Capítulo 1

POV da Evelyn

Toda vez que meu marido quer me fazer ceder, ele bate uns papéis de divórcio na mesa. Toda vez que meus pais querem que eu abaixe a cabeça, eles ameaçam me deserdar.

O que eles querem é simples: entregar tudo para a minha irmã gêmea.

Eu costumava revidar. Chorava. Exigia saber por que sempre tinha que ser eu.

Mas quando o médico desliza os resultados dos exames pela mesa e me diz, com aquela voz cheia de pena: “Câncer no cérebro em estágio quatro. Você tem um mês, talvez menos”, alguma coisa dentro de mim simplesmente... para de se importar.

Eu vou morrer de qualquer jeito. Eles podem fazer o que bem quiserem.


Estou do lado de fora do hospital quando meu celular começa a tocar.

Marcus.

Atendo. “Onde você está?” A voz dele já vem irritada. “Volta pra casa. A Kaley desmaiou de novo. O médico disse que a gente precisa marcar a cirurgia o quanto antes. Você vai assinar hoje esse consentimento de doação do rim. Entendeu?”

Antes que eu consiga dizer qualquer coisa, ele continua. “E não vem com suas palhaçadas dessa vez. Se você enrolar mais, eu mando meu advogado dar entrada. A escolha é sua.”

Ele desliga.

Eu fico encarando a tela preta, com a cabeça vazia. Não é a primeira vez que o Marcus ameaça divórcio. No mês passado foi porque a Kaley queria meu colar. No mês anterior, ela queria se mudar para a suíte do casal.

Quanto ao lance do rim, eles estão fazendo pressão em cima de mim há seis meses, desde que a Kaley foi internada.

Meu pai ligou gritando: “Tá se sentindo bem sendo a irmã mais velha, é? Ela foi fraca a vida inteira porque você tirou tudo dela antes mesmo de nascer! Ela tá morrendo agora, e você não consegue dar um rim?”

Minha mãe foi pior, chorando: “Se você não salvar sua irmã, você não faz mais parte dessa família. A gente não te criou pra ficar vendo sua irmã morrer!”

O Marcus foi o mais direto: “Se você me amasse de verdade, não me colocava nessa situação. Você é a única compatível com a Kaley. Se você não assinar, você tá me fazendo escolher entre vocês duas.”

Eu disse não naquela época.

Meu pai saiu batendo o pé. Minha mãe apontou o dedo na minha cara e me chamou de “monstro sem coração”. O Marcus jogou os papéis do divórcio em cima de mim.

Mas agora? Nada disso importa.

Estou sentada no carro, olhando o céu cinzento lá fora e, pela primeira vez, sinto esse alívio estranho.

Só me resta um mês. Ela pode ficar com o rim. Nem vou precisar disso.

Quando entro na garagem, já está anoitecendo.

Eu nem abri a porta da frente e já ouço risadas vindo da sala.

Entro. Meus pais estão sentados, um de cada lado do sofá. O Marcus está no meio. A Kaley está encolhida, agarrada nele. Tem um prato de frutas cortadas na mesa de centro. Meu pai está contando alguma piada. O Marcus olha para a Kaley com uma expressão tão suave, tão carinhosa.

A Kaley está usando um vestido de cashmere cor creme, as bochechas coradas, os olhos brilhando de tanto rir.

Não parece alguém que precisa de um rim novo.

A porta faz um clique ao fechar atrás de mim. O Marcus levanta o olhar. No segundo em que me vê, o rosto dele endurece.

Ele se levanta, puxa dois documentos da gaveta da mesa de centro e joga aos meus pés.

—Termo de consentimento pro rim. Papéis do divórcio. —O tom dele é seco, como se estivesse resolvendo burocracia no escritório. —Escolhe um. Hoje.

Meus pais param de conversar e viram pra me encarar.

Minha mãe franze a testa. —Por que você tá chegando tão tarde? A Kaley teve febre hoje à tarde. Você tem noção do medo que a gente passou?

Meu pai dá uma risada de desprezo. —Sempre na rua, correndo pra lá e pra cá. Podia usar esse tempo pra se preocupar com a sua irmã, em vez disso.

Eu me abaixo e pego os documentos.

A data da cirurgia no termo de consentimento já está preenchida. Daqui a sete dias. Os papéis do divórcio têm o timbre de um escritório de advocacia no topo. O Marcus já estava com isso pronto fazia tempo.

Eu fico ali, olhando pros quatro.

A Kaley morde o lábio. —Evelyn, não se sinta mal... Eu sei que você não quer doar. Tá tudo bem. Eu vou dar um jeito...

—Dar um jeito como? —Marcus corta ela, me fuzilando com o olhar. —Você é a única compatível dela. Pra onde você acha que ela vai?

Minha mãe começa a chorar. —Exatamente. Como é que você consegue ficar olhando e deixar ela morrer?

Eu não digo nada. Só encaro o termo de consentimento por um bom tempo.

Aí eu vou até a mesa de centro, pego uma caneta e assino meu nome.

A sala fica muda por um segundo. Depois todo mundo explode.

—Ai, graças a Deus! —Minha mãe enxuga os olhos e corre pra abraçar a Kaley. —Minha menininha vai ficar bem!

Meu pai solta um suspiro enorme e dá um tapão no ombro do Marcus. —Era pra ter feito isso desde o começo. Ela é a irmã mais velha. Tem que cuidar da irmãzinha.

Marcus me encara por alguns segundos. A expressão dele amolece um pouco, mas ainda não tem carinho nenhum. —Boa escolha.

Então ele volta a atenção pro sofá e continua falando com a Kaley.

Eu baixo o olhar. Enquanto eles estão distraídos, eu pego os papéis do divórcio, viro até a última página e rabisco minha assinatura.

Depois coloco tudo num canto da mesa de centro.

Ninguém percebe.

A comemoração continua por uns dez minutos. Minha mãe até pega o celular pra pedir comida no delivery. —A gente tem que comemorar direito —ela diz.

Quando ela abaixa o celular, de repente parece lembrar que eu existo. Ela se vira pra mim. —Ah, e não fica tão preocupada. Quando a cirurgia da Kaley der certo, o fundo da família ainda vai ser dividido entre vocês duas. A gente não vai te passar a perna em nada.

Meu pai concorda com a cabeça. —Isso. Você é teimosa, mas ainda é nossa filha.

O Marcus se recosta no sofá e solta, como se não fosse nada: —Quando ela melhorar, cada um segue a própria vida. Você devia parar de pegar tanto no pé dela.

Quando ele diz isso, a Kaley tá encaixada nele. Minha mãe tá sentada do lado da Kaley, servindo água pra ela. Meu pai tá de pé atrás do sofá, sorrindo.

Os quatro formam um circulozinho perfeito. Uma família.

E eu tô do outro lado da mesa de centro, olhando de fora.

Eu olho pra eles e quase dá vontade de rir.

Herança? Seguir a vida?

Eu nem vou chegar no mês que vem. Pra que eu preciso de qualquer coisa disso?

Eu balanço a cabeça. —Esquece. Eu não preciso mais disso.

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