Capítulo 1
A Era do Gelo começou no terceiro dia na Terra.
Eu dirigia aquela caminhonete surrada, com as rodas esmagando o asfalto congelado e rachado. O motor mal se mantinha funcionando no frio de -50 graus Celsius, e a fumaça branca do escapamento congelava na hora, virando cristais de gelo.
Cinco pessoas estavam espremidas no carro.
A esposa dele, Eileen, estava no banco do passageiro, abraçando o próprio corpo com força, encolhida como uma bolinha. Usava três jaquetas de plumas, um cachecol grosso e um gorro, mas mesmo assim os lábios já começavam a ficar roxos de frio.
Martha, George e Tom — a sogra, o sogro e o cunhado — se apertavam no banco de trás, enrolados em todos os cobertores que conseguiram encontrar, como três casulos se contorcendo.
“Anson, dá pra ir mais rápido? Está congelando aqui!” A voz da sogra, Martha, veio do banco de trás, aguda e estridente.
Eu não respondi; apenas encarei a rua coberta de neve à frente. A visibilidade era turva, e os limpadores mal davam conta da velocidade com que a neve se acumulava. A cada passada, uma nova camada de gelo se formava no vidro.
Menos cinquenta graus Celsius.
O volante estava duro de gelo, como um bloco de ferro; mesmo com luvas, o frio atravessava direto até os ossos. Meus dedos tinham perdido toda a sensibilidade, e eu só conseguia segurar o volante mecanicamente, girando por instinto.
Do lado de fora da janela, o mundo tinha virado um cemitério branco e desolado.
Os prédios estavam encapsulados por uma crosta grossa de gelo, como caixões de cristal. Carros jaziam tombados na beira da estrada — alguns capotados, outros enfiados em postes — e os corpos congelados lá dentro permaneciam na última posição: alguns caídos sobre o volante, outros segurando crianças, outros com o braço esticado para fora da janela, como se pedissem socorro.
O asfalto estava coberto de rachaduras, se espalhando como teia de aranha. Eu desviava delas com cuidado, com medo de que, num descuido, a caminhonete inteira acabasse presa.
“Você me ouviu?” Martha, a sogra, gritou de novo, dessa vez mais alto e mais impaciente.
“Ouvi.” Pisei no acelerador.
O motor soltou um ronco grave, mas o carro quase não ganhou velocidade — o chão estava gelo puro, e correr demais só ia acabar em capotagem. Eu já tinha visto vários veículos que tentaram acelerar e agora estavam virados na beira da estrada, com as rodas ainda girando no ar.
“Ali na frente!” George, o sogro, apontou de repente, a voz com um toque de surpresa.
Eu ergui o olhar.
Através da nevasca, o contorno de um grande supermercado surgiu. Era um prédio de três andares, com paredes externas azul e branca e uma enorme placa de néon pendurada — embora apagada, ainda dava para ver com clareza.
Mais importante: a porta de vidro estava intacta, e dava para distinguir vagamente as prateleiras lá dentro.
“Não foi saqueado?” Tom, o cunhado, se inclinou para fora da janela, com um brilho ganancioso nos olhos.
“Deve ter sido.” Girei o volante e segui na direção do supermercado. Os pneus derraparam no gelo, então soltei o acelerador depressa e firmei o volante.
A caminhonete entrou devagar no estacionamento do supermercado.
Estacionei. Desliguei o motor.
A temperatura dentro do carro caiu instantaneamente. Sem o calor do motor, o frio se infiltrou na cabine num piscar de olhos.
“Vocês esperem no carro. Vou entrar e dar uma olhada primeiro.” Abri a porta, e um vento cortante invadiu, quase me empurrando de volta para dentro.
“O que vocês estão esperando!” Martha, a sogra, empurrou a porta de trás com impaciência, com tanta brutalidade que quase jogou Tom para fora. “Anda logo, entra e descarrega as coisas!”
Ela foi a primeira a se lançar para fora do carro, enrolada numa jaqueta grossa de plumas, e cambaleou na direção do supermercado.
Os outros também desceram.
Eu fui o último a sair, fechei a porta e segui atrás deles.
A porta automática do supermercado estava congelada, travada pela metade. Empurrei com o ombro; o vidro rangeu alto, e lascas de gelo caíram por todo o chão.
Cinco pessoas invadiram o supermercado correndo.
