Capítulo 3
Philip soltou o ar com força, esfregando a têmpora como se eu não passasse de uma dor de cabeça.
“Cancelar um casamento não é brincadeira de criança, Renee. Principalmente não para uma família do nosso nível. Quantas vezes eu já te disse que você tem que considerar a alcateia em tudo, e o seu casamento... pensa em como isso vai parecer! No que isso já custou!”
Eu quase ri daquilo de tão absurdo. Não só porque ele estava errado — o meu casamento com o Tyler não saía mais caro do que os bailes de gala que Brightclaw vivia organizando pra socializar e tratar de negócios. Na verdade, era mais barato, porque eu tinha dado um jeito de ser. Olhando agora, os elogios do Tyler à minha “economia” eram só mais um tapa na cara.
Provavelmente ele não queria que gastassem tanto justamente pra, no fim, sobrar mais da fortuna que eu deveria herdar pra ele torrar com a Vivian e as vontades dela.
Não. Isso irritava, mas o que realmente me deixava furiosa era o fato de que ele, mesmo agora, se preocupava mais em salvar a própria imagem do que com qualquer coisa que eu tivesse pra dizer.
“Não é como se eu não fosse ter dinheiro de sobra pra pagar esses custos de volta daqui a alguns meses.”
Ele travou o maxilar, me encarando.
“Cuidado com o que você fala, garota.”
Eu encarei de volta.
“Você ainda não me deu um bom motivo pra eu não poder cancelar o meu próprio casamento.”
Ele lançou um olhar pro Dominic, que ainda me encarava, como se estivesse enxergando, lá no fundo, tudo o que eu não estava dizendo, bem no meu âmago, era o que parecia. Eu queria contar a verdade pra ele. Queria gritar que, se esse casamento acontecesse, eu ia morrer. Que esse casamento não passava de uma sentença de morte humilhante. Mas eu não podia. Se eu começasse a falar do futuro, eles iam me achar louca.
Então engoli a fúria queimando na minha garganta e forcei a voz a sair firme.
“É, no mínimo, apressado.”
Dominic, que tinha ficado calado até então, finalmente falou:
“Tyler é o gama da alcateia dele. Ele é amigo de infância da Vivian faz anos. É uma pessoa confiável.”
As palavras doeram.
Confiável.
Pra Vivian.
Mordi por dentro da bochecha, procurando o que responder.
“Você…”
Philip só bufou.
“Você deve estar possuída”, resmungou. “Ansiedade de pré-acasalamento! Chega dessa bobagem. Você vai ser uma boa esposa, Renee. Eles estão esperando filhos.”
Um arrepio gelado correu pelas minhas costas. Eu tive certeza de que ia vomitar ali mesmo. Minhas mãos tremiam com o esforço que eu fazia pra não recuar só com a ideia de um filho do Tyler crescendo dentro de mim, provavelmente com a mesma índole desonesta e traidora do pai.
Eu preferia morrer, caralho.
Rosnei pra ele antes que pudesse me conter.
“Pode parar com essa encenação, Philip.”
Ele engasgou.
“Você...”
“Eu sempre fui só isso pra você. Um meio pra um fim.” Ergui o queixo, a raiva queimando o resto da minha hesitação. “Um caminho pra fortuna da minha mãe, um caminho pra tirar a sua alcateiazinha da insignificância. Você sempre amou mais a própria imagem do que a mim. Pois vai ter que arrumar outro jeito de conseguir o status que você vive correndo atrás. Eu. Não. Vou. Casar. Com. O. Tyler.”
Estreitei os olhos.
“E você é a última pessoa de quem eu quero ouvir lição sobre ser um bom cônjuge. Você nem soube valorizar a sua.”
O rosto do Philip se contorceu de fúria. A mão dele avançou, indo me empurrar pra trás, mas eu não recuei quando os olhos dele começaram a brilhar e o ar ao nosso redor se agitou. Os pelos da nuca se arrepiaram. Eu me preparei pra compulsão, na esperança de conseguir resistir.
Mas antes que ele pudesse encostar em mim, antes mesmo que pudesse falar, Dominic já estava entre nós.
O braço dele se ergueu num único movimento fluido, agarrando o Philip pelo pulso. O aperto era firme, mas sem esforço, como se conter o meu pai não exigisse mais energia do que espantar um inseto.
