Capítulo 2: O fantasma feito carne
Capítulo 2: O Fantasma Tornado Carne
Dominic Romano sobreviveu a três missões no Afeganistão, a uma briga de faca num beco em Moscou e a dezesseis anos no círculo íntimo de Vincenzo Moretti. Ele construiu sua reputação sendo inabalável, impenetrável, totalmente no controle. Mas, parado neste escritório revestido de mogno, observando Aria se mover com a graça fluida de uma mulher que sabe exatamente o que está fazendo, ele sente suas paredes cuidadosamente construídas começarem a rachar.
Os últimos seis meses no exterior deveriam ter consertado isso. Distância, trabalho e a brutal realidade de expandir suas operações na Europa Oriental deveriam ter queimado qualquer loucura que estivesse crescendo em seu peito. Ele se jogou na escuridão do seu mundo—negociações que aconteciam sob a mira de uma arma, acordos selados com sangue, o tipo de trabalho que o lembrava exatamente do que ele era.
Um assassino. Uma arma. O executor de Vincenzo.
Não o tipo de homem que deveria estar olhando para a filha do seu melhor amigo como se ela fosse salvação e danação envoltas em seda vermelha.
Mas ali está ela, e todo seu planejamento cuidadoso se desmorona em cinzas.
"Papà," diz Aria, sua voz doce como mel enquanto se aproxima de Vincenzo com os braços estendidos. "Senti tanto a sua falta."
Dominic a observa abraçar o pai, notando como o rosto de Vincenzo se transforma da máscara dura de um chefe da máfia para a expressão suave de um homem completamente devotado à sua única filha. É uma vulnerabilidade que poderia matá-lo no mundo deles, mas Vincenzo nunca conseguiu se controlar quando se tratava de Aria.
"Mia bambina," murmura Vincenzo, segurando-a apertado. "Mas olhe para você—você não é mais minha menininha, é?"
A pergunta paira no ar, carregada com a preocupação de um pai e algo mais profundo—um reconhecimento de que a filha que partiu nove meses atrás não é a mulher que voltou. Dominic também vê isso, sente isso em cada fibra do seu ser. A Aria que ele se lembrava era bela como flores desabrochando—cheia de potencial e doce inocência. Esta Aria é bela como fogo, como tempestades, como coisas que poderiam destruí-lo se chegasse muito perto.
"Sempre serei sua menininha," ela diz, mas há uma qualidade fumegante em sua voz que sugere o contrário. Seus olhos cinza-tempestade encontram Dominic sobre o ombro do pai, e o olhar que ela lhe dá está longe de ser inocente. "Apenas... talvez uma versão mais adulta."
As mãos de Dominic se fecham involuntariamente ao seu lado. Dois anos dizendo a si mesmo que havia imaginado a eletricidade entre eles, que sua atração por ela era um momento de fraqueza causado pelo estresse e proximidade. Dois anos se convencendo de que o que sentiu não era nada mais do que um instinto protetor deslocado.
Tudo mentira. A prova está bem diante dele, envolta em seda vermelha e curvas perigosas, fazendo sua boca secar e seu pulso acelerar como se fosse um garoto inexperiente, em vez de um homem de quarenta anos que já viu escuridão suficiente para preencher várias vidas.
"Temos negócios a resolver," Dominic diz abruptamente, sua voz saindo mais áspera do que pretendia. As palavras cortam o terno reencontro de pai e filha como uma lâmina. "A situação com Kozlov requer atenção imediata."
Vincenzo solta Aria relutantemente, franzindo a testa enquanto estuda o rosto de Dominic. "Claro. Aria, querida, por que você não se acomoda? Desfaça as malas, descanse. Vamos jantar juntos esta noite e você pode me contar tudo sobre a universidade."
"Tudo?" O sorriso de Aria é pura tentação. "Tem certeza disso, papai? As garotas da faculdade aprendem coisas tão... interessantes."
O maxilar de Dominic se contrai tão forte que ele se surpreende por seus dentes não racharem. As palavras inocentes carregam um subtexto que faz seu sangue ferver, e pela maneira como Vincenzo se mexe desconfortavelmente, ele não é o único que percebe isso.
"Dentro do razoável," Vincenzo diz rapidamente, obviamente não querendo contemplar exatamente o que sua filha pode ter aprendido durante o tempo fora. "Vá agora. Dom e eu precisamos discutir os arranjos de segurança."
Aria se vira para a porta com graça fluida, mas não antes de deixar seu olhar demorar em Dominic mais uma vez. É um olhar que promete coisas que ele não deveria querer, nem mesmo pensar. Um olhar que diz que ela sabe exatamente o que está fazendo com ele.
"Não trabalhem demais," ela diz suavemente, as palavras ostensivamente direcionadas aos dois homens, mas seus olhos fixos nos de Dominic. "A vida é curta demais para não... aproveitarmos."
A porta se fecha atrás dela com um clique suave que poderia muito bem ser um tiro pela forma como faz Dominic estremecer.
"Meu Deus," Vincenzo suspira, afundando em sua cadeira de couro. "Quando foi que ela ficou tão... sofisticada?"
Dominic não confia em si mesmo para falar. Em vez disso, ele se move até a janela, colocando distância entre ele e o cheiro persistente de jasmim e pecado que parece seguir Aria como uma sombra. Lá fora, o pátio se estende até a casa de hóspedes onde ele vive há oito anos, o espaço que antes parecia um santuário agora parecendo uma prisão.
"Ela cresceu, Vince," ele finalmente consegue dizer, sua voz cuidadosamente controlada. "Acontece."
"Não desse jeito." Vincenzo serve-se de três dedos de uísque, suas mãos não muito firmes. "Ela saiu daqui como minha princesinha, toda risos e inocência. Ela volta parecendo... parecendo..."
