Capítulo 2

Engoli em seco, o rosto em chamas enquanto eu encarava Dominic. Não consegui evitar que meus olhos percorressem as linhas esculpidas do peito dele. Minha boca secou e, embora eu soubesse que não devia ficar olhando, eu simplesmente não conseguia parar. Ver ele de novo depois de três anos não deveria mexer tanto comigo, mas as lembranças voltaram antes que eu pudesse detê‑las, acendendo um calor ardente no meu rosto que eu não tinha como ignorar, e um calor no meu ventre que eu achava ter deixado para trás todos aqueles anos atrás.

A última vez que eu o tinha visto, eu tinha vinte anos, em férias de verão com ele e a Vivian. Passei aquela viagem inteira tentando — e falhando — ignorar a atração que sentia por ele. Eu tinha quase certeza de que ele tinha percebido, mas, com toda a elegância, não comentou uma palavra.

Sinceramente, não era culpa minha. Eu cresci ouvindo falar de Alpha Dominic de Brightclaw, mas conhecê‑lo pessoalmente e fazer aquela viagem só com ele, a Vivian e a segurança da matilha dele deixou todos os boatos no chinelo.

Ele era naturalmente encantador, sua presença dominava qualquer ambiente em que entrasse. Era mais velho, sofisticado, o tipo de homem que carregava poder com a mesma facilidade de quem nasceu para isso. E eu tinha sido uma idiota com um crush impossível, lançando olhares furtivos quando achava que ninguém estava vendo, corando sempre que ele simplesmente falava comigo.

Olhando para trás, eu só queria me encolher de vergonha. E, como se isso não fosse ruim o bastante, eu me tocava à noite pensando nele, praticamente todas as noites da viagem.

Tinha sido enlouquecedor. Tinha sido eletrizante e, depois de salvar a vida da Vivian e ver o olhar de alívio e de tristeza quase irreprimida no rosto dele, eu tinha colocado aqueles pensamentos para dormir.

Pelo menos era o que eu achava.

O fato de meu corpo estar reagindo assim a ele agora, de eu estar reagindo assim a ele, me dava vontade de me enfiar num buraco e morrer ali mesmo. Deusa, como eu podia ser tão vergonhosa, até agora? Eu estava quase com vinte e cinco anos.

E havia coisas mais importantes para lidar do que o quanto Dominic era gostoso.

— Renee? — ele disse, a voz profunda e ressonante. — Você está bem? Parece… agitada.

— Eu…

Dominic arqueou uma sobrancelha, o olhar penetrante percorrendo meu rosto.

— Você parece que viu um fantasma.

Fantasma. Certo. Eu estava, no momento, fugindo da minha morte prematura nas mãos da filha dele e do gamma dele.

— Eu só… — pigarreei. — Eu preciso falar com o meu pai. É urgente.

Dominic inclinou levemente a cabeça, os olhos afiados me estudando.

— Philip provavelmente está se preparando para a Cerimônia de Confirmação de hoje à noite. — A voz dele era calma, suave, com uma nota por baixo que eu não conseguia decifrar. — Nós estávamos justamente revisando os últimos detalhes do que o seu casamento vai significar para a sua matilha de origem. Aconteceu alguma coisa?

Estava tudo errado. As palavras pressionavam meus lábios, mas eu as contive. Meu estômago se retorceu num nó amargo. Claro que, mesmo agora, Philip estava dando um jeito de arrancar mais alguma coisa desse acordo.

Eu sabia que meu casamento seria ótimo para a matilha do Philip, mas saber o que isso traria para mim, saber que tudo isso só ia beneficiar todo mundo menos a mim fazia meu pulso disparar de raiva. Tyler e eu tínhamos sido uma transação política, mas não para o Philip, e eu tinha sido ingênua demais para perceber antes.

Dessa vez, não.

— Aconteceu alguma coisa? — Dominic me observava atentamente, a expressão indecifrável. — Posso ajudar você?

Eu hesitei. Aquele era Dominic Brightclaw, um homem poderoso o bastante para arrancar respeito com um único olhar. Ele estava se oferecendo para me ajudar. Três anos atrás, eu teria derretido só com a ideia de receber tanta atenção dele. Mas eu não era mais aquela garota.