Lá dentro é um pouco mais quente do que lá fora, mas ainda está por volta de trinta graus negativos. O sistema de aquecimento está desligado há muito tempo, mas pelo menos não venta.
A comida ainda está nas prateleiras.
Enlatados, macarrão instantâneo, água engarrafada, biscoitos compactados, remédios, galões de combustível... tudo estava bem arrumado nas estantes, como se o tempo tivesse parado ali.
—Acertamos na loteria! —gritou Tom, o cunhado do Tom, empolgado, a voz ecoando no supermercado vazio. Ele correu até a seção de alimentos e começou a encher o carrinho freneticamente com as mãos.
Minha sogra, Martha, já tinha começado a socar coisas no carrinho; era tão bruta que parecia estar roubando. Pegava pacotes de biscoitos compactados e atirava dentro sem nem olhar. Enlatados, macarrão instantâneo, chocolate, barras energéticas — ela queria tudo o que fosse comestível.
Minha esposa, Eileen, ficou de lado, observando tudo com certa hesitação. Ela ergueu os olhos para mim; os lábios se mexeram como se quisesse dizer algo, mas, no fim, não disse nada e começou a colocar água engarrafada no carrinho.
Eu fui até a seção de medicamentos e peguei antibióticos, anti-inflamatórios, antitérmicos, analgésicos, ataduras e iodo. Essas coisas são mais valiosas que comida no apocalipse — infecção em ferimento é morte certa nessa temperatura.
Depois fui para a seção de alimentos. Separei enlatados calóricos e biscoitos compactados, além de algumas vitaminas e sal.
Três horas.
Os dois carrinhos estavam completamente cheios.
Enlatados empilhados como uma pequena montanha, biscoitos compactados enfiados em cada vão, água engarrafada empilhada em três camadas, e os remédios embalados numa sacola separada.
Ao olhar para os suprimentos, soltei um suspiro leve de alívio — pelo menos dariam até chegarmos ao abrigo. Se economizássemos, aquilo podia alimentar cinco pessoas por dois meses.
—Anson! —minha sogra, Martha, me chamou de repente; a voz vinha lá do fundo do supermercado.
Eu me virei.
Ela estava bem no fundo, apontando para uma porta de ferro pesada. Era a entrada dos funcionários, que levava ao depósito.
—Ainda tem coisa lá no depósito. Vai lá e traz o último lote —disse ela, apontando para o portão de ferro com um ar de justiça própria.
—O que é aquilo? —eu fui até lá.
—Os galões de combustível —disse Martha, como se fosse óbvio. —Você é homem. Se não for você a fazer esse tipo de trabalho, vai ser quem?
Olhei para ela.
Ela tinha cinquenta e poucos anos, era acima do peso, com rugas profundas no rosto, como cortes de faca. Naquele momento, estava com as mãos na cintura, o queixo levemente erguido, os olhos carregando uma arrogância segura de si — do mesmo jeito que sempre olhou para mim.
Não disse nada.
Virei e fui em direção ao depósito.
Empurrei o portão de ferro.
Havia dezenas de galões de combustível empilhados lá dentro; era coisa boa mesmo. Cada um tinha vinte litros, dava para queimar por bastante tempo.
O depósito era enorme, com fileiras de prateleiras se estendendo para a escuridão. As luzes estavam apagadas havia muito tempo; só um brilho fraco entrava por baixo da porta.
Abaixei e comecei a carregar.
Os galões eram pesados, cada um com pelo menos quinze quilos. Peguei um e fui em direção à porta.
Naquele instante—
“Clique.”
O portão de ferro se fechou.
Em seguida veio o som de uma tranca sendo passada — um clique seco, como algo se prendendo no lugar.
Soltei o galão, corri até a porta e puxei com força a maçaneta.
—Eileen! Abre a porta!
A porta não se mexeu nem um centímetro.
Está trancada por fora.
Ouvi passos do lado de fora, o barulho das rodas do carrinho e o som de um motor pegando.
—EILEEN!!!
Soquei a porta; o ferro respondeu com um baque surdo que fez minhas mãos formigarem.
De repente, uma voz saiu do rádio.
Aqueles eram walkie-talkies que eu tinha fornecido a todos antes de partirmos, para mantermos contato.
— Anson — veio a voz de Martha, com um deboche mal disfarçado. — Você pode ficar aí.
No rádio, a voz dela soou particularmente áspera.