"Como uma mulher," Dominic completa, as palavras com gosto de ácido na língua.
"Como a mãe dela." A voz de Vincenzo cai para pouco mais que um sussurro. "Cristo, Dom, ela parece exatamente como Isabella nessa idade. Mesma chama, mesmo perigo. Isso me apavora."
Dominic entende o medo. Isabella Moretti tinha sido uma força da natureza—linda, apaixonada, e, no fim, destruída pelo próprio fogo que a tornava irresistível. Ela amou demais, brilhou intensamente, e pagou o preço máximo por isso. A ideia de Aria seguir o mesmo caminho faz algo frio e protetor crescer no peito de Dominic.
"Ela não é a mãe," ele diz firmemente. "Aria é mais forte. Mais esperta."
"Será?" Vincenzo o estuda por cima do copo. "Porque agora, estou olhando para uma mulher adulta que mal reconheço, e estou me perguntando o que mais mudou enquanto ela estava fora."
Tudo, pensa Dominic, mas não diz. Tudo mudou, principalmente o equilíbrio cuidadoso que mantinha seu mundo em ordem.
Eles passam a próxima hora discutindo negócios—remessas da Romênia, disputas territoriais com os Castellanos, a dança usual de poder e violência que mantém seu império funcionando. Mas a mente de Dominic continua a vagar para olhos cinza-tempestade e promessas envoltas em seda. Quando Vincenzo o dispensa, seus nervos estão à flor da pele.
"Tire a noite de folga," diz Vincenzo quando Dominic chega à porta. "Você esteve fora por seis meses. Descanse. Começamos de novo amanhã."
Descansar. Como se isso fosse possível quando cada célula do seu corpo está vibrando de alerta, quando o próprio ar parece carregado de possibilidades que ele não pode se permitir explorar.
Dominic sai do escritório e entra no corredor de mármore, imediatamente procurando qualquer sinal da presença de Aria. A casa parece diferente com ela dentro—elétrica, perigosa, viva de formas que fazem sua pele arrepiar de expectativa. Ele diz a si mesmo que está indo para seus aposentos para tomar um banho, trocar de roupa, fingir que esta tarde nunca aconteceu.
Em vez disso, ele se vê caminhando em direção ao fundo da casa, atraído por um instinto que não quer examinar muito de perto.
O pátio se estende diante dele como um sonho mediterrâneo—azulejos de terracota aquecidos pelo sol da Califórnia, uma fonte borbulhando suavemente no centro, oliveiras lançando sombras pontilhadas sobre a pedra. É um lugar de paz, de refúgio, onde ele passou incontáveis horas ao longo dos anos encontrando consolo na escuridão do seu trabalho.
Mas paz é a última coisa que ele sente quando a vê.
Aria está ao lado da fonte, seu vestido vermelho um corte de cor contra os tons neutros de pedra e água. Ela trocou os saltos pelos pés descalços, a simples mudança fazendo-a parecer mais real de alguma forma, menos como a princesa intocável que ele vinha dizendo a si mesmo que ela era. Seu cabelo escuro captura a luz da tarde, e quando ela se vira para ele, seu sorriso é puro problema.
"Eu estava me perguntando quando você me encontraria," ela diz, sua voz atravessando facilmente o espaço entre eles.
Dominic para de andar, cada instinto gritando para ele se virar, correr, colocar o máximo de distância possível entre ele e essa mulher linda e perigosa. Mas seus pés parecem enraizados no lugar, seu corpo traindo-o tão completamente quanto sua mente.
"Aria." O nome dela é um aviso, um pedido, uma oração, tudo em um só.
Ela dá um passo em sua direção, depois outro, movendo-se com a graça predatória de uma mulher que sabe que detém todo o poder. A fonte continua sua canção suave atrás dela, alheia à tempestade que se forma no espaço entre eles.
"Dois anos," ela diz suavemente, seus olhos nunca deixando os dele. "Dois anos me perguntando se eu imaginei. Se o que vi nos seus olhos antes de partir era real ou apenas ilusão."
"Você imaginou." A mentira sai áspera, desesperada. "O que quer que você pense que viu—"
"Eu não imaginei nada." Ela está perto o suficiente agora para que ele veja os flocos dourados em seus olhos cinzentos, possa sentir o perfume de jasmim que parece estar permanentemente gravado em sua memória. "Eu não imaginei a maneira como você me olhou. A maneira como está me olhando agora."
As mãos de Dominic se fecham em punhos, cada músculo de seu corpo tensionado com o esforço de manter o controle. "Você é a filha do Vincenzo."
"Eu sei disso."
"Você tem dezenove anos."
"Quase vinte." Seu sorriso é puro pecado. "E você tem quarenta. E daí?"
"E daí tudo." As palavras saem estranguladas, arrancadas de algum lugar profundo em seu peito. "E daí que isso é impossível. E daí que eu sou o melhor amigo do seu pai, seu executor, alguém que já matou homens com as próprias mãos. E daí que você é inocente e pura e tudo que eu não sou."
Aria ri então, um som como sinos de prata e promessas sombrias. "Inocente?" Ela dá mais um passo, perto o suficiente para que ele sinta o calor irradiando de sua pele. "Ah, Dominic. Acho que você vai descobrir que não sou nem de longe tão inocente quanto você lembra."
Seus olhos se encontram na distância restante entre eles, e naquele momento, Dominic vê sua fome refletida nele com uma clareza devastadora. Isso não é a paixão de uma jovem por um homem mais velho. Isso é uma mulher reconhecendo um homem, fogo chamando fogo, destruição cortejando catástrofe.
E Deus o ajude, ele quer isso mais do que seu próximo suspiro.
