Capítulo 2
Nem dez minutos depois que voltei para o meu quarto, a porta se escancarou.
Mamãe estava parada na entrada. Seus olhos estavam vermelhos, mas a fraqueza tinha sumido. O que restava era puro aço.
— Arrume suas coisas.
Abri o armário, peguei minha bolsa preta de equipamento e comecei a enfiar dentro minhas coisas e minhas roupas.
— Para onde a gente vai?
— Para o Plaza. Minha assistente já reservou uma suíte para nós. Você não vai pôr os pés nesta casa de novo até as seletivas acabarem. — Ela se aproximou e me ajudou a encaixar minhas flechas reservas na aljava. As mãos dela ainda tremiam, mas ela se movia rápido.
— Você não vai perguntar se o que eu disse lá embaixo era verdade?
Mamãe parou. Respirou fundo. Olhou nos meus olhos.
— Sou uma mulher de negócios, Brynn. Eu lido com provas. E você nunca diz nada que não possa sustentar.
Fui até a escrivaninha, abri a gaveta de baixo e entreguei a ela um envelope grosso.
— O que é isso?
— Seis meses de exames de sangue. Alguns dos meus check-ups de rotina, outros de um médico que procurei discretamente por conta própria. — Sustentei o olhar dela. — Você achou que meu desempenho estava caindo por causa da pressão. Não era pressão.
Mamãe rasgou o envelope. Os olhos dela percorreram os termos médicos e então se fixaram nos resultados. Ela empalideceu.
— Relaxantes musculares... traços de supressores nervosos... — Leu cada palavra entre os dentes cerrados.
— Aquele smoothie de mirtilo que ele faz para mim toda manhã. — Mantive a voz firme. — A dosagem foi ajustada com perfeição. Não o bastante para me apagar, não o bastante para me mandar para um hospital. Só o suficiente para pôr um pequeno tremor nos meus dedos na puxada completa. No tiro com arco, alguns milímetros de tremor no ponto de ancoragem são a diferença entre um dez e um erro limpo.
O envelope escorregou das mãos dela. Mamãe cobriu a boca com a palma da mão. As lágrimas escorreram por suas bochechas, mas não eram de tristeza. Era fúria.
— Como ele pôde...? — Ela tremia da cabeça aos pés. — Você é filha dele. Carne do sangue dele. E ele fez isso com você por causa da filha daquela mulher?
— Porque Laurel não consegue me vencer sozinha. — Dei de ombros. — Melhores treinadores, melhor equipamento... não importa. Ela não chega aos meus pés. Então ele decidiu que, se não podia elevar o teto dela, rebaixaria o meu chão.
Mamãe se virou de repente, marchou até a minha mesa de cabeceira, pegou o frasco de “suplementos pré-competição” que papai tinha deixado na noite anterior e o arremessou contra a parede. O vidro explodiu. Um líquido marrom escorreu pela tinta.
— Nós vamos embora. Agora. — Ela agarrou meu pulso com força suficiente para deixar marca. — Ele nunca mais vai chegar perto de você.
Descemos com as malas. Papai estava na sala de estar, tentando acalmar um Nolan confuso, de olhos arregalados. Quando viu a bagagem, o rosto dele mudou.
— Aonde vocês pensam que vão? É o meio da noite!
Ele correu na nossa direção e tentou bloquear o caminho de mamãe.
— Saia. — Uma palavra só. O tipo de voz que fazia salas de reunião mergulharem em silêncio.
— Você enlouqueceu? As seletivas são amanhã! Você vai arrastar a Brynn para algum quarto de hotel na noite anterior à maior competição da vida dela? Vai estragar tudo! — Ainda encenando. Ainda fazendo o papel de pai preocupado.
Eu parei e olhei para ele.
Naquele instante, o celular dele acendeu em cima da mesa de centro. Notificação de mensagem de voz. No silêncio mortal da sala, a mão dele esbarrou na tela, e o áudio começou a tocar em voz alta.
A voz de uma garota. Doce, melosa.
Papai, você acha que eu consigo ganhar o campeonato amanhã?
Cinco segundos de silêncio absoluto.
Papai se atirou no celular, os dedos atrapalhados — e o derrubou longe da mesa.
Observei enquanto ele se atrapalhava para pegá-lo, de mãos e joelhos no chão.
— Sua filha querida está esperando por você. Para de fingir. Está ridículo.
Mamãe não olhou para ele de novo. Ela segurou minha mão e nós saímos direto pela porta da frente.
