta família. Queria tirar a maior concorrência dela do caminho antes da seletiva. E o melhor roteiro que conseguiu inventar foi ‘trocada na maternidade’.” Peguei meu copo d’água e joguei a água com gelo direto na cara dele. “Você quer trazê-la para casa? Ótimo. Deixa eu primeiro passar por cima dela no estande e garantir minha vaga na Ivy League. Depois a gente acerta o resto.”

A água escorria do queixo dele. Ele simplesmente ficou sentado ali. Encharcado. Sem palavras.

Eu me virei em direção à escada. Parei no primeiro degrau. Olhei por cima do ombro.

“Há quanto tempo você sabe que eu já sabia de tudo?”

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