Capítulo 1 Entre sonhos e provocações
INÍCIO
Viver em uma comunidade dominada pelo tráfico nunca foi uma tarefa fácil. Para muitos moradores, o sonho de crescer, conquistar uma vida melhor e encontrar oportunidades longe dali parecia distante. A vontade de mudar de realidade existia, mas o destino nem sempre seguia os planos de quem lutava diariamente para vencer.
Em meio à rotina agitada da comunidade, uma jovem se destacava por sua determinação e independência. Isadora, aos vinte e um anos, trabalhava em uma pensão local enquanto cursava Direito. Batalhadora desde cedo, ela fazia questão de conquistar cada coisa com o próprio esforço, sem depender de favores duvidosos ou aceitar propostas que colocassem seus princípios em risco.
Era o orgulho de parte da família, embora nem todos compreendessem suas escolhas. Dona de uma personalidade forte, Isadora não permitia que ninguém a diminuísse ou enxergasse nela uma oportunidade de conseguir vantagens. Sabia o que queria, conhecia seus limites e estava disposta a lutar por um futuro diferente.
O que ela não imaginava era que sua postura chamaria a atenção justamente do homem de quem deveria manter distância.
Foguinho era o comandante da comunidade. Frio, autoritário e pouco acostumado a ouvir negativas, havia aprendido a conduzir a própria vida sem demonstrar fraqueza. Embora cuidasse dos moradores e ajudasse quem precisava, carregava uma personalidade difícil, marcada por decisões impulsivas e uma maneira nada delicada de resolver os problemas.
Amor nunca foi uma prioridade para ele. Não sabia como receber carinho e muito menos como oferecê-lo. Seus relacionamentos eram passageiros, seus sentimentos permaneciam escondidos e sua palavra costumava ser a última. Até que Isadora começou a ocupar seus pensamentos de uma maneira que ele não conseguia explicar.
A jovem não se curvava diante de sua autoridade, não procurava agradá-lo e muito menos parecia impressionada com o poder que ele exercia. Aquilo despertou uma curiosidade que, pouco a pouco, se transformou em um sentimento intenso e confuso.
Foguinho queria se aproximar, mas não sabia como. Queria sua atenção, mas não aceitava facilmente ser ignorado. E, quando percebeu que estava sentindo ciúmes de alguém que não lhe pertencia, começou a cometer uma sequência de erros que colocaria os dois em situações inesperadas.
Entre provocações, desentendimentos, inseguranças e aproximações inesperadas, Isadora precisará proteger seus sonhos sem abrir mão de quem é. Foguinho, por sua vez, terá de descobrir que poder não significa ter o direito de controlar os sentimentos de outra pessoa.
Uma atração inesperada poderá transformar duas vidas, mas somente o tempo, as escolhas e as mudanças verdadeiras dirão se existe espaço para um amor saudável em meio a tantas diferenças.
Afinal, é possível sentir ciúmes de quem nunca foi seu?
E, quando o coração se torna uma prisão, quem precisará encontrar a chave para se libertar?
PERSONAGENS PRINCIPAIS
ISADORA — 21 anos
Estudante de Direito e funcionária de uma pensão da comunidade. Inteligente, trabalhadora e dona de uma personalidade marcante, Isadora sonha em construir uma carreira e conquistar a independência financeira. É filha de um estrangeiro conhecido como Gringo, que passou uma temporada de férias na comunidade, teve um romance de verão com sua mãe e foi embora sem voltar. Cresceu aprendendo que não poderia depender de promessas para construir o próprio futuro.
FOGUINHO — Comandante da comunidade
Um homem de personalidade forte, acostumado a comandar e a conseguir o que deseja. Respeitado por alguns, temido por outros, Foguinho mantém suas emoções escondidas atrás de uma postura fria e autoritária. Sua vida muda quando conhece Isadora, uma jovem que não se deixa intimidar por ele. Pela primeira vez, precisará enfrentar algo que não pode resolver com ordens: seus próprios sentimentos. Para conquistar a confiança dela, terá de aprender que amor não combina com imposição, e que mudar exige muito mais do que promessas.
Isadora narrando
Observava o relógio no pulso pela terceira vez em menos de cinco minutos, torcendo para que os ponteiros resolvessem colaborar comigo. Eu estava na faculdade, cansada, com sono e com uma fome capaz de me fazer considerar seriamente a possibilidade de comer as páginas do meu caderno.