— O que você disse? — apertei o walkie-talkie com força.
— Estou dizendo, seu lixo, que você merece ser abandonado.
Ela pronunciou cada palavra com muita clareza.
Eu fiquei atônito.
— Mãe... mãe... — a voz da esposa dele, Eileen, surgiu no rádio. Parecia querer dizer alguma coisa, mas foi rapidamente interrompida pela sogra, Martha.
— Cala a boca! Ele é seu marido, mas eu não sou sua mãe? — a voz de Martha subiu de repente. — Você quer me ver morrer de fome?!
— Mas...
— Mas o quê? Mais uma pessoa é mais uma boca pra alimentar! — disse Martha, a sogra, impaciente. — A gente só tem esses suprimentos. Se ele morrer, a gente consegue viver mais alguns dias!
— Escolhe: sua mãe ou esse imprestável!
O rádio ficou mudo.
Só restou o ronco do motor.
Então vieram os soluços de Eileen — bem baixos, bem contidos, como se alguém tivesse tapado a boca dela.
O som do motor se perdeu à distância.
Eu fiquei diante do portão de ferro.
Aos poucos, fechei os dedos.
A voz voltou a sair do walkie-talkie.
— Mandar aquele peso morto pro inferno... que delícia! — era a voz do cunhado de Tom, cheia de risadas satisfeitas. — Eu tava de olho nele faz tempo, sempre com aquela cara azeda.
— Exatamente — emendou Martha, a mãe de Eileen. — Eu nem devia ter deixado a Eileen casar com ele. Que futuro um balconista de loja de conveniência pode ter?
— Agora ficou tudo ótimo. Sem ele atrapalhando, a gente tem suprimentos o suficiente pra viver bem no abrigo.
— A propósito, mãe, o que a gente vai dizer no abrigo? — perguntou Tom, o cunhado.
— Diz que ele foi devorado pela besta de gelo enquanto salvava a gente — Martha debochou. — Se ele chorar bastante, talvez ganhe uma parte maior dos suprimentos.
— Uau, isso é genial!
O rádio morreu.
Eu me virei e olhei para as profundezas do depósito.
Lá fora dava para ouvir o rugido das feras.
Profundo, rouco e selvagem.
Aquilo é uma besta de gelo.
Ouvi o som de vidro se quebrando, o barulho de algo pesado se movendo no supermercado, e o estrondo de prateleiras sendo derrubadas.
Os passos se aproximaram.
Então veio o som de fungadas — a coisa estava do lado de fora da porta, através do portão de ferro, farejando meu cheiro.
Eles estão condenados.
Eu fui escorregando devagar até me sentar no chão, encostado ao portão de ferro.
O walkie-talkie caiu no chão, fazendo um leve clique.
[Ding — Sistema de Pesca no Gelo Ativado]
Uma voz mecânica ecoou de repente na minha mente.
Fria, impiedosa e com aquele tom eletrônico sintetizado.
[A vida do anfitrião está em perigo]
[Ativação emergencial do modo de sobrevivência]
[Parabéns, anfitrião, você obteve: Físico de Temperatura Constante NV1]
[Parabéns, anfitrião, você obteve: Manipulação de Geada Iniciante NV1]
[Parabéns, anfitrião, você obteve: Vara de Pesca no Gelo Iniciante]
Meu corpo deu um solavanco.
Uma corrente quente irrompeu do meu coração e se espalhou num instante pelos meus membros e ossos.
O frio desapareceu.
No lugar dele, senti um calor, como se uma membrana invisível me envolvesse, me protegendo de todo o frio.
Uma vara de pesca azul-gelo, de um metro de comprimento, apareceu do nada na minha mão.
Ela era cristalina, como uma obra de arte esculpida em cristal. A linha era fina como um fio de cabelo, tremeluzindo com uma fraca luz azul no brilho fraco do ambiente. O anzol era afiado, reluzindo com uma luz fria.
[Nova missão do jogador: Vá até o corpo d’água congelado mais próximo para sua primeira pescaria no gelo]
[Recompensa da missão: Baú do Tesouro Aleatório x1]
Olhei para a vara de pesca na minha mão.
Os rugidos das feras lá fora estavam cada vez mais perto.
Algo se chocou contra o portão de ferro, fazendo um estrondo.
Poeira caiu do teto.
Eu inspirei fundo.
Levantei.
