Capítulo 4
Ponto de vista de Olivia
Agarrei o presente embrulhado às pressas enquanto Logan conduzia pelas ruas do subúrbio. O sol estava se pondo, projetando sombras compridas sobre os gramados impecáveis e as casas todas iguais.
Encostamos na casa do Jake, um sobrado bege de dois andares que parecia exatamente com todas as outras da rua. A garagem já estava lotada de carros, e eu conseguia ouvir, lá de dentro, a batida abafada da música.
Desviamos de convidados meio bêbados no gramado enquanto nos aproximávamos. Logan tocou a campainha, e eu forcei um sorriso animado.
A porta se abriu de supetão, revelando Emma em toda a sua glória de anfitriã.
— Olivia! Logan! — Emma guinchou, esmagando a gente num abraço. — Que bom que vocês vieram!
— Não perderia por nada — consegui chiar quando ela nos soltou.
Emma nos conduziu para dentro, falando sem parar sobre os preparativos da festa e o quanto tinha ficado estressada para deixar tudo perfeito para o aniversário do Jake.
Avisti Jake na sala de estar, mergulhado numa conversa com um grupo de caras que pareciam ter acabado de sair de um catálogo da J. Crew.
— Jake, querido! — Emma chamou. — Olha quem está aqui!
Jake se virou, o rosto mal se iluminando.
— Ah, oi, gente — disse, vindo arrastado até nós. — Valeu por terem vindo.
Empurrei o presente na direção dele, ansiosa para acabar logo com as formalidades.
— Feliz aniversário, Jake.
Ele pegou o pacote, olhando com uma curiosidade morna.
— Valeu, Olivia. Você não precisava.
— Ah, não é nada — falei, abanando a mão com desdém. E realmente não era nada: só um cartão-presente genérico que eu tinha comprado no caminho. — Espero que você goste.
Jake deixou o presente de lado sem abrir. Um silêncio constrangedor se instalou, quebrado apenas pelo grave pulsando de algum hit do top 40.
Emma se apressou em preencher o vazio.
— E então, Olivia, como vão as coisas na atuação? Tem alguma audição grande chegando?
— Ah, você sabe... ainda correndo atrás. Nada concreto ainda — respondi com leveza, mascarando o tumulto por dentro por causa da minha audição recente, que tinha dado errado.
Logan apertou minha mão, num gesto tranquilizador.
Os olhos de Jake se acenderam.
— Esqueci de te apresentar meu velho amigo, o Thomas. Ele é diretor de elenco.
Eu pisquei, certa de que tinha ouvido errado.
— Desculpa, o quê?
Mas Jake já estava segurando meu braço, praticamente me arrastando em direção às portas do pátio.
— Vem, vou te apresentar!
Lancei a Logan um olhar apavorado. Ele me deu um joinha e, sem som, articulou:
“Você consegue!”
Fácil falar.
O aperto de Jake no meu braço parecia uma morsa enquanto ele me puxava pelas portas de vidro de correr para o pátio. O ar frio da noite estalou no meu rosto, me deixando dolorosamente ciente de como eu estava malvestida. Minha blusa simples de algodão e a calça social preta sem graça gritavam “acabei de sair de um turno duplo na cafeteria”, em vez de “atriz aspirante pronta para impressionar”.
O pátio fervilhava de convidados reluzentes em trajes de coquetel. Eu me senti como uma moeda de centavo opaca no meio de dólares de prata, o estômago revirando de vergonha e ansiedade.
— Jake, espera — sibilei, tentando fincar os calcanhares. — Eu não estou exatamente vestida para—
— Bobagem! — Jake cantarolou, com um entusiasmo incomum que me alarmou. — O Thomas não liga. Ele é de boa.
Claro. Nada diz “de boa” como um diretor de elenco de Hollywood num aniversário no subúrbio.
Atravessamos a multidão em zigue-zague, desviando de braços soltos e bebidas derramadas. Pedaços de conversa flutuavam — ações, viagens para Aspen e... eu ouvi alguém mencionar um iate?
Jake finalmente parou perto da borda do pátio, onde um grupinho tinha se reunido em torno de um homem que gesticulava feito louco, claramente no meio de uma história.
"—e aí eu disse: ‘Escuta aqui, Spielberg, não tô nem aí se você é o rei de Hollywood, você não pode estacionar seu dinossauro aí!’"
