Chapter 1
A sala de due diligence ficava no decimo sexto andar da sede do Grupo Vasconcelos, de frente para uma Barra da Tijuca que parecia sempre recem-polida. Do vidro, o mar era uma faixa azul sem culpa. La embaixo, carros blindados deslizavam pela entrada como se obedecessem a uma mare particular.
Sergio Nascimento estava sentado no canto mais distante da mesa, com um cracha que dizia SILAS NUNES e uma gravata cinza que ninguem lembraria depois do almoco. Era assim que ele gostava. Invisivel o bastante para ouvir, velho o bastante para ser tratado como parte da mobilia, competente o bastante para receber pastas que nao deveriam circular.
Naquela manha, ele revisava a matriz de riscos legais para a apresentacao aos bancos. O Grupo Vasconcelos queria dinheiro novo para um complexo portuario, tres torres residenciais e uma promessa bonita de revitalizar uma area que eles mesmos tinham ajudado a apodrecer. A CVM, os bancos e os fundos estrangeiros queriam garantias. Otavio Vasconcelos queria aplausos.
Sergio queria uma linha.
Ela apareceu as 10h43.
Contingencias historicas - acordos extrajudiciais anteriores a reestruturacao societaria.
O valor nao era grande para o grupo. Quatrocentos e oitenta mil reais. Menos do que eles gastavam com flores nas recepcoes. O codigo interno vinha abreviado, sem nome de vitima, sem processo, sem documento publico. Mas havia uma data.
17 de janeiro.
Sergio sentiu a pele das costas ficar fria.
A data era a primeira coisa que ele tinha parado de comemorar. Antes, janeiro significava aniversario de Marina, praia, bolo de chocolate comprado em cima da hora, a filha reclamando que ele sempre errava a vela. Depois, janeiro virou a imagem de um saco preto entrando numa viatura, o cheiro de sal no cabelo dela, a caneta tremendo na mao dele diante de um advogado que repetia: assine, seu Sergio, assine antes que inventem coisa pior sobre a sua menina.
Ele nao moveu o rosto.
Na mesa, dois consultores de Sao Paulo discutiam a redacao de uma nota sobre passivos ambientais. Uma advogada junior rabiscava no tablet. No outro lado, Caio Vasconcelos, herdeiro do grupo, rolava o celular com o terno aberto e o tedio de quem sempre fora perdoado antes de pedir desculpa.
Sergio abriu o anexo.
O arquivo estava trancado por permissao superior. Ele esperou, bebeu um gole de cafe frio, fingiu marcar uma pendencia em outro documento. Tres anos dentro daquela familia tinham ensinado a ele que portas nao se arrombavam. Portas se faziam abrir por alguem impaciente.
-
Silas - chamou Ricardo, o diretor financeiro, sem levantar os olhos. - Confere comigo esses acordos antigos. Os bancos vao perguntar por que ainda aparecem na matriz.
-
Claro.
Ricardo girou o notebook para Sergio e digitou a senha sem cobrir o teclado. Era um homem que escondia amantes, nao senhas.
O anexo abriu.
Nenhum nome na primeira pagina. Apenas um resumo frio: evento em embarcacao particular, dano reputacional potencial, acordo com familiar direto, recomendacao de manutencao de sigilo por periodo indeterminado. Na terceira linha, o codigo do escritorio que tinha mandado Sergio calar a propria dor. Na quinta, uma observacao: pagamento autorizado pelo gabinete da presidencia, sem reconhecimento de culpa.
Sergio encostou a unha no polegar ate quase cortar a pele.
Marina nao estava ali como filha. Estava como risco residual.
- Isso aqui e irrelevante - disse Ricardo. - So precisamos deixar bonito.
Bonito.
A palavra atravessou Sergio como uma faca pequena e limpa. Bonito era o sorriso de Marina quando ela recebeu o primeiro cracha de estagiaria num laboratorio oceanografico. Bonito era ela voltando para casa com areia no tenis e historias sobre correntes marinhas. Bonito nao era um grupo bilionario esconder uma morte num rodape.
- Talvez seja melhor nao apagar - Sergio disse, com a voz de Silas, baixa e util. - Se os bancos cruzarem com movimentacao antiga, vao perguntar por que omitimos. Podemos reclassificar.
Ricardo bufou.
- Reclassifica, entao. Mas sem dramatizar. Ninguem quer um fantasma numa apresentacao de financiamento.
Sergio olhou para Caio.
O herdeiro tinha levantado a cabeca pela primeira vez. Os olhos claros dele passaram pela tela, pararam na data e perderam um pouco do brilho.
- Que acordo e esse? - perguntou a advogada junior.
Ricardo fez um gesto vago.
- Um problema nautico antigo.
Caio largou o celular na mesa.
- Nao coloca isso perto do roadshow - ele disse. - Meu pai ja resolveu aquela coisa do barco.
A sala ficou um segundo mais silenciosa.
Sergio continuou olhando para o arquivo, como se procurasse um erro de formula. Por dentro, cada palavra do herdeiro acendia um corredor que ele tinha esperado tres anos para atravessar.
A advogada junior franziu a testa.
- Que coisa do barco?
Caio percebeu tarde demais que tinha falado como alguem que conhecia o cheiro do porao.
- Nada - disse, seco. - So tira isso dai.
Sergio fechou o anexo devagar.
Na tela escura por um instante, viu o proprio reflexo: cabelo grisalho, olhos fundos, homem comum. O tipo de homem que uma familia como aquela enterrava junto com a filha, porque nao imaginava que ele pudesse aprender a respirar debaixo da terra.
Ele salvou a linha na planilha.
E, pela primeira vez em tres anos, Caio Vasconcelos tinha dito em voz alta que existia uma coisa do barco.