Olhe para o fundo do depósito — há uma portinha ali, a porta dos fundos da entrada de funcionários, que leva à área de descarga atrás do supermercado.
Agarrei a vara de pescar e caminhei em direção à portinha.
Ele a chutou, abrindo passagem.
Um vento cortante varreu meu corpo, mas eu não senti frio.
A área de descarga era um pátio aberto de concreto, com vários caminhões tombados empilhados.
Três feras de gelo estavam deitadas sobre a carcaça de um caminhão, roendo um cadáver.
Cada uma era do tamanho de um leão adulto, coberta por uma juba branca de geada, com presas afiadas como adagas. Seus olhos azul-gelo brilhavam na escuridão, cheios de uma excitação sanguinária.
Elas viraram a cabeça.
Seus olhos azul-gelo estavam cravados em mim.
Uma delas se levantou, soltando um rosnado grave do fundo da garganta; a saliva pingava das presas e congelava instantaneamente no chão.
— Vem.
Ergui a vara de pescar.
Não sei por quê, mas eu instintivamente sei como usá-la.
A linha na ponta da vara se esticou de repente, e o anzol disparou como uma estaca de gelo afiada.
Soou o assobio de algo cortando o ar.
Antes que as três feras de gelo pudessem reagir, estacas de gelo já tinham atravessado seus crânios.
Pffft—
Três baques abafados.
As três feras de gelo caíram no chão ao mesmo tempo, com sangue jorrando dos buracos em suas cabeças e congelando no concreto.
Recolhi a vara.
As estacas de gelo se dissiparam, a linha voltou a afrouxar e se enrolou de novo na vara.
Lancei um olhar para o fundo da área de descarga.
Havia um lago congelado ali — antes era uma lagoa de tratamento de esgoto, mas agora estava completamente congelada, cintilando com um brilho azulado sob a luz da lua.
Eu fui até lá.
Parei na borda do gelo.
Usei o anzol para abrir um buraco — as estacas de gelo perfuraram com facilidade a camada de meio metro de espessura, como se cortassem tofu.
A abertura tinha cerca de meio metro de diâmetro, com bordas lisas e bem definidas.
Agachei.
Baixei o anzol.
A linha afundou na água gelada e desapareceu na escuridão.
Esperei.
Cinco minutos.
Dez minutos.
A linha de repente afundou.
Senti uma força imensa puxando debaixo d’água, quase arrancando a vara das minhas mãos.
Puxei com força.
A linha ficou esticada, vibrando com um zumbido.
Um baú do tesouro dourado emergiu lentamente da água — do tamanho de uma mala, totalmente dourado, com padrões intrincados entalhados na superfície, irradiando um brilho suave.
O baú caiu no gelo com um baque surdo.
[Parabéns, anfitrião, por concluir a missão de iniciante]
[Obteve 1 Baú do Tesouro Dourado]
[Ativar?]
— Iniciar.
O baú do tesouro dourado se abriu automaticamente.
Uma luz emanou de dentro.
[Parabéns, anfitrião, você obteve: Superpoderes duplos — Manipulação de Geada NV3 + Domínio de Frio Extremo NV1]
[Manipulação de Geada NV3: pode condensar e manipular geada livremente, moldando-a em várias formas]
[Domínio de Frio Extremo NV1: a temperatura num raio de 50 metros, centrado no usuário, pode cair a -100 graus Celsius]
Uma força imensa invadiu seu corpo.
Eu me levantei.
Ergui a mão direita.
Um pensamento surgiu.
Incontáveis estacas de gelo se materializaram do nada, voando por toda parte como um grupo de soldados obedecendo ordens, formando diversas formações no ar.
Baixei a mão.
As estacas de gelo sumiram instantaneamente, virando cristais de gelo que flutuaram para baixo.
Liguei o rádio.
Sintonizei o canal público do abrigo — antes de partir, o comandante deu a todos uma frequência de canal público para receber as transmissões do abrigo.
— O 237º grupo de sobreviventes chegou ao abrigo.
— As famílias dos mártires terão prioridade no reassentamento.
A Sra. Martha e sua família se mudaram para a suíte de luxo na Zona A.
Segundo a Sra. Martha, seu genro, Anson, se sacrificou heroicamente para salvar a família, cobrindo sozinho a retirada deles.
O abrigo realizará um serviço memorial para o mártir Anson.
— As famílias dos mártires receberão o mais alto nível de tratamento.