— Você enlouqueceu? — A voz de Dominic era cortante, baixa, mas afiada por algo perigoso. — Colocar as mãos nela?
A raiva de Philip vacilou; ele abria e fechava a boca, como se tentasse encontrar a desculpa certa, mas Dominic já não estava olhando para ele. Ele estava olhando para mim.
O aperto que mantinha no meu pai não afrouxou, mas a mão livre pousou nas minhas costas, me puxando sutilmente para mais perto. Para o perfume almiscarado e delicioso que emanava dele.
— Ele já fez isso antes?
A voz dele estava mais suave agora, mas o peso por trás dela era maior.
Eu mal ouvi Philip balbuciando ao fundo, tentando garantir a Dominic que aquilo tinha sido um mal-entendido, que ele jamais faria isso, porque eu estava consciente demais da mão de Dominic nas minhas costas, do calor puro do corpo dele tão perto do meu. O cheiro dele me envolvia, denso e intenso, algo profundo e inegavelmente masculino. Era algo que me ancorava. Que me confortava.
E isso era perigoso… e uma oportunidade.
Philip amava demais a ideia de subir os degraus da sociedade para algum dia me ouvir de verdade. Se eu quisesse sair desse casamento, teria que fugir agora ou fazer Dominic interceder.
Correr não era uma opção, então eu me obriguei a respirar, me obriguei a afastar a distração que era a presença de Dominic, o jeito como a voz dele se enrolava no meu nome como se fosse algo feito para me proteger.
Philip ainda falava, ainda tentava se explicar.
— Eu jamais encostaria a mão na minha filha — ele insistiu, a voz agora quase suplicante. — Você está entendendo errado, Dominic. Isso é um assunto de família…
Dominic finalmente soltou o pulso de Philip, colocando-se completamente entre nós, uma parede de aço inabalável.
— Eu é que vou decidir isso — disse ele, com suavidade controlada. — Depois que eu conversar com a Renee. A sós.
Philip hesitou, o maxilar travado como se pesasse as opções. Por fim, soltou o ar com força e se virou para mim.
— Alfa Dominic, se o senhor puder botar algum juízo na cabeça dela… o senhor sabe como mulheres da idade dela são emocionais.
— Sempre achei a Renee bastante centrada, mesmo na paixão.
Philip pareceu atordoado, e meu estômago deu um salto com as palavras de Dominic.
Philip me lançou um olhar furioso e então se virou e saiu.
Dominic colocou a mão nas minhas costas e me conduziu para um dos salões vazios. As pesadas portas de madeira se fecharam atrás de nós com um clique, nos isolando do resto da casa, do resto do mundo.
Ele se virou para mim, cruzando os braços sobre o peito largo, me avaliando daquele jeito indecifrável dele.
— Muito bem. Agora estamos a sós. — A voz dele estava calma, mas havia um fio cortante ali. — Me conta o verdadeiro motivo.
Engoli em seco. Ele não acreditaria em mim se eu contasse a verdade, mas eu precisava dizer algo em que ele acreditasse. Então respirei fundo e me apoiei no que eu sabia que já fervia na mente dele — a suspeita de que meu pai era abusivo.
Deixei meus ombros caírem um pouco, o olhar baixando.
— O Philip nunca me viu como filha. Não de verdade. Eu sempre fui uma peça de xadrez. — Soltei um riso curto, sem humor. — Um peão. É só isso que eu sempre fui pra ele.
Os olhos dourados de Dominic me cravaram no lugar, indecifráveis e afiados.
— Isso pode até ser verdade — murmurou ele. — Mas não foi isso que fez você sair correndo pelo corredor agora há pouco.
Eu me apressei em buscar algo para dizer, alguma coisa que desviasse a atenção dele, mas Dominic já estava perto demais, já se aproximava com aquela intensidade silenciosa que fazia meu pulso disparar.
O cheiro dele encheu meu nariz, fazendo um calor doce se espalhar pelo meu estômago, apesar de mim mesma.
E então, uma ideia imprudente me ocorreu.
Arriscada. Perigosa.
Mas, a essa altura, era a única opção que eu tinha.
Antes que eu pudesse pensar demais, apoiei a ponta dos pés, agarrei a frente do robe de Dominic e o beijei com tudo o que eu tinha.
