Capítulo 5

Desci a grande escadaria, meu vestido vermelho escoando ao meu redor como uma onda de lava derretida, justo na cintura e grudado em cada curva do meu corpo.

Peguei um vislumbre do rosto da Vivian enquanto eu descia: os lábios dela se apertaram numa linha fina, os olhos brilhando de ciúme.

Tyler estava perto da mesa do bufê, cercado por um grupo de amigos, parecendo exatamente o homem bonito e encantador que fingia ser. Assim que me viu, os olhos dele se prenderam nos meus e, por um momento, ele ficou atordoado. O queixo dele caiu. Ele me lançou um olhar quente e um sorriso. Aquilo me deu náusea.

Parei no meio do salão e ele veio em minha direção.

— Renée… você… —

Levantei a mão, e a música parou num guincho. O salão inteiro pareceu congelar e se virar para olhar pra gente. A expressão de Tyler vacilou, e eu soube que ele já estava sentindo o calor daquele momento.

— Tyler — eu disse, minha voz cortando o silêncio. — É melhor você contar a verdade agora.

Ele piscou, a fachada dele se partindo por apenas uma fração de segundo.

— Do que você tá falando? — A voz dele saiu tensa, mas ele logo mascarou isso com uma despreocupação treinada.

— Vazia os bolsos. — Fuzilei-o com o olhar. — Agora.

Um silêncio tenso tomou o espaço entre nós enquanto Tyler hesitava. As pessoas ao redor começaram a murmurar, sem entender o que estava acontecendo. Ele se remexeu, desconfortável.

— Renée… —

Antes que ele pudesse reagir, avancei. Tyler tentou se afastar, mas eu fui mais rápida. Num único movimento, abri o paletó dele, enfiei a mão no bolso interno e puxei a familiar calcinha vermelha, de edição limitada, de renda.

Girei a peça no meu dedo, alto o bastante para todo mundo ver; o movimento espalhou pelo ar o cheiro de sexo e perfume. Meu estômago revirou, mas agora todos no salão olhavam pra nós. Encarei o olhar dele. O salão mergulhou num silêncio absoluto, o ar pesado de tensão.

Reconheci na hora que eram da Vivian. Eu tinha estado na porra da loja quando ela comprou, e era o mesmo tom de vermelho do meu vestido.

O rosto de Tyler perdeu toda a cor, a boca abrindo e fechando enquanto ele se debatia por palavras, mas eu não dei chance.

— Eu te dei a chance de ser honesto — eu disse, a voz baixa e carregada de veneno. — Eu ainda te dei a oportunidade de sair dessa com alguma dignidade, mas você não quis.

— Renée… —

— Guarda isso pra você — falei. — O casamento acabou, seu canalha traidor.

Os murmúrios ao meu redor viraram um zumbido baixo enquanto a vergonha de Tyler dava lugar à raiva. O rosto dele ficou vermelho vivo. Justo quando eu achei que tinha conquistado um pouco de apoio da plateia, Vivian se levantou, a voz dela cortando o silêncio como uma lâmina.

Ela riu.

— Sério, Renée? A despedida de solteiro do Tyler foi ontem à noite — disse Vivian, com um tom desprezando e suave. — Não significou nada. Você tá sendo mesquinha, Renée.

A plateia hesitou, os cochichos incertos agora se transformando em acenos de concordância. As ovelhas das altas esferas da sociedade lobisomem sempre iam seguir a princesa Brightclaw, mas eu não ia deixar ela sair dessa tão fácil. Eu não via o Dominic no salão. Eu tinha que segurar a situação até ele chegar.

— Você acha que uma despedida de solteiro é desculpa pra traição?

Vivian sorriu de lado, os olhos brilhando com uma satisfação maldosa.

— Você só tá se humilhando, sabia? Nem casou ainda e já tá mostrando o quanto é ciumenta — continuou, a voz dela pingando doçura. — Ou você tá dizendo que eu ia te apresentar um traidor?

Considerando que ela nem teve o bom senso de trocar de perfume entre a transa e agora, era ridículo como ninguém questionava nada.

— A despedida de solteiro dele foi há vários dias — eu disse. — E essa calcinha é cara demais pra uma stripper contratada pra uma despedida de solteiro — continuei, erguendo a renda para todos verem. — E o perfume é caro demais também, você devia saber, já que você usa o mesmo.

Um silêncio tenso caiu sobre a multidão, e eu vi a consciência começando a surgir nos olhos deles: eu sabia.

