Chapter 4

Seu Raul morava numa casa estreita em Duque de Caxias, numa rua onde os postes piscavam como se tambem tivessem medo de testemunhar. Sergio levou duas semanas para encontra-lo. Nos registros do clube nautico, Raul aparecia como tecnico terceirizado de iluminacao, desligado por justa causa tres dias depois da morte de Marina. Nos pagamentos da subsidiaria, aparecia apenas como fornecedor de manutencao emergencial. Na memoria de um garcom que ainda trabalhava em festas, aparecia como o homem que tinha chorado no deposito.

Sergio bateu palmas no portao ao anoitecer.

Uma mulher abriu a janela antes da porta.

  • Quem e?

  • Silas Nunes. Preciso falar com o senhor Raul sobre um servico antigo no clube nautico.

A janela fechou.

Por um momento, Sergio achou que tinha perdido a chance. Depois ouviu passos arrastados. Raul abriu o portao com uma chave presa num cordao. Era magro, tinha olhos amarelados e uma mao que tremia mesmo parada.

  • Eu nao trabalho mais com isso.

  • Eu sei.

  • Entao vai embora.

Sergio tirou do bolso uma copia impressa do pagamento de cento e vinte mil reais. Dobrou a folha de modo que o nome da empresa de Raul ficasse visivel, mas o restante nao.

  • Eles pagaram para o senhor consertar o que naquela madrugada?

Raul olhou para a rua. Um menino passava de bicicleta, uma panela chiava em alguma cozinha, a vida insistia em continuar sem pedir licenca aos mortos.

  • Eu nao vi nada.

  • Eu nao perguntei o que o senhor viu. Perguntei o que consertou.

Raul respirou pela boca.

  • Quem mandou voce?

Sergio guardou a folha.

  • A mae dela morreu quando ela tinha nove anos. Ela tinha medo de dormir com a janela fechada porque dizia que o quarto ficava sem mar. Eu deixava uma concha na mesa de cabeceira para ela lembrar do som.

O rosto de Raul mudou antes que ele pudesse impedir.

  • Voce e o pai.

Sergio confirmou com um movimento pequeno.

Raul abriu o portao inteiro.

Dentro da casa, a televisao estava sem som. A esposa dele desapareceu pelo corredor, talvez para nao ouvir, talvez porque ja tinha ouvido demais. Raul serviu agua num copo de requeijao e nao tocou no assunto por quase um minuto.

  • Eu nao matei sua filha - disse enfim.

  • Eu sei.

  • Nao sabe.

  • Se o senhor tivesse matado, nao teria guardado medo por tres anos. Teria guardado arrogancia.

Raul cobriu o rosto com as maos. Quando falou, a voz saiu menor.

Na noite da festa, duas cameras do iate falharam oficialmente. A do salao e a da popa. Raul tinha sido chamado as pressas pelo gerente do clube, mas, quando chegou, o problema nao era tecnico. O sistema gravava em espelho para um servidor antigo do proprio clube, usado antes da modernizacao. Alguem queria apagar tambem esse backup. Raul recebeu ordem de desligar a alimentacao e remover um modulo.

  • Eu vi so uns segundos - ele disse. - Nao tudo.

Sergio ficou imovel.

  • O que viu?

Raul apertou o copo ate os dedos ficarem brancos.

  • Sua filha discutindo com um rapaz na popa. Ela queria sair. Ele segurou o braco dela. Tinha outro homem perto, mais velho que os meninos, mas nao velho. A luz bateu ruim. Depois a imagem cortou porque eu puxei o cabo.

  • Quem mandou puxar?

  • O gerente. Mas o gerente estava no telefone com alguem. Chamava de doutor Otavio.

Sergio sentiu um calor seco subir pelo peito.

  • O backup ainda existe?

Raul se levantou, foi ate o quarto e voltou com uma sacola plastica. De dentro tirou um pendrive velho, envolto em fita isolante.

  • Eu copiei antes de apagar. Nao tudo. Pedacos. Achei que se me matassem, minha mulher podia entregar.

  • Por que nunca entregou?

Raul riu sem alegria.

  • Para quem? Para a policia que levou meu depoimento ja escrito? Para jornal que depende deles? Para advogado que compra silencio? Eu tenho dois netos, seu Sergio.

O nome verdadeiro na boca dele abriu uma porta dolorida.

Sergio nao pegou o pendrive de imediato.

  • O senhor viu Caio?

Raul fechou os olhos, como se essa fosse a pergunta que o envelhecera.

  • Eu achei que fosse ele. Todo mundo achou. Roupa branca, altura parecida, o jeito de mandar. Mas depois, quando vi foto, fiquei na duvida.

  • Que duvida?

Raul empurrou o pendrive pela mesa.

  • O homem que empurrou sua filha usava o relogio no pulso direito. O menino Vasconcelos usa no esquerdo. E tinha uma cicatriz aqui.

Ele tocou a lateral do proprio pescoço.

Sergio sentiu o mundo estreitar.

Fabio tinha uma cicatriz pequena no pescoço, lembranca de uma garrafa quebrada numa briga de bar, vinte anos antes. Fabio tambem era canhoto, mas usava relogio no pulso direito porque dizia que relogio no esquerdo atrapalhava.

  • O senhor tem certeza? - Sergio perguntou.

Raul nao respondeu como um homem certo. Respondeu como um homem que tinha sobrevivido ao proprio medo.

  • Tenho certeza de que o video pode mostrar melhor do que eu.

Sergio fechou os dedos sobre o pendrive.

Naquele instante, o caso que ele perseguira por tres anos mudou de forma. Ele tinha entrado no Grupo Vasconcelos para provar que Caio matara Marina e que Otavio comprara o mundo para salvar o filho. Mas a primeira testemunha real lhe dizia outra coisa.

A familia talvez tivesse enterrado a filha dele para proteger o nome.

Mas o rosto no video talvez nao fosse o do herdeiro.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo