Capítulo 1

Planejar um cruzeiro romântico para o terceiro aniversário de casamento não parecia uma ideia ruim. Mas quando descobri que minha melhor amiga estava transando com o meu marido — e que, em dez minutos, eles iam me jogar no mar — tudo mudou.

Eu estava no corredor, do lado de fora da cabine, espiando pela porta entreaberta. No grande espelho da penteadeira, vi os corpos deles entrelaçados, dizendo verdades que me gelaram até os ossos.

“Ah, Tyler”, a Vivian ronronou, a voz transbordando satisfação. “Eu sabia que você só se casou com a Renee por minha causa. Ela é tão completamente patética. Você viu o jeito que ela olhou pra você? Igual a uma cachorrinha apaixonada.”

Tyler riu. “Como se eu pudesse querer qualquer outra pessoa além de você… Diz que eu não vou ter que continuar com isso por muito tempo.”

Ela deu uma risadinha. Os dois se viraram, ela subindo em cima dele.

“Não por muito tempo, assim que a gente puser as mãos na fortuna dela...” Ela gemeu, inclinando a cabeça para trás.

Cerrei os punhos. Anos da minha vida passaram em flash na minha mente. Tudo o que eu conseguia pensar, ver, ouvir, era a risada dela, as pequenas inconsistências do meu casamento, as coisinhas que sempre tinham uma explicação aparentemente inocente.

Eu me senti uma idiota.

Mas não por muito tempo.

Antes que eu pudesse pensar, minha mão já estava no cabelo dela. Ela gritou quando eu a arranquei de cima do Tyler e a joguei no chão. Depois, parti pra cima do Tyler, desferindo socos rápidos e duros no rosto dele. Ele tentou se esquivar e caiu da cama enquanto a Vivian se levantava.

“Você—” Ela parou quando eu acendi a luz. Os dois ficaram imóveis, me encarando.

“Fico pensando o que o Dominic vai achar de tudo isso?”, eu perguntei. Dominic era o pai da Vivian, um Alfa extremamente respeitado e incrivelmente poderoso. A Vivian era a filha mais querida dele. Mas, recentemente, eu tinha ouvido uns boatos — que o Dominic tinha expulsado a Vivian da matilha e que isso estava acabando com ela. Foi por isso que eu a convidei para o cruzeiro.

O Tyler estremeceu na mesma hora.

A Vivian zombou: “Como se você fosse ter a chance.”

O perigo gritou no fundo da minha mente. Os olhos do Tyler brilharam e, rápido demais, ele avançou por cima da cama na minha direção. Eu girei o braço, tentando afastá‑lo. Acertei o rosto e o estômago dele, mas o Tyler tinha treinamento em luta que eu não tinha. Ele me prendeu num mata‑leão, o braço firme como ferro, e me ergueu, me arrastando meio no colo, meio no ar. Me sufocando. A Vivian ria, balançando os dedos num tchauzinho debochado enquanto o Tyler abria a porta da varanda.

O vento gelado do mar invadiu a cabine ao meu redor. Ele me arremessou contra o parapeito. A dor explodiu na parte de trás da minha cabeça, depois o mundo girou. Vi meus pés acima da minha cabeça e o rosto dele se afastando de mim.

Eu estava caindo, e o Tyler já tinha sumido quando as águas me envolveram e me puxaram para baixo. A água invadiu meus pulmões, uma dor ardente, sufocante. Eu me debatia, mas nunca tinha aprendido a nadar e, logo, o som das ondas quebrando e o ronco do motor do iate foram sumindo, engolidos pela escuridão profunda, fria e pesada.

Então, o peso começou a aliviar, a se deslocar. Uma sensação estranha de flutuar tomou conta de mim e eu passei a vagar pelo ar, pelo tempo e pelo espaço, boiando como um balão. De repente, eu estava pairando sobre um salão lotado, o ar denso com o zumbido de vozes e o clarão dos flashes. Uma coletiva de imprensa, com todos olhando para uma projeção gigantesca de uma foto minha, da festa de aniversário de casamento.

Tyler e Vivian estavam num palco elevado com o meu pai, Philip. O rosto dos dois estava marcado por um luto ensaiado, mas o do meu pai parecia apenas contido. Eu quase conseguia ouvir os pensamentos dele sobre a matilha, a posição dele, e, se isso já não fosse traição suficiente, o Tyler e a Vivian ainda tiveram a cara de pau de falar.