Eu tinha sido assassinada e, embora ele parecesse ter realmente lamentado minha morte, eu não podia confiar nele. Eu tinha voltado em busca de justiça. Eu quase conseguia sentir a marca no meu peito queimando.

Eu queria contar tudo para ele.

As palavras pesavam na minha língua, a verdade arranhando por dentro, implorando para ser libertada. Dominic era poderoso — ele podia me ajudar com o caos que ia se desenrolar até o fim do meu noivado. Ele podia manter Tyler longe de mim e lidar com o meu pai, se eu conseguisse convencê‑lo.

Abri a boca, mas, antes que eu pudesse falar, ele deixou escapar uma risadinha baixa.

— Sabe — ele disse, cruzando os braços —, de todas as amigas da Vivian, você sempre foi a minha favorita.

Pisquei. Aquilo foi… inesperado, e me aqueceu por dentro de um jeito que eu não sabia explicar e que eu não tinha o direito de sentir agora.

— Eu queria te dar os parabéns — ele continuou, a voz quente, como se essa conversa não passasse de um papo casual. — Casamento é um passo grande. Espero que te traga felicidade. — Ele me lançou um olhar lento, pensativo. — E se a gente der sorte, talvez te ver casada finalmente faça a Vivian sossegar também.

Algo dentro de mim gelou. Como uma visão do futuro, eu a vi em pé no altar com o Tyler, num vestido de noiva pago com o patrimônio roubado da minha mãe, talvez até nos degraus do meu santuário.

Cerrei o maxilar com a ideia e endureci o coração.

Como eu tinha esquecido? Nesse ponto do tempo, Dominic ainda paparicava a Vivian. Ele ainda enxergava a filha como o seu anjinho mimado e perfeito, não a mulher que ele acabaria cortando da vida dele por completo. Eu nunca soube o que, no futuro, finalmente o levou a romper de vez com ela, mas eu sabia que, não importava o que eu dissesse sobre a Vivian agora, ele não ia acreditar em mim.

Ainda não.

O caminho até mostrar para ele o verdadeiro rosto da filha e fazê‑lo se importar era longo demais e tortuoso demais para eu tentar lidar com isso agora.

Forcei um sorrisinho, mesmo com o estômago revirando.

— A Vivian? Sossegar? Esse vai ser o dia.

Dominic riu, um som profundo e genuíno, e por um segundo eu vislumbrei a versão dele que eu já tinha admirado um dia. Meu coração deu uma leve disparada. O calor do corpo dele fazia meu coração correr mais ainda. Engoli a vontade de falar, vasculhando minha mente por uma forma de colocar Dominic do meu lado.

A voz do Philip chegou até nós antes mesmo que ele entrasse no meu campo de visão.

— Renée! Por que você ainda não está vestida? A cerimônia está prestes a começar, e que noivo quer ver a noiva toda desleixada num dia desses?

Eu me virei, e lá estava ele — Philip, quase todo arrumado, mas ainda ajustando as abotoaduras, o rosto já marcado pela irritação.

— Renée? — A voz do Dominic saiu baixa, mas eu senti o peso da atenção dele sobre mim. Ele sempre foi perceptivo. Ele conseguia ver que tinha alguma coisa errada.

Inspirei fundo, ergui o queixo e endireitei os ombros.

— Pra responder à sua pergunta, Dominic: tem tudo errado. E sim, você pode me ajudar.

Philip bufou.

— Se isso for sobre um vestido…

— Eu tô pouco me lixando pro vestido — eu disse. Ele parou na hora. Devia ter sido o meu tom que fez ele ficar tão surpreso.

— E é melhor que os dois estejam aqui quando eu disser isso: eu não vou me casar com o Tyler.

As palavras ecoaram, claras e definitivas. Os olhos do Philip se arregalaram, depois a expressão dele se transformou em algo raivoso. Os olhos brilharam com aquela luz de alfa. Uma parte de mim quase recuou.

As sobrancelhas dele se franziram, confusas, antes de a expressão escurecer.

— Isso não tem graça.

— Eu não tô brincando — eu disse, firme no meu lugar. — O casamento acabou.

Silêncio.

O olhar do Dominic ia de um para o outro, a calma habitual dele cedendo lugar a algo mais cauteloso. Já o Philip parecia prestes a tanto me esganar quanto gritar comigo.

— Não seja idiota — Philip sibilou. — Agora é tarde demais pra cancelar!

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