Mas Tyler, mentiroso como sempre, tentou manter o controle da narrativa. Ele riu com desprezo, o rosto retorcido em defesa.

— E você? — Ele semicerrou os olhos. — Você nunca usa batom e sua boca está inchada… Você deve ter me traído com outro cara e agora tá usando essa desculpa patética pra fugir do nosso casamento.

Antes que eu pudesse responder, a voz de Philip ecoou, pesada e autoritária.

— Chega — ele sibilou, rompendo a barreira da multidão. Virou-se pra mim, os olhos faiscando de fúria. — De quantas pessoas você tá tentando fazer piada, Renee?

— Você…

— Silêncio.

Senti a pressão da compulsão de alfa dele se infiltrar nos meus ossos, como um peso enorme fechando a minha boca. Meu corpo ficou rígido, minha respiração curta e rasa enquanto o poder dele me esmagava. Tentei resistir, mas era como tentar ficar de pé no meio de uma tempestade.

A voz de Vivian cortou a tensão como uma adaga, o tom frio e cruel.

— Ela com certeza tá traindo — ela zombou. — Como se pudesse arrumar alguém melhor que o Tyler. Eu sempre disse que você não era tão esperta quanto o pessoal achava.

Philip avançou até mim, agarrou meu braço, puxando com força o suficiente pra me deixar roxa.

— Com quem você dormiu? Fala a verdade.

A pressão da compulsão de Philip se fechou em volta de mim como um torno, mas eu abri um sorriso, mostrando os dentes e encarando Tyler.

— Eu não dormi com ninguém — falei alto, aliviada por todo mundo ver que eu tava sob compulsão, assim não podiam simplesmente assumir que eu tava mentindo. — Nem com o Tyler.

Vivian enrubesceu. Um murmúrio percorreu a multidão, e o rosto de Tyler ficou de um vermelho profundo, a vergonha estampada pra todo mundo ver. Eu sabia, por causa do futuro, que ele andava dizendo por aí que a gente já tinha dormido junto antes do casamento.

Philip, aparentemente satisfeito com a minha confissão, sorriu. O tom dele ficou quase paternal quando se dirigiu à multidão e me soltou.

— Bom… isso esclarece as coisas, não é? A Renee claramente não tá traindo. Agora, vamos continuar com a cerimônia. — Ele se inclinou na minha direção, a voz afiada e pesada. — Vai pra porra do altar com o Tyler, e não quero ouvir outra palavra além de “aceito”.

Ele me largou então. Eu me sentia como se estivesse andando dentro de melado enquanto seguia em direção ao altar, os pés pesados sob o peso da compulsão. Olhei em volta, procurando o Dominic, mas ele não estava lá. Onde ele estava? Tentei diminuir o passo, mas não adiantava. Meu corpo se movia sozinho.

Os olhos de Vivian brilhavam de irritação, a contrariedade dela quase palpável enquanto olhava pros pais do Tyler, que já cochichavam sobre como era maravilhoso ele ter uma noiva virgem. A vergonha fervilhou dentro de mim, mas logo foi engolida pelo meu desespero. A força da compulsão de Philip, o peso dos olhares sobre mim, a marcha implacável rumo a um destino que eu não tinha poder nenhum pra mudar — era demais. Eu mal conseguia manter a cabeça acima da maré de pânico que subia.

A expressão presunçosa de Tyler só alimentava ainda mais o fogo da minha fúria. Eu queria arrancar a cara dele com as unhas. Eu ia matar ele.

Eu ia matar ele antes que ele me matasse, nem que fosse hoje à noite.

Chegamos juntos ao altar, e o padre começou a falar. Tentei manter as mãos afastadas, me recusando a participar, quando Philip rosnou de novo:

— Estenda as mãos e ofereça o pescoço.

Juro que meu pescoço chegou a estalar sob a força da ordem dele. Meus olhos ardiam enquanto eu fuzilava Tyler com o olhar.

Meu coração martelava.

Eu não ia fechar os olhos, eu não ia desviar o rosto quando ele se inclinasse, a boca aberta pra me marcar.

— Chega! — A voz de Dominic cortou o salão, afiada e imperiosa, rasgando a tensão como uma lâmina. A mão dele se fechou no meu braço, firme, mas cuidadosa, e ele me puxou pra longe do Tyler enquanto rosnava: — O casamento tá cancelado.

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