Chapter 3

Sergio nao colocou a linha da indenizacao no centro da planilha. Isso seria pedir que a apagassem. Ele a deslocou para uma aba secundaria, vinculada a um item maior: reconciliacao de pagamentos sem contraparte operacional. Um nome tedioso, perfeito para atrair o tipo certo de olhar.

O tipo certo era o de bancos.

Na tarde seguinte, a equipe de due diligence externa pediu explicacao para uma sequencia de transferencias antigas feitas por uma subsidiaria portuaria para empresas de seguranca, consultoria nautica e eventos. Ricardo, o diretor financeiro, ficou vermelho antes de entender exatamente por que. Otavio Vasconcelos nao gostava de surpresas. Caio gostava menos ainda de surpresas com datas conhecidas.

  • Quem abriu esse trilho? - perguntou Ricardo, entrando na sala de compliance com o notebook apertado contra o corpo.

Sergio levantou os olhos da tela.

  • Trilha automatica. Quando reclassifiquei passivos historicos, o sistema puxou pagamentos relacionados por centro de custo.

Era verdade. Ele apenas tinha escolhido o centro de custo como quem escolhe onde acender um fosforo.

  • Fecha.

  • Se eu fechar sem justificativa, fica pior. Os auditores externos ja receberam o espelho.

Ricardo xingou baixo.

  • Voce devia me avisar antes.

  • Eu avisei que nao era bom omitir.

A frase era humilde. Tambem era uma armadilha. Ricardo ouviu humildade e saiu com pressa, levando a propria culpa pela mao.

Em duas horas, o grupo inteiro estava nervoso. Um pagamento de cento e vinte mil reais para a empresa de um ex-funcionario do clube nautico apareceu sem contrato. Outro, de oitenta mil, tinha sido feito a uma produtora que nunca entregara video algum. O terceiro era pior: uma consultoria de crise que registrara nota fiscal por treinamento de porta-vozes na mesma semana em que Marina foi enterrada.

Sergio assistiu a tudo sem levantar a voz.

O primeiro a procurar Caio foi Gustavo Leme, amigo de festas, socio minoritario em negocios sem substancia e presença constante nas fotografias que haviam sumido da internet depois da morte de Marina. Gustavo entrou na sala do herdeiro sem bater. Sergio viu pelo vidro fosco a silhueta dos dois gesticulando. O som nao atravessava, mas os corpos falavam. Caio apontou para o chao. Gustavo apontou para a propria garganta.

Depois surgiu Fabio.

Fabio Duarte nunca aparecia nos organogramas importantes, mas estava sempre perto dos lugares onde a culpa podia escorrer. Sergio o conhecia antes de tudo aquilo. Tinham sido amigos na juventude, colegas de bairro, homens que dividiram cerveja barata e conselhos ruins. Fabio reaparecera depois da morte de Marina como uma mao no ombro.

  • Voce nao pode ficar sozinho, Serginho - dizia.

Ele fora ao enterro. Ajudara Sergio a empacotar livros quando o apartamento foi vendido. Indicara contatos para documentos, empregos, pequenos favores. Durante tres anos, Fabio aparecia como quem acompanhava a dor do amigo. No Grupo Vasconcelos, Sergio descobriu que Fabio tambem prestava servicos de seguranca informal para eventos de luxo, sempre por fora, sempre sem deixar cracha.

Naquele dia, Fabio apareceu no lobby do predio as 16h20, usando camisa clara e sorriso rapido. Nao sabia que Sergio o via pela camera interna que ficava aberta numa tela de monitoramento de compliance.

Fabio falou com Gustavo. Gustavo parecia querer fugir. Fabio segurou o braco dele por meio segundo, nao o bastante para virar agressao, o suficiente para lembrar poder. Em seguida, olhou para a camera.

Sergio nao se mexeu.

O telefone interno tocou.

  • Silas? - era a recepcao. - Tem um senhor Fabio Duarte aqui. Disse que veio falar com o doutor Caio, mas o doutor pediu para esperar. Posso registrar como fornecedor?

  • Registra como visitante de relacoes institucionais - Sergio disse.

  • Qual empresa?

Ele olhou para a tela. Fabio continuava sorrindo, mas o sorriso nao chegava aos olhos.

  • Deixa em branco. Depois eu ajusto.

Deixar em branco era uma gentileza venenosa. Campos vazios geravam pendencia. Pendencias viravam pergunta. Perguntas, quando bem colocadas, faziam homens culpados responderem demais.

No fim do expediente, a pendencia chegou a mesa de Otavio. O patriarca convocou uma reuniao fechada. Sergio nao foi chamado, mas tinha preparado a sala na semana anterior, revisando os acessos de apresentacao remota. O sistema de conferencia salvava logs de entrada e nomes de arquivos projetados. Ninguem se lembrava disso porque ninguem respeitava logs.

Da copa, Sergio ouviu pedaços.

  • ... isso nao pode chegar nos bancos.

  • ... meu filho nao vai pagar de novo por uma inconsequencia antiga.

  • ... Gustavo esta tremendo.

  • ... Fabio precisa ficar quieto.

Foi a primeira vez que Sergio ouviu o nome de Fabio na boca de Otavio.

Ele voltou para a mesa e abriu a pasta de visitantes. O registro em branco ainda estava ali, aguardando classificacao. Sergio anexou uma observacao: visitante sem empresa declarada, relacionado a tratativas historicas do evento nautico de 17/01.

O sistema enviou alerta automatico para juridico, financeiro e seguranca.

Cinco minutos depois, Gustavo Leme ligou para Caio. Sergio nao ouviu a ligacao. Nao precisava. Viu apenas o resultado: Caio saiu da sala com o rosto branco, pegou o elevador privativo e desceu para a garagem sem esperar motorista.

A noite, antes de ir embora, Sergio recebeu uma mensagem num numero que quase ninguem conhecia.

Era de Fabio.

Serginho, precisamos conversar antes que esses moleques estraguem tudo outra vez.

Sergio leu tres vezes.

Outra vez.

Nao respondeu.

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