Capítulo 4
POV da Evelyn
Marcus congela quando ouve o que eu disse.
Ele fica me encarando, procurando alguma coisa no meu rosto. Mas eu já fechei os olhos.
— Do que você tá falando? — ele zomba, mas a mão ainda segura a grade da maca. — Quando isso acabar, eu te dou dez milhões. Você mereceu.
Ele faz uma pausa. — E aquele colar que você queria? Eu compro pra você quando a Kaley estiver melhor.
A voz da minha mãe entra no meio, afiada de irritação. — É só um rim. Você não vai morrer. Para de drama. A Kaley tá esperando!
Meu pai concorda com a cabeça. — É. Quanto mais rápido a gente terminar isso, mais rápido a gente volta ao normal.
Marcus solta a grade e começa a se virar.
Eu abro os olhos e encaro as costas dele. — Nem perde seu tempo. Guarda isso pra alguém que realmente vá conseguir usar.
Ele se vira de volta como se fosse dizer alguma coisa, mas a enfermeira já está me levando em direção ao centro cirúrgico.
A porta se fecha atrás de mim. Tudo fica silencioso.
As luzes do teto explodem num branco intenso, queimando meus olhos.
— Frequência cardíaca elevada. Pressão arterial baixa demais. — O anestesista franze a testa para o monitor. — A paciente está com peso muito abaixo do ideal e os sinais vitais estão fracos. Temos certeza de que ela aguenta uma cirurgia?
O cirurgião folheia meu prontuário. A expressão dele piora. — Tem alguma coisa estranha na tomografia do crânio dela...
— Não importa. — Outra voz corta ele. — O senhor Sterling disse que a receptora vem em primeiro lugar. A senhorita Kaley já está preparada e esperando. Vamos começar.
Eu quase dou risada.
Então até a minha vida é decidida assim. Só mais um item na lista de afazeres dele.
A anestesia fria corre pelas minhas veias. Eu sinto minha consciência escorregando, camada por camada.
Quando o bisturi corta minha pele, alguma coisa dentro de mim finalmente se solta.
A dor de cabeça. A dor no peito. O cansaço. Tudo simplesmente... desaparece.
Eu estou flutuando.
Olhando para baixo, eu vejo uma mulher na mesa de cirurgia, o rosto sem cor nenhuma.
É o meu corpo.
— O coração da doadora parou!
— Tragam o desfibrilador!
— Sem pressão. Ela tá hemorragiando—
As vozes apavoradas dos médicos ecoam ao meu redor, mas eu só observo. Tranquila.
Não vai adiantar. Meu cérebro já desligou tudo. O tumor mais o trauma da cirurgia. Este é o fim que eu escolhi pra mim.
A linha verde no monitor achata.
— Horário do óbito: dezesseis e trinta e cinco.
O médico larga as pás. Uma enfermeira pega o telefone com as mãos tremendo e liga para o Marcus.
Eu atravesso a parede e vou para a sala de espera ao lado.
Marcus está lá em pé, esperando a notícia de que a cirurgia terminou.
O celular dele toca. Ele dá uma olhada e atende, irritado.
“Fala.”
“Sr. Sterling, temos um problema. A Evelyn, ela—”
“O quê agora?” ele corta a mulher. “Diz pra ela parar com esse teatro e sair dessa mesa. Eu não tenho tempo pra isso. Manda ela voltar pro quarto.”
“Sr. Sterling—”
Ele desliga. Vira-se para a assistente. “Pega umas flores. A Kaley vai querer quando acordar.”
Eu estou flutuando bem na frente dele. A menos de dois centímetros.
Estendo a mão para tocar o rosto dele. Minha mão atravessa direto.
“Marcus”, eu sussurro, mesmo sabendo que ele não pode me ouvir. “Eu cansei de fingir. Dessa vez é de verdade.”
Ele estremece de leve e puxa a gola da camisa. “Por que o ar tá gelando tanto assim?”
Ele não sabe que é a esposa morta tentando segurá-lo uma última vez.
Meu corpo é empurrado numa maca sob um lençol branco, seguindo pro necrotério.
Do outro lado do corredor, a porta do centro cirúrgico se abre e trazem a Kaley. Mamãe, papai e Marcus se juntam ao redor dela na mesma hora.
“Kaley! Como você tá se sentindo?”
“A cirurgia foi perfeita! O médico disse que é compatível, perfeito!”
“Nossa menina finalmente tá saudável de novo!”
De um lado do corredor, risadas e comemoração. Do outro, silêncio e escuridão.
Ninguém nem olha pra maca solitária parada ali.
Eles levam a Kaley pra casa e compram passagens pras Maldivas.
Ninguém sabe que a Kaley não recebeu transplante nenhum. Depois que tiraram meu rim, um médico simplesmente jogou fora.
A doença. A cirurgia. Tudo foi armado — ela pagou médicos pra encenarem.
Tudo pra eu desaparecer de vez e ela ficar com tudo só pra ela.
Alguns dias depois, eles voltam das Maldivas.
Marcus percebe que a casa parece vazia. A porta do meu quarto está bem fechada. Nenhum som lá de dentro.
Ele pega o celular e me liga. Nada.
Então ele liga pro hospital.
“Oi, aqui é Marcus Sterling. Minha esposa ainda está aí? Evelyn Sterling?”
Silêncio do outro lado por alguns segundos. “Sr. Sterling, a Evelyn faleceu. Nós tentamos ligar pro senhor. O senhor não acreditou, então o corpo dela está no necrotério.”
“Isso é ridículo!” Marcus interrompe. “Ela não pode—”
“Sr. Sterling.” A voz fica fria. “Venha ver com os próprios olhos se não acredita em mim. Ela está no necrotério do hospital.”
A ligação cai.
“O que tá acontecendo?”, papai pergunta.
“Nada.” Marcus pega as chaves. “Vou ao hospital procurar ela.”
Ele vai a toda pro hospital. O médico o conduz por um corredor comprido sem dizer uma palavra. Eles param no necrotério.
Uma maca está num canto.
Em cima dela, uma figura coberta por um lençol branco.
