Capítulo 2 Fantasma em uma gaiola dourada

Elena: POV

Como ele era sem coração!

Depois que ele foi embora, eu fui direto ao banheiro da salinha de descanso privativa. Fiquei ali por um bom tempo, encarando meu reflexo no espelho — o cabelo todo bagunçado, os lábios inchados, a blusa amassada apesar de todo o meu esforço. Eu estava com a exata aparência do que todo mundo achava que eu era.

Uma amante. Uma destruidora de lares. A garota que estava esquentando a cama do CEO enquanto o amor de verdade dele esperava em Paris.

Se ao menos eles soubessem que a verdade era muito pior.

Enquanto eu ajeitava as coisas no quarto, meus olhos passaram por aquele copo d’água intocado e pelos comprimidos ao lado dele, e uma onda de amargura subiu no meu peito.


Nem sempre foi assim. Às vezes, eu não consigo evitar de lembrar de quem eu era três anos atrás, quando o Julian às vezes sorria para mim no jardim. Aqueles sorrisos — gentis, rápidos — pareciam luz de primavera, e eu me agarrava a eles, convencida de que eu era especial.

Eu guardava aqueles momentinhos como um tesouro — ele perguntando do meu livro, o jeito como a luz batia no cabelo dele, o calor na voz quando ele dizia o meu nome. Eu me dizia, tola, que talvez ele me enxergasse.

Mas, no fundo, eu sabia a verdade. Julian Sterling era sempre educado, sempre distante, com uma palavra gentil para todo mundo, de conselheiros a empregados da casa. Aquele calor era só boa educação, e eu fui idiota de achar que significava alguma coisa.

Mesmo assim, eu me permiti acreditar. Até aquela noite — quando tudo desmoronou.

Era o aniversário de vinte e cinco anos dele, uma festa em um iate perto dos Hamptons, tudo brilho, risadas e gente no meio da qual eu nunca pertenceria. Eu só estava lá porque a minha mãe — a governanta que me criou — insistiu que eu fosse incluída.

Eu era só uma estagiária, invisível no meio dos convidados de verdade. Alguém me colocou uma taça de champanhe na mão, e o mundo começou a ficar embaçado nas bordas. Tonta, eu tropecei pelos corredores, procurando um canto silencioso para descansar.

O Julian apareceu na porta, com a camisa meio desabotoada, o olhar vidrado. Eu tentei dizer que ele tinha entrado no quarto errado, mas então ele me beijou. Por um instante, todo o resto sumiu.

Na manhã seguinte, eu acordei enrolada nos braços dele. A expressão no rosto dele quando percebeu que era eu — primeiro choque, depois um nojo puro.

“Você me drogou”, ele disse, se afastando como se tivesse se queimado. “Você me drogou, porra.”

“Não!” Eu me atrapalhei procurando o lençol, desesperada. “Julian, alguém drogou nós dois — eu juro, não fui eu—”

“Não mente pra mim.” A voz dele era gelo. “Você sempre quis isso. Finalmente teve a sua chance.”

Eu tentei explicar, mas ele não quis ouvir. Pra ele, eu era só a garota da criadagem que finalmente tinha conseguido armar pra cima dele.

Eu achei que ali tinha acabado. Mas o verdadeiro desastre só estava começando.

De algum jeito, o avô dele ficou sabendo. Arthur Sterling teve um ataque cardíaco e foi levado às pressas pro hospital. Ele mandou chamar o Julian ao lado da cama e deu o ultimato:

“Case com ela, ou eu tiro você do testamento.”

Eu vi o Julian sair furioso do quarto do hospital, me lançando um olhar que cortava como uma lâmina, como se eu tivesse algum controle sobre um homem de oitenta anos falando do leito de morte.

Dois dias depois, o contrato chegou: cinco anos, um casamento secreto, nenhum reconhecimento público. Cumprir o desejo do avô dele e, depois, ir embora em silêncio.

Julian assinou sem nem olhar para mim.

E eu, ainda me agarrando a alguma esperança, assinei também. Achei que, se eu tivesse tempo suficiente, ele enxergaria a verdade — talvez até me amasse.

Três anos depois, eu ainda era a mesma idiota.


“Aí está você!”

A voz da Sarah me puxou de volta à realidade.

De algum jeito, eu tinha conseguido voltar para a minha mesa. Perto do bebedouro, Sarah e Lisa estavam de cochicho; os olhos das duas brilharam quando me viram, famintas por fofoca.

“Reunião pesada com o Sr. Sterling?”, Sarah gritou, me medindo de cima a baixo, procurando algum sinal.

Puxei a blusa para ajeitar, tentando manter a voz firme. “Só trabalho.”

Lisa deu um sorriso de canto. “Trabalho? Então você deve ser muito boa nisso — três anos e ele ainda não consegue tirar as mãos de você. Talvez você devesse dar uma aula pra gente.”

Aquilo doeu mais do que eu queria admitir. Afundei as unhas na palma da mão, me obrigando a não reagir. Elas não faziam ideia do que eu tinha passado, mas o julgamento delas era uma sentença do mesmo jeito.

“Para de encenação, Elena”, Lisa insistiu, com a voz afiada. “Todo mundo sabe que você tá dormindo com o chefe. Mas não se ache demais — a Victoria vai voltar de Paris logo. E aí, o que vai sobrar pra você?”

Victoria Astor.

O nome me cortou por dentro. A socialite perfeita. A mulher que o Julian realmente amava. Aquela que ele visitava em Paris a cada poucos meses.

“Chega.” A voz do Marcus atravessou a tensão quando ele apareceu ao meu lado. O tom era calmo, mas o olhar, firme. “Sarah, Lisa, vocês não têm trabalho pra fazer?”

Sarah revirou os olhos, Lisa resmungou alguma coisa entre os dentes, e as duas se afastaram. Marcus me entregou um copo de água, falando com delicadeza: “Não liga pra elas. Você é talentosa, Elena. É isso que importa.”

Engoli em seco, forçando um sorriso agradecido. “Obrigada, Marcus.”

Ele apertou meu ombro de leve antes de ir embora.


A tarde se arrastou sem fim. Eu tentei me concentrar, mas minha cabeça rodava e meu estômago embrulhava. Mal tinha encostado no almoço. Até o cheiro de café me dava ânsia.

Quando cheguei de volta à cobertura, o cansaço grudava em mim como uma segunda pele. O apartamento era lindo — moderno, caro, só vidro, mármore e uma perfeição gelada. Mas não parecia lar. Julian quase nunca estava ali; era só eu, ecoando dentro de uma gaiola dourada.

Joguei a bolsa no sofá e fui até a cozinha. Cozinhar geralmente ajudava, mas naquela noite até o chiado do alho no azeite me revirou o estômago. Mal deu tempo de chegar ao banheiro antes de eu me dobrar, vomitando até não sobrar mais nada.

Quando finalmente levantei a cabeça, meu reflexo estava pálido e assombrado, os lábios ainda inchados de tanto chorar.

E então o pensamento me atingiu, certeiro e impossível de ignorar.

Minha menstruação estava atrasada há mais de um mês.

“Não”, eu sussurrei para o espelho. “Por favor, não.”

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