O grupo explodiu em gargalhadas, e eu senti o estômago despencar. Esse era o Thomas? O homem que tinha meu possível futuro nas mãos estava, naquele exato momento, contando piada de tiozão para um bando de moradores de subúrbio meio bêbados?
Jake pigarreou. “Ei, Thomas! Tem um minutinho?”
Thomas se virou, com os olhos um pouco desfocados. “Jaquezinho! Aí está você, aniversariante! O que manda?”
Jake me empurrou para a frente como se eu fosse algum tipo de sacrifício humano. “Queria te apresentar minha amiga, Olivia. Ela é atriz!”
“Oi”, eu disse, tentando salvar um restinho de dignidade. “Prazer em conhecer, sr... hum...”
“Só Thomas, querida”, ele disse, me avaliando de cima a baixo de um jeito que me fez desejar ter passado um batom. “Então, atriz, é? Já fez o quê?”
“Eu... ainda estou tentando”, admiti. “Fiz alguns testes, mas...”
“Mas?”
“Mas todos foram fracassos espetaculares”, disparei. “Tipo, do nível ‘segurança, escolta ela pra fora do prédio’ de tão ruim.”
Para minha surpresa, Thomas caiu na risada. “Ah, meu bem, você não faz ideia de como essa honestidade é refrescante. Você sabe quantas pessoas vêm falar comigo em festas dizendo que são a próxima Meryl Streep?”
“Pode ficar tranquilo que eu definitivamente não sou a próxima Meryl Streep. Talvez a próxima pessoa por quem a Meryl Streep passe na rua, mas...”
“Quer saber um segredo? Metade dessas ‘grandes estrelas’ por aí não conseguiria nem atuar pra sair de um saco de papel quando começou. O negócio é persistência, garota.”
“E conhecer as pessoas certas?”, arrisquei.
Thomas piscou. “Isso também não atrapalha.” Deu um gole na bebida. “Sabe, é engraçado você falar em contatos. Eu tenho um amigo—”
“Deixa eu adivinhar”, interrompi, me sentindo ousada. “Um príncipe nigeriano querendo dividir a fortuna?”
Thomas soltou uma gargalhada tão alta que assustou um grupinho de convidados ali perto. “Ah, você é ótima! Não, não. Ele é bilionário de verdade.”
“E eu suponho que ele esteja procurando um chef particular? Ou talvez alguém pra passear com os spitz alemães campeões dele?”
“Melhor”, Thomas abriu um sorriso. “Ele está produzindo um filme.”
Meu coração deu um salto. “Um... filme?”
“Uhum. Orçamento grande, potencial de blockbuster. O nome dele é Christopher Wallace.”
Eu pisquei. “Espera. O Christopher Wallace? Da Wallace Investments?”
Thomas assentiu. “Ele mesmo. Você já ouviu falar?”
“Quem não ouviu? Ele só aparece nas notícias dia sim, dia não, comprando metade de Hollywood.”
“Dizem por aí que ele não está muito feliz com a escolha do diretor para a atriz principal.”
“E... o quê? Você acha que eu poderia fazer um teste?”
Thomas deu de ombros. “Por que não? Rosto novo, língua afiada... talvez você seja exatamente o que eles estão procurando.”
“Claro, porque com certeza um produtor bilionário está morrendo de vontade de escalar uma barista com uma sequência de testes fracassados.”
“Ei, coisas mais estranhas já aconteceram nesta cidade”, Thomas disse, terminando a bebida. “Olha, não posso prometer nada, mas posso dar uma força, falar bem de você. Colocar seu nome na disputa, por assim dizer.”
Isso era real? Ou eu tinha pegado no sono na cafeteria e aquilo era algum tipo de delírio febril induzido por cafeína?
“Então”, Thomas insistiu, “o que você me diz? Quer tentar?”
“Sabe de uma coisa? Por que não? Quer dizer, o pior que pode acontecer é eu acrescentar mais um fracasso espetacular à minha coleção crescente, né?”
“Esse é o espírito! Vou ligar pro Christopher amanhã pra ver se consigo marcar alguma coisa.”
Enquanto Thomas ditava suas informações de contato, que eu digitei às pressas no celular com os dedos tremendo, eu me perguntava se aquilo estava mesmo acontecendo.