Tá, talvez eu não chegasse a tanto, mas estava quase!
Aquela semana tinha sido puxada. Entre provas, trabalhos e as horas que eu passava na pensão trabalhando, mal sobrava tempo para respirar. Ainda assim, eu não tinha do que reclamar. Estava terminando o sexto período de Direito, e cada semestre concluído me deixava mais perto do meu maior sonho: me tornar juíza.
Não era apenas uma profissão que eu desejava exercer. Era a oportunidade de mudar a minha vida e, principalmente, dar à minha avó o conforto que ela merecia.
Foi ela quem me criou, quem segurou minha mão quando eu fiquei doente, quem me ensinou a ler e quem me abraçou nas noites em que eu chorava sem entender por que minha mãe parecia não sentir minha falta.
Minha história familiar nunca foi exatamente um conto de fadas.
Minha mãe conheceu meu pai quando ele veio passar férias no Brasil. Ele era estrangeiro, um homem que, segundo as poucas histórias que ouvi, se envolveu com ela durante uma temporada e depois foi embora. Os dois não trocaram telefones, não se adicionaram nas redes sociais e aparentemente não pensaram muito nas consequências daquele romance.
Minha mãe acabou grávida e não teve como avisá-lo.
Ou, pelo menos, essa foi a explicação que recebi ao longo dos anos.
O problema é que ela também não parecia interessada em me criar. Assim que nasci, minha avó assumiu a responsabilidade por mim, e minha mãe seguiu a vida como se eu fosse uma lembrança inconveniente de um passado que preferia esquecer.
Algum tempo depois, ela se envolveu com um homem da comunidade, foi morar com ele e teve outra filha.
A minha irmã.
Quer dizer, irmã de sangue, porque, em termos de convivência, éramos praticamente duas desconhecidas.
Minha mãe nunca fez questão de me incluir nos momentos em família. Não me procurava para saber como eu estava, não perguntava sobre a faculdade e muito menos se eu precisava de alguma coisa. Entretanto, para minha irmã, parecia existir uma disposição inesgotável.
A menina tinha acabado de completar dezoito anos e já havia colecionado confusões suficientes para alimentar as fofocas da comunidade durante meses.
Era discussão na rua, desentendimento com outras garotas e um interesse exagerado por homens que, na maioria das vezes, nem sequer olhavam para ela.
Entre os alvos de sua atenção estava o comandante da região, Foguinho.
Eu já tinha ouvido comentários de que ela era completamente encantada por ele. O problema era que o homem nunca demonstrara interesse em corresponder aos sentimentos dela.
E, sinceramente, eu não tinha a menor intenção de me meter naquela história.
Minha irmã podia fazer o que quisesse da vida dela, desde que não tentasse me arrastar para suas confusões.
O que me incomodava era a diferença de tratamento.
Ela não precisava fazer absolutamente nada para receber elogios da nossa mãe. Eu, por outro lado, estudava, trabalhava, conseguia manter minhas notas e ainda havia conquistado uma bolsa para cursar Direito. Mesmo assim, nunca tinha recebido sequer um parabéns sincero.
Mas tudo bem.
Eu já havia aprendido que não podia passar a vida esperando reconhecimento de quem não estava disposto a oferecê-lo.
Minha avó era a pessoa que acreditava em mim, e aquilo me bastava.
Por enquanto, eu precisava terminar aquele semestre, conseguir boas notas e continuar trabalhando. Um dia, quando estivesse formada e financeiramente estável, tiraria minha velhinha daquela casa pequena e daria a ela uma vida mais tranquila.
Era uma promessa que eu fazia a mim mesma todas as noites.
Quando finalmente fui liberada da faculdade, guardei meus materiais na bolsa e segui para casa. O céu começava a escurecer, e eu já estava calculando quanto tempo teria para comer antes de precisar me arrumar para o trabalho.
Foi quando ouvi o ronco de uma motocicleta se aproximando.
Continuei andando normalmente, até perceber que o veículo reduzia a velocidade ao meu lado.
Olhei de relance.
Era Foguinho.
