Capítulo 3

Mamãe passou o resto daquela noite ao telefone com os advogados.

Quando levei uma xícara de chá para ela, já estava com o notebook aberto, vasculhando registros financeiros linha por linha. Papai tinha se casado com a família Caldwell. A casa, os carros, as contas de investimento — tudo levava ao lado da Mamãe. Ele assinara um acordo pré-nupcial antes do casamento, e a equipe jurídica dela já estava garantindo que ele não sairia dali com um único centavo a mais do que a lei exigia.

— E o Nolan? — sentei-me do outro lado da mesa.

Os dedos dela pararam sobre o teclado.

Nolan. Quinze anos na nossa casa. Ele não era filho da Mamãe — o papai o tinha trocado ainda bebê, um adereço para manter a mentira inteira em pé. Mas o Nolan não fazia ideia. Para ele, Mamãe era Mamãe e eu era a irmã mais velha. Ele vivia atrás de mim para todo lado, enfiava a mesada por baixo da minha porta quando achava que eu estava tendo uma semana difícil.

— Já dei uma olhada em internatos — Mamãe manteve a voz firme, mas alguma coisa mudou por trás dos olhos. — Ele é uma criança inocente. Eu sei disso. Mas toda vez que eu olho para ele, tudo o que eu vejo são quinze anos das mentiras daquele homem. Eu não consigo. Não agora.

Eu não insisti. Ela já tinha coisa demais para resolver.

— Quando você descobriu tudo isso? — Ela fechou o notebook e me encarou. — Desde o começo.

Encostei-me na cadeira e comecei a falar.

— Três meses atrás. Eu saí mais cedo de um período de treinamento e fui ao centro da cidade… eu queria buscar aquele colar de pérolas que você estava namorando. Para o seu aniversário.

Os lábios da Mamãe se entreabriram. Eu tinha dito que tinha comprado pela internet.

— Eu passei pelo balcão de joias e ele estava lá. Com o braço em volta da Renee. A Laurel sentada na frente dos dois, experimentando uma pulseira de diamantes feita sob medida que provavelmente custava mais do que todo o meu equipamento. — Eu não deixei a voz tremer. — No mês passado, no meu aniversário de dezoito anos, ele me deu um par de munhequeiras que pegou numa arara de saldão.

As mãos da Mamãe se fecharam em punhos sobre os joelhos.

— Eu não confrontei ele. Eu precisava de prova primeiro. — Continuei. — Comecei a jogar fora os smoothies dele toda manhã e a fazer meu próprio café da manhã. Minhas mãos pararam de tremer em uma semana. Eu pulei do quarto lugar nos campeonatos do clube de volta para o primeiro, assim, do nada. Depois, eu mesma encontrei um médico e fiz seis baterias de exame de sangue em dois meses. Todos os painéis deram positivo.

Parei um instante.

— E o tempo todo… toda manhã… ele sentava do outro lado de mim no café, perguntando do meu treino, dizendo para eu descansar e me alimentar bem. Aí saía pela porta e ia comprar para a Laurel flechas de carbono de primeira linha e um arco feito sob medida.

Mamãe pressionou as palmas das mãos contra as coxas. Se obrigando a ficar imóvel.

— Fica pior. — Inclinei-me para a frente. — Na semana passada, a Laurel chegou em mim no clube e cortou a corda do meu arco com uma tesoura. Na minha frente. Quando eu fui para cima dela por causa disso, ela nem piscou.

Eu ainda conseguia vê-la ali, parada. O casaco de tiro novinho que papai tinha comprado para ela. Girando a tesoura entre os dedos como se fosse um brinquedo.

Não dá para perceber? Estou te dando uma lição em nome do seu papai.

— Ela acha que, porque ele protege ela, pode fazer o que quiser comigo. — Eu encarei a Mamãe. — Ela não faz ideia do que vem aí.

Mamãe se levantou. Atravessou a sala. Me puxou para ficar de pé e me abraçou com força.

— Amanhã — ela disse. — Vá buscar o que é seu. O resto dessa bagunça… deixa comigo.

Eu a abracei de volta. Depois fui para o meu quarto e arrumei meu equipamento para a manhã seguinte.

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