“Foi um acidente trágico”, o Tyler disse. “A Renee… ela deve ter escorregado. A gente estava tão feliz, comemorando nosso aniversário…”

Vivian enxugou os olhos com um delicado lenço de renda.

— Ela era tão cheia de vida — murmurou, com a voz trêmula. — Vamos sentir tanta falta dela.

Olhei para Dominic: os olhos vermelhos, baixos, carregados de uma dor que parecia gritar no ar. Aquilo deveria me trazer alguma paz, saber que pelo menos uma pessoa na minha vida realmente choraria a minha morte, ainda mais um homem como Dominic: poderoso, rico, confiante e completamente no controle de si mesmo.

Mas não trouxe. Quando Tyler e Vivian deixaram a coletiva de imprensa, fui arrastada junto, como se estivesse presa a eles por um fio invisível. Assim que entraram no carro com motorista, já estavam rindo e se beijando com fervor.

— Quanto você disse que era? — ronronou Vivian. — A Renee sempre foi tão fechada sobre isso. Eu sou filha de Alfa, e minha mãe trouxe um dote generoso. Ela deixou tudo para mim quando morreu.

— Muito — ele disse. — Mas não vamos falar disso agora. Estou mais interessado em inaugurar Peacock Hollow.

Avancei contra ele de novo. Minhas mãos atravessando o pescoço dele mais uma vez. Se eu pudesse arrancá-lo fora!

Ele puxou Vivian para perto.

— Agora é nosso.

Ela deu um gritinho agudo.

— Nunca fui lá, mas vi as fotos. Mal posso esperar pra reformar o jardim.

Peacock Hollow era a propriedade da minha mãe. Era o meu refúgio particular, onde todas as minhas lembranças dela ainda viviam. Eles estavam indo para lá, mas eu não precisava segui-los. Pisquei e já estava em pé do lado de fora do chalé aconchegante, imaginando os dois ali, marcando cada centímetro da minha infância do mesmo jeito que tinham maculado a minha vida adulta.

A injustiça era insuportável.

— Por favor.

Então tudo ficou preto.

Meus olhos se abriram de repente. Ofeguei, os pulmões ardendo com o ar de um quarto quente e familiar. Sentei na cama, o coração disparado, o corpo tremendo. Tinha sido tudo um sonho? Um pesadelo?

Não. Era vívido demais, real demais. Eu me lembrava do frio, da escuridão, das risadas. Eu me lembrava da morte.

Mas eu estava viva.

Olhei ao redor, reconhecendo o lugar como um quarto da Mansão Brightclaw, a casa incrivelmente luxuosa de Dominic, que ele tinha oferecido como local do meu casamento anos atrás. Cada detalhe gritava a elegância e a riqueza despretensiosas dele. Mas esse não era o quarto em que eu costumava ficar, embora ainda assim fosse estranhamente familiar.

— Não! — Vivian guinchou. — Ele não pode trazer ela! Não pro casamento da Renee!

Aquelas palavras eram assustadoramente familiares. Virei para o lado, peguei o celular e congelei ao ver a data.

Três anos antes da noite no iate.

Não. Três anos e um dia.

Era o dia anterior ao meu casamento.

Isso era real? Olhei no espelho, procurando algum sinal de que eu não tinha sonhado, de que minha mente não estava inventando tudo. O meu reflexo me encarava. Tirando o fato de estar três anos mais jovem, não havia nada de diferente para ver.

Então eu vi. Uma marca tênue e brilhante, uma lua crescente, aninhada logo acima do meu coração. Arfando, passei os dedos pela curva delicada. A Deusa da Lua tinha ouvido o meu pedido, me concedido uma segunda chance.

Isso não era um sonho.

Era um presente, uma arma, uma chance de reescrever meu destino.

Uma onda de adrenalina percorreu meu corpo.

Eu não podia desperdiçar um segundo. A primeira coisa que eu precisava fazer era impedir o casamento. Saí correndo do quarto, os pés descalços silenciosos sobre o carpete macio.

Virei uma esquina, quase tropeçando nos próprios pés, e trombei com uma figura larga, sólida e quente. Braços fortes se fecharam ao meu redor, me firmando e me puxando contra um peito amplo, pesado de músculos. O cheiro almiscarado, familiar e delicioso invadiu meu nariz quando percebi que meu rosto estava pressionado contra pele nua. O ar prendeu na minha garganta e eu ergui o olhar.

Era Dominic, vestindo apenas um roupão parcialmente aberto.

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