Chapter 2

No dia em que Marina morreu, Sergio recebeu a ligacao as 5h12 da manha. Ele ainda lembrava do numero no visor, um telefone fixo da delegacia, e do segundo exato em que a voz do outro lado deixou de ser protocolo para virar buraco.

  • O senhor e pai de Marina Nascimento?

Ele tinha passado a vida auditando empresas medias, descobrindo notas frias, buracos de caixa, socios que roubavam socios com a delicadeza de quem assina recibo. Achava que conhecia o tom de uma mentira. Naquela manha, descobriu que a verdade tambem podia vir mentindo, porque a frase seguinte foi dita como se fosse simples.

  • Houve um acidente.

Marina tinha ido a uma festa num iate ancorado perto do clube nautico. Uma colega de faculdade conhecia um amigo de Caio Vasconcelos. Havia DJ, champanhe, fotografias apagadas antes do sol nascer. A versao oficial dizia que Marina bebeu demais, escorregou no convés traseiro e caiu sozinha. Quando a tiraram da agua, ja era tarde.

Sergio viu o corpo numa sala fria do IML. Havia um corte no supercilio, marcas roxas no braco esquerdo e uma unha quebrada como se ela tivesse agarrado algo ou alguem. O legista nao olhou para ele quando falou em queda acidental.

  • Minha filha nadava desde pequena - Sergio disse.

  • A agua de madrugada e diferente.

  • Ela tinha marca no braco.

  • Impacto no casco, talvez.

  • E o corte?

O homem fechou a pasta.

  • Seu Sergio, eu sinto muito.

Sentir muito era a senha que as pessoas usavam quando nao pretendiam fazer nada.

Na delegacia, um investigador chamado Moreira lhe ofereceu cafe e uma narrativa pronta. Jovens ricos, bebida, uma moça de fora daquele circulo, um erro tragico. Sergio perguntou por Caio. Moreira disse que o rapaz estava abalado. Perguntou pelas cameras do iate. Disseram que o sistema tinha falhado naquela noite. Perguntou pelos celulares. Disseram que os convidados tinham direito a privacidade.

Tres dias depois, um advogado do Grupo Vasconcelos apareceu no apartamento simples de Sergio, em Vila Isabel, com dois homens de terno e uma pasta de couro. Falou baixo, quase gentil. Disse que a imprensa podia destruir Marina. Disse que havia fotos dela bebendo. Disse que alguem poderia insinuar drogas, promiscuidade, oportunismo. Disse que, se Sergio insistisse, a filha morta viraria culpada por ter morrido perto de gente importante.

Depois empurrou o acordo.

Quatrocentos e oitenta mil reais. Sigilo absoluto. Renuncia a novas demandas. Nenhum reconhecimento de culpa.

Sergio tinha olhado para a caneta como se ela fosse um animal venenoso.

  • Isso compra o que? - perguntou.

O advogado ajeitou os oculos.

  • Compra paz.

  • Para quem?

O homem nao respondeu. Nao precisava.

Naquela epoca, Sergio ainda acreditava que a verdade precisava apenas ser dita com forca suficiente. Ele foi a jornal pequeno, procurou vereador, ligou para promotorias. Recebeu portas fechadas, caixas postais cheias, conselhos mansos. Uma jornalista jovem chamada Camila Azevedo aceitou ouvi-lo num cafe do Centro, mas a materia nunca saiu. Dias depois, ela ligou chorando de raiva e pediu desculpas. O editor tinha recebido uma ligacao. O jornal dependia de publicidade imobiliaria.

Sergio assinou o acordo no setimo dia depois do enterro, nao por aceitar, mas porque uma foto de Marina no convés, rindo com um copo plastico na mao, apareceu anonimamente no celular dele. A mensagem dizia: quer que lembrem dela assim?

Na noite em que assinou, ele queimou a copia do acordo na pia e chorou sem som para nao assustar a memoria da filha.

Depois parou.

A dor continuou, mas mudou de estado. Deixou de ser fogo e virou instrumento. Ele vendeu o apartamento, fechou o escritorio de auditoria, desapareceu por seis meses. Um antigo contato lhe conseguiu documentos para reentrar no mercado com o nome de Silas Nunes. Era um nome suficientemente comum para nao provocar curiosidade. Ele refez curriculo, envelheceu a propria historia, aprendeu a falar menos.

Quando uma consultoria contratada pelo Grupo Vasconcelos abriu vaga para analista de compliance em projetos de reestruturacao, Sergio enviou o curriculo como quem lança uma garrafa ao mar. Foi chamado para entrevista. Ninguem ligou o homem de cabelo grisalho ao pai que tinha gritado na porta da delegacia. Para os ricos, pobres so existem enquanto fazem barulho. Em silencio, viram fundo de cena.

No primeiro ano, ele mapeou pessoas. Quem devia favor a Otavio. Quem tinha medo de Caio. Quem recebia bonus para nao perguntar. No segundo, mapeou sistemas. Pastas, acessos, backups, servidores antigos, auditorias esquecidas. No terceiro, mapeou vaidades. Descobriu que a familia se preparava para uma grande apresentacao de financiamento num hotel em Copacabana, com bancos, jornalistas, politicos e um video bonito sobre legado.

Legado.

A palavra deu a Sergio a mesma vontade fria que a palavra bonito lhe daria depois.

Na semana em que encontrou a provisao de contingencia, ele voltou para casa de metro, sentou-se diante da foto de Marina e abriu um caderno sem capa. Na primeira pagina, nao escreveu o nome de Caio. Nao escreveu vinganca. Nao escreveu morte.

Escreveu: numeros nao esquecem.

Depois fez uma lista.

Acordo. Cameras. Tripulacao. Convites. Portaria do clube. Logs de acesso. Telefonemas de Otavio. Pagamento a testemunhas. Jornalistas. Autoridades. Palco.

Na ultima linha, escreveu uma frase que parecia pequena demais para carregar tres anos de luto.

Nao vou usar faca. Vou usar tudo que eles assinaram.

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