Capítulo 3
Ponto de vista de Olivia
Eu me larguei contra o balcão, com os olhos pesados depois de mais uma noite virada ensaiando falas. A cafeteria fervilhava com a correria da manhã, e eu vesti meu melhor sorriso falso quando outro cliente se aproximou.
— Bem-vindo, senhor. O que posso preparar para você?
O homem apertou os olhos para o cardápio, franzindo a testa numa concentração profunda, como se estivesse tentando decifrar hieróglifos antigos em vez de decidir entre um latte e um cappuccino.
— Ahm... qual é a diferença entre um macchiato e um cortado?
Engoli um suspiro. Ia ser uma dessas manhãs.
— O macchiato é um espresso com uma colherada de leite vaporizado, enquanto o cortado é metade espresso e metade leite vaporizado.
Ele assentiu devagar, ainda com cara de confuso.
— Certo... e um americano?
— É espresso com água quente.
— Hm. Interessante. Sabe de uma coisa? Vou querer um café pequeno. Preto.
Forcei meu sorriso a se alargar.
— Saindo já!
Enquanto eu servia o café dele, minha mente voltou ao desastre do teste de ontem. A lembrança me fez estremecer de vergonha.
— Aqui está seu café. Tenha um ótimo dia! — cantei, usando minha melhor voz de atendimento.
Ele grunhiu em resposta e foi se arrastando embora. Eu o vi sair, pensando se ele tinha noção de como era sortudo por ter um trabalho que não exigia fingir estar alegre o tempo todo.
Minha colega de trabalho, Jess, chegou de mansinho ao meu lado.
— E aí, como você está aguentando, superstar?
— Não me chama assim. Eu tô o mais longe possível de ser uma estrela agora.
— Ah, qual é. Alguns testes ruins não definem você. Na próxima você consegue.
— Valeu, Jess. Mas, no momento, minha carreira de atriz tá tão promissora quanto o nosso pote de gorjetas. — Apontei com a cabeça para o recipiente triste, quase vazio, no balcão.
Ela riu.
— Ei, vai que aparece algum grande produtor de Hollywood pra tomar café e te descobre.
— Aham. E vai que eu crio asas e voo até a lua.
O sino acima da porta tilintou, e nós duas viramos para ver uma mulher de terninho entrar às pressas, com o celular colado na orelha, a cara de quem estava no limite.
— Eu preciso do maior e mais forte café que vocês tiverem — ela articulou para mim, ainda falando sem parar ao telefone.
Eu assenti e fui preparar o pedido, tentando ignorar a conversa alta sobre relatórios trimestrais e sinergia, ou qualquer coisa que esse pessoal corporativo falava.
Enquanto eu vaporizava o leite, me peguei pensando como seria ter um trabalho em que as pessoas se importassem com o que você dizia, em que suas palavras tivessem peso, em vez de serem só ruído de fundo no dia de outra pessoa.
— Aqui está seu espresso com dose tripla, senhora — falei, deslizando o copo pelo balcão.
Ela pegou sem olhar, ainda presa à ligação.
— Obrigada — murmurou, antes de sair pela porta como um furacão de perfume e importância.
Observei ela ir embora, sentindo uma pontada de inveja. Ela parecia estressada, mas pelo menos tinha para onde ir. Algo importante para fazer. Enquanto isso, eu estava presa ali, servindo café superfaturado para pessoas que mal sabiam que eu existia.
A manhã se arrastou, um borrão de lattes, muffins e pedidos de bebida cada vez mais bizarros. Quando finalmente chegou a minha pausa, meus pés doíam, e os músculos do meu sorriso ameaçavam entrar em greve.
Desabei numa cadeira na salinha dos fundos, pegando o celular para checar as mensagens. Nada do meu agente. Nenhuma ligação perdida de diretores de elenco. Só tinha uma mensagem do Logan perguntando como estava indo o meu dia.
Digitei uma resposta rápida: “Sobrevivendo. Por pouco. Tenho quase certeza de que hoje eu inhalei mais borra de café do que oxigênio.”
A resposta dele veio quase na hora: “Aguenta firme, gata. Você é mais dura do que qualquer grão de café!”
Eu sorri. O Logan sempre sabia como me animar, mesmo que as piadas dele fossem mais sem graça do que os muffins que a gente servia.
Eu estava prestes a responder quando o celular vibrou de novo. Dessa vez, era uma mensagem da Emma.
“Oi, amiga! Não esquece: a festa de aniversário do Jake é neste sábado. Você vem, né? 🎉🎂”
Jake. O namorado da Emma. O equivalente humano a ficar vendo tinta secar. Mas a Emma era uma das minhas melhores amigas, e eu sabia que ela ficaria arrasada se eu não aparecesse.
Respondi: “Não perderia por nada! 😊 Quer que eu leve alguma coisa?”
A resposta da Emma foi imediata: “Só você, toda maravilhosa!”
“Só você, toda maravilhosa!” Fácil falar. A minha versão maravilhosa, naquele momento, estava se afogando em borra de café e insegurança.
“Acabou a pausa!”, a Jess gritou lá da frente. “Tá formando fila!”
“Já vou!”, gritei de volta, enfiando o celular no bolso do avental.
Quando voltei para o balcão, peguei meu reflexo no metal cromado da máquina de espresso. Meu cabelo estava arrepiado por causa do vapor e eu tinha uma mancha de alguma coisa — provavelmente calda de chocolate — na bochecha. Maravilhosa mesmo.
O resto do turno passou num borrão cafeinado. Quando bati o ponto, eu já tinha certeza de que conseguia sentir cheiro de cores e ouvir formas. As delícias de trabalhar numa cafeteria.
Cambaleei para o sol do fim da tarde, piscando feito uma toupeira saindo da toca. Embora meu apartamento ficasse a apenas alguns quarteirões, naquele momento parecia uma travessia pelo Saara.
Enquanto eu andava, não consegui evitar fantasiar como seria se eu realmente desse certo como atriz. Nada de turnos de madrugada. Nada de lidar com clientes mal-humorados antes da primeira xícara de café. Nada de cheirar como um Starbucks ambulante.
Mas aí a realidade despencou de volta. Quem eu estava querendo enganar? Depois do desastre de ontem, eu ia ter sorte se algum dia conseguisse outro teste.
