Capítulo 3 Duas linhas

Elena: POV

A lembrança me atingiu como um tapa quando encarei meu reflexo pálido no espelho do banheiro, a mão tremendo sobre a barriga lisa.

Sempre. Sempre, todas as vezes depois que ele me tinha — na cama, contra a parede, em cima da mesa do escritório —, Julian me entregava uma pílula branca pequena e um copo d’água.

— Toma. — ele dizia, com a voz fria e prática, já abotoando a camisa. Nenhum carinho. Nenhuma preocupação se eu estava dolorida ou assustada. Só aquela pílula, presa entre os dedos longos como uma ordem.

Na primeira vez, eu fui burra o bastante para perguntar por quê.

A resposta dele foi brutalmente simples:

— Porque eu não quero complicações, Elena. Você não está pronta pra carregar meu filho. — Uma pausa, aqueles olhos cinza-aço encontrando os meus pelo espelho. — Na verdade, você nunca vai estar pronta. Você não é digna de dar à luz um herdeiro Sterling.

Aquelas palavras me esvaziaram por dentro naquela época. Ainda esvaziavam agora.

Depois disso, eu tomei a pílula todas as vezes, engolindo com uma água que tinha gosto de cinzas.


Eu não conseguia ficar naquela cobertura. Parecia que as paredes estavam se fechando, e o luxo sufocava. Peguei meu casaco e saí, mantendo a cabeça baixa ao passar pelo porteiro.

A farmácia na Terceira Avenida era clara e impessoal. Eu vaguei pelos corredores, atordoada, até me ver parada diante da seção de planejamento familiar.

Os testes de gravidez estavam alinhados em fileiras certinhas, cada caixa prometendo respostas que eu não tinha certeza se queria.

Peguei o Clearblue Digital — o mais caro — porque, mesmo em pânico, eu não conseguia tirar a voz do Julian da minha cabeça: “Se for fazer alguma coisa, faça direito.”

O caixa adolescente mal olhou pra mim, vidrado no celular. Paguei em dinheiro e enfiei a caixa fundo na bolsa.


De volta ao banheiro, sentei no chão de mármore gelado, segurando o bastonete do teste com as mãos tremendo. O visor digital piscava: Testando...

Três minutos. Cento e oitenta segundos.

Com dois minutos e trinta, a tela tremeluziu.

Com dois minutos e quarenta e cinco, as palavras apareceram.

Grávida 3+ semanas

Minhas pernas simplesmente falharam. Eu escorreguei pela parede, aquela única palavra destruindo e reconstruindo o meu mundo inteiro ao mesmo tempo.

Eu estava carregando o filho de Julian Sterling. Quando foi que eu engravidei? Eu sempre tomava a pílula depois que a gente transava. Sempre. Todas as malditas vezes. Merda... espera. Há mais de um mês. Ele foi embora tão rápido depois, e aí eu me distraí com alguma coisa e simplesmente... esqueci.

O homem que me odiava. O homem que achava que eu tinha dopado e prendido ele. O homem que amava Victoria Astor e que nunca, nunca ia me amar.

Um soluço rasgou minha garganta, depois outro, até eu chorar tanto que não conseguia respirar. Anos de dor reprimida finalmente rompendo a barreira.

Deus me ajude, eu queria esse bebê. Eu sonhava em ter um filho do Julian desde que era uma adolescente idiota, observando ele dos quartos dos empregados. Mas não assim. Não quando ele mal conseguia olhar pra mim. Não quando nosso casamento tinha prazo de validade.

Que tipo de pai ele seria para um bebê que ele nunca quis? Que tipo de vida eu poderia dar a essa criança no nosso arranjo frio, sem amor?

Mas a ideia de não ter esse bebê — de acabar com a única parte do Julian que talvez eu viesse a realmente possuir — era insuportável.

Fiquei sentada ali, no chão do banheiro, até as lágrimas secarem nas minhas bochechas. Até que alguma coisa dentro de mim mudasse, endurecendo e virando determinação.

Eu ia ficar com esse bebê. E eu ia fazer o Julian me amar — não por minha causa, mas por essa criança. Pela vidinha dentro de mim, que merecia o amor de um pai, uma família de verdade.

Mesmo que me matasse tentar.


Passei o fim da tarde cozinhando com uma energia quase frenética. Filé mignon com redução de vinho tinto — o prato favorito dele. Aspargos assados. Purê de batata com alho. O apartamento se encheu de aromas intensos que reviravam meu estômago.

Por volta das seis, peguei o celular e digitei: 【Eu fiz jantar. Você vem pra casa hoje?】

Fiquei encarando a palavra “casa” por um bom tempo antes de apertar enviar. Como se aquela cobertura estéril fosse um lar. Como se ele algum dia tivesse pensado em mim como alguém pra quem valesse a pena voltar.

A mensagem apareceu como lida na mesma hora. Nenhuma resposta.

Às sete, a comida já estava esfriando. Às oito, eu tinha trocado de roupa: jeans e um suéter de cashmere creme, tentando parecer casual. Às nove, eu já tinha aceitado que ele não vinha.

Por que viria? Eu era só o corpo conveniente que ele usava quando precisava se aliviar.

Peguei meu casaco e abri a porta, pensando que talvez uma caminhada clareasse minha cabeça —

Julian estava no corredor, com a mão erguida, como se fosse bater.

Nós dois congelamos.

Meu Deus, ele era lindo. Mesmo depois de três anos, a visão dele me tirava o fôlego. Ele tinha afrouxado a gravata, a seda bordô pendendo de um jeito displicente em volta do pescoço.

O paletó do terno grafite estava aberto, revelando a camisa branca impecável por baixo, esticada nos ombros largos.

O cabelo castanho um pouco despenteado, como se ele tivesse passado a mão nele. E aqueles olhos cinza-aço — afiados o bastante pra cortar — encontraram os meus e, por um segundo, eu vi algo tremular ali. Surpresa? Preocupação?

Então sumiu, substituído por aquela máscara fria de sempre.

“Você veio”, eu sussurrei.

O olhar dele me percorreu, parando no meu rosto. “Você pediu.”

Antes que eu conseguisse responder, ele avançou. As mãos dele agarraram minha cintura, me erguendo com facilidade enquanto ele chutava a porta pra fechar. Eu ofeguei, os braços se enrolando no pescoço dele por instinto, enquanto ele me carregava até o sofá.

“Julian, eu—”

Ele me calou com a boca, num beijo fundo e exigente. Minhas costas bateram nas almofadas, e ele veio junto, o peso dele me pressionando contra o couro.

“Eu achei que você não vinha”, eu consegui dizer quando ele se afastou, os lábios dele descendo pro meu pescoço.

“Você me queria aqui.” A voz dele raspou na minha pele, e as mãos já estavam escorregando por baixo do meu suéter. “Então eu vim pra casa pra te foder.”

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