Capítulo 4
Primeiro dia das Seletivas.
Eu atravessei a multidão no centro esportivo da cidade com a aljava nas costas e o rosto impassível. Bicampeã nacional juvenil em título. Eu sentia cada par de olhos me acompanhando pelo saguão. Que olhassem.
Eu seguia pelo corredor em direção à área de equipamentos quando uma voz cortou o burburinho.
— Ora, ora. Vejam só se não é a campeã reinante.
Laurel. Barrando meu caminho, com duas amigas do clube a ladeando. Maquiagem completa de competição — mais ensaio fotográfico do que prova de arco e flecha.
— Sai da frente — eu disse, sem diminuir o passo.
Ela não saiu. Deu um passo para mais perto.
— Coragem de falar, pra alguém cujo mundinho tá prestes a desmoronar. O papai me contou tudo ontem à noite. — Ela inclinou a cabeça, sorrindo. — Como é saber que sua mãe vai ser jogada fora que nem equipamento da temporada passada?
Eu continuei andando.
— Deve ser de família — ela gritou atrás de mim. — Sua mãe não consegue segurar homem nenhum, e você não consegue segurar um título—
Eu me virei num giro e chutei em cheio o joelho dela.
Ela caiu com força, gritando.
— Tira o nome da minha mãe da sua boca. — Olhei para baixo, para ela. — Você e a Renee é que vivem catando as sobras de outra mulher. Não se confundam sobre quem é o lixo aqui.
— BRYNN!
A voz do meu pai veio trovejando quando ele dobrou a esquina. Bastou ele olhar a Laurel no chão — lágrimas escorrendo, rímel borrado até não dar mais — que o rosto dele se retorceu inteiro.
— Papai! Ela me atacou! Eu não consigo andar — eu não vou conseguir competir! — Laurel se agarrou ao braço dele no segundo em que ele chegou perto, soluçando sob encomenda.
Meu pai não perguntou o que tinha acontecido. Nem sequer olhou pra mim até ter a Laurel nos braços. Aí ele se virou.
Olhos injetados. As veias do pescoço saltadas.
— Ela é sua irmã!
— Ela não é nada pra mim.
Alguma coisa quebrou por trás dos olhos dele. Ele soltou a Laurel, puxou o braço para trás e agarrou a primeira coisa que a mão encontrou — uma haste estabilizadora de aço em cima do carrinho de equipamentos.
Ele a golpeou contra o meu braço direito.
Eu ouvi o estalo antes de sentir.
Aí a dor veio. Branca, ardente, em todo lugar ao mesmo tempo. Meu braço direito morreu. Dedos, punho, antebraço — tudo simplesmente parou de funcionar. Caiu ao meu lado como se não fosse mais meu.
Laurel parou de chorar. Olhou para o meu braço pendendo, frouxo, e um sorriso lento foi se espalhando no rosto dela. Ela articulou duas palavras, sem som.
Você acabou.
— QUE PORRA VOCÊ ACABOU DE FAZER?!
A voz do vovô explodiu do fim do corredor. Setenta e dois anos e um quadril ruim, mas ele cobriu a distância mais rápido do que alguém teria o direito de cobrir. Ex-treinador principal da equipe olímpica de tiro com arco dos Estados Unidos — aquele lugar era o território dele, e meu pai tinha acabado de cruzar todas as linhas existentes.
Ele agarrou meu pai pela gola e o arremessou contra a parede com tanta força que fez tremer.
— Sai. Sai deste prédio antes que eu mesmo chame a polícia.
A boca do meu pai se mexeu.
— Ela começou — ela bateu—
— Eu disse PRA SAIR. — Outro empurrão na direção da saída. Um funcionário já estava no rádio, chamando a segurança.
Então o vovô estava ao meu lado. As mãos dele tremiam quando levantou meu braço. A cor sumiu do rosto.
— Fratura de ulna. Dano nos ligamentos — ele murmurou, quase sem voz.
Vinte minutos depois, eu estava na sala médica. Tala no braço. O médico dando o veredito.
— Três meses, no mínimo, de recuperação. Competir esta semana está fora de questão.
Mamãe e vovó chegaram logo depois — mamãe mal se aguentando em pé, vovó de boca fechada e furiosa. Elas rodearam. Elas explodiram. Prometeram que meu pai ia pagar por isso.
O vovô deixou as duas terminarem. Então pediu que saíssem.
A porta se fechou. A sala ficou silenciosa.
Ele puxou uma cadeira ao lado da minha maca e se sentou.
— Uma pergunta. — A voz dele estava baixa. Firme. — Você vai deixar que acabe assim? Três anos de trabalho. Cada treino das cinco da manhã, cada calo rasgado, cada torneio que você atravessou no osso. Tudo isso — perdido. Porque aquele homem pegou uma barra de metal.
Meus olhos arderam. Meu braço estava em chamas. Eu não conseguia nem fechar os dedos num punho.
— Não.
Ele sustentou meu olhar por um bom tempo. Então assentiu.
— Ótimo. Ele rachou o osso. Não quebrou você. Já basta.
Ele se levantou e foi até a porta.
— Vou lidar com a equipe médica. Você sai daqui hoje à noite. Amanhã de manhã, você se apresenta no estande.
E foi embora.
Eu fiquei encarando o teto. Amanhã era a primeira rodada.
Meu braço de puxada estava destruído. Eu não conseguia segurar a corda. Eu não conseguia encaixar uma flecha.
O vovô esperava que eu competisse.
Eu não fazia a menor ideia de como.
