Capítulo 2
POV da Evelyn
Marcus franze a testa. “Que porra você tá falando? Que não precisa? Você briga com a sua irmã por tudo desde criança. Agora a gente tá oferecendo pra você e, do nada, você se acha boa demais pra isso?”
O pai entra no meio na mesma hora. “Exatamente. Para com esse teatro. A gente disse que ia te dar, então vai dar. Agora você não vem bancar a mártir.”
A mãe suspira. “Você sempre foi assim.”
Eu olho pros três. Cada rosto mostrando a mesma coisa: eles não confiam em mim.
As lembranças vêm com tudo.
Terceira série. Eu ganhei a feira de ciências do estado. Minha professora fez o maior alarde na reunião de pais. A Kaley chegou em casa chorando, dizendo que queria um troféu também. Naquela noite, o meu sumiu dentro do armário de guardar coisas. O pai falou: “É só um troféu. Qual é o problema se a sua irmã ficar com ele?”
Ensino fundamental II. Minha melhor amiga me convidou pra dormir na casa dela. A Kaley ficou sabendo e implorou pra mãe e pro pai deixarem ela ir no meu lugar. Foi ela quem acabou indo. Eu fiquei em casa. No colégio, minha amiga me perguntou por que eu não apareci. Eu não tive coragem de explicar.
Baile de formatura. Eu tinha juntado seis meses de dinheiro do meu trabalho de meio período pra comprar um vestido. A Kaley viu e disse que gostava mais dele. No dia seguinte, ele estava pendurado no guarda-roupa dela. No lugar do meu, tinha uma imitação barata.
Eu nunca fui do tipo que gostava de competir. Eu só queria as coisas que eram minhas. Mas, nessa família, no segundo em que eu tenho alguma coisa, ela já não é mais minha.
Até o Marcus foi tirado de mim com as mentiras dela.
A Kaley levanta o olhar pra mim. Os olhos dela não estão frágeis. Estão exibidos, se mostrando.
Eu me viro e subo as escadas. Atrás de mim, eu ouço eles rindo. Um riso quente, confortável. Sem nada a ver comigo.
Os dias seguintes ficam estranhamente calmos.
Eu assinei o termo de consentimento, então finalmente eles pararam de me encher o saco dia sim, dia não.
Agora o Marcus está aqui em casa todos os dias, fazendo companhia pra Kaley. Eu ouço os dois rindo lá embaixo, sinto o cheiro de bacon na frigideira e café passando. Eu evito os dois de propósito, passando a maior parte do tempo no meu quarto.
Um dia, eu tô rolando o Instagram e vejo uma postagem da Kaley.
Na foto, o Marcus aparece levando uma bandeja de café da manhã pra ela. Legenda: “Sou mais feliz quando alguém cuida de mim.”
Os comentários estão bombando.
“MEU DEUS, vocês dois são tão fofos juntos!”
“Esse é seu namorado?? Ele tá te mimando!”
“Tô com inveja, quando vocês vão assumir de vez?”
Eu fico encarando aqueles comentários por um bom tempo. No fim, fecho o aplicativo.
Eles acham que ele é o namorado dela. Ninguém sabe que o cara que tá mimando ela é, na verdade, meu marido.
Eu digo pra mim mesma que não importa. Eu vou morrer de qualquer jeito. Que diferença faz ela ficar com o título?
Mas a ironia é que, justamente quando eu acho que posso passar o tempo que me resta em paz, tudo desanda.
Quarta noite, já depois da meia-noite. Gritos lá embaixo me acordam.
Quando eu chego lá embaixo, a Kaley está chorando tanto que mal consegue respirar. Meus pais estão em pânico ao redor dela. Ela está fedendo a álcool, com as bochechas vermelhas, queimando.
“Eu... eu bati em alguém...” Ela engasga nas palavras. “Eu não sei o que aconteceu com ele. Eu surtei e só... fui embora... eu dirigi pra casa...”
Eu fico parada no pé da escada. Eu sei exatamente o que aconteceu.
A Kaley nunca foi boa em seguir regras. Esses últimos dias, presa em casa, provavelmente deixaram ela maluca. Hoje à noite, ela deve ter escapado pra beber com os amigos, dirigiu bêbada, atropelou alguém e voltou correndo pra casa, apavorada.
O Marcus aparece também. Ele ouve tudo, o rosto dele escurece por um segundo, mas logo ele disfarça. Ele consola a Kaley por um tempo e, depois, se vira pra me encarar.
“Evelyn, você vai se entregar.”
Eu travo.
A voz dele é objetiva, como se estivesse falando do tempo. “Vocês duas são idênticas. Ninguém consegue distinguir uma da outra. E você é a irmã mais velha, você é muito mais saudável do que ela. Você precisa assumir a culpa por isso.”
“Não se preocupa. Eu vou arrumar um advogado pra fechar um acordo com a vítima. Eu tenho gente na Promotoria. No pior dos casos, você fica presa por alguns dias e depois a gente paga fiança e te tira de lá.”
Os olhos dos meus pais se acendem. Eles entram na hora. “Isso! Você tem que fazer isso! Sua irmã está doente demais, ela não sobreviveria lá dentro!”
Eu abro a boca. Eu quero dizer que eu tenho câncer no cérebro. Que talvez eu não passe deste mês.
Mas, olhando pra cara deles, tão certos de si, as palavras morrem na minha garganta. Pra quê? Eles não acreditariam em mim. Eles não se importariam.
“Tá bom.”
Marcus balança a cabeça, satisfeito, e puxa o celular na mesma hora pra ligar pro 190.
Eu me viro e volto pra cima. Fecho a porta do meu quarto.
Meu quarto ainda está cheio de coisas com as quais eu não mexi. Eu pego um saco de lixo e começo a enfiar tudo lá dentro. Fotos de casamento, fotos de família, presentes de aniversário que o Marcus me deu. Tudo vai pro lixo.
No meio do processo, uma onda violenta de tontura me atinge.
Eu agarro a beirada da cama e desabo de joelhos. Minha visão embaça. Algo quente pinga do meu nariz no chão.
Eu aperto a mão contra o nariz. O sangue encharca meus dedos em segundos.
Meu corpo está desistindo.
A porta se abre. Marcus está ali. Ele me vê ajoelhada no chão, com sangue escorrendo do meu nariz. Ele hesita.
“O que aconteceu?”
Eu pego lenços depressa, pressionando contra o nariz, tentando parecer normal. “Eu só tropecei. Não é nada.”
Ele franze a testa, me encarando por alguns segundos, mas não insiste.
“A polícia chegou”, ele diz. “Mas não se preocupa, meu advogado já está vindo. Você só vai ficar lá alguns dias. Vou pedir pra ele negociar um acordo com a vítima, depois pagar a fiança e te tirar.”
Ele se vira e vai embora. Os passos dele somem pelo corredor.
Eu fico sentada no chão, olhando os lenços ensopados de sangue na minha mão.
Talvez eu nem aguente alguns dias.