O comandante passou por mim devagar, com uma das mãos no guidão e a outra próxima ao corpo. Seus olhos permaneceram fixos nos meus por alguns segundos, e um sorriso de canto apareceu em seus lábios.
Aquele sorriso.
O tipo de sorriso que parecia carregar uma informação que somente ele conhecia.
Franzi a testa, sem entender absolutamente nada.
Ele acelerou a moto logo depois e seguiu morro acima, desaparecendo na curva da rua.
Fiquei olhando por alguns instantes, até perceber que estava parada no meio do caminho feito uma estátua.
— Que homem esquisito! — murmurei, voltando a caminhar.
Eu conhecia Foguinho apenas de vista. Sabia quem ele era, conhecia sua reputação e já havia escutado histórias suficientes para entender que não era alguém com quem eu deveria procurar intimidade.
Nunca tínhamos conversado.
Então, por que ele estava me olhando daquele jeito?
Dei de ombros e continuei meu caminho. Eu tinha problemas muito mais importantes para resolver do que tentar decifrar o sorriso de um homem que mal conhecia.
Quando cheguei em casa, encontrei minha avó na cozinha, lavando a louça com a tranquilidade de quem não tinha nenhuma preocupação no mundo.
Deixei a bolsa sobre uma cadeira e me aproximei dela.
— Benção, vó! Deixa isso aí e vai descansar um pouco.
Ela virou o rosto para mim, sorrindo.
— Deus te abençoe, minha menina. E eu não estou morta, viu? Ainda tenho duas mãos funcionando perfeitamente. Agora me conta: como foi a aula?
— Foi tudo bem. Cansativa, mas mais do que o normal. Estou quase dormindo em pé.
— Eu imagino. Você passa o dia estudando e trabalhando. Às vezes, fico preocupada com esse tanto de coisa que você coloca nas costas.
— É por uma boa causa, vó. Daqui a pouco eu me formo, viro juíza e a senhora vai poder descansar.
— Minha filha, eu já descanso quando vejo você chegando em casa com saúde. O resto a gente conquista aos poucos.
Sorri e beijei sua bochecha.
Era impressionante como aquela mulher conseguia transformar uma frase simples em algo capaz de aquecer meu coração.
Minha avó era meu porto seguro.
Enquanto eu estivesse com ela, sempre teria um lugar para voltar.
Foi quando a velha resolveu mudar de assunto com uma naturalidade suspeita.
— Agora, me responde uma coisa: você está ficando com o dono do morro?
Afastei o rosto imediatamente.
— O quê?!
Ela arregalou os olhos, fingindo inocência.
— Ué! Eu vi aquele homem passando bem devagarinho do seu lado. Ficou olhando para você e ainda deu um sorrisinho. Quero saber se tem alguma coisa acontecendo.
Levei a mão ao rosto.
— Ai, vó! Eu nunca nem conversei com ele!
— Mas ele conversou com os olhos, pelo visto.
— A senhora está inventando coisa!
— Inventando nada. Esses olhos aqui já viram muita coisa nesta vida.
Comecei a rir, balançando a cabeça.
— A senhora precisa parar de assistir a essas novelas.
— Novela nada! Estou falando de um assunto sério. E, olha, não vou mentir: se você estivesse mesmo ficando com ele, eu ficaria muito feliz.
Olhei para ela, incrédula.
— Vó!
— O quê? Eu não posso querer ver minha neta feliz?
— Pode, mas a senhora está falando do Foguinho! O comandante! O homem que todo mundo conhece e que vive cercado de problemas!
— E daí? Você também vive cercada de livros, e nem por isso alguém reclama.
— Isso não tem absolutamente nada a ver!
Minha avó começou a rir da própria comparação.
Eu não sabia se ficava indignada ou se acompanhava a risada dela. No fim, acabei fazendo as duas coisas.
— A senhora não presta!
— Presto, sim. E muito! Mas vou te contar uma coisa: eu ficava toda orgulhosa se você aparecesse de mãos dadas com ele só para esfregar na cara daquela aguada da sua irmã.
Apontei um dedo para ela.
— Olha o respeito! Ela também é sua neta!
Minha avó revirou os olhos.
— Aquela menina não quer saber de nada. Só vive arrumando confusão e depois corre para a mãe dela resolver. Eu não faço questão de me meter na vida de ninguém, mas também não vou fingir que acho bonito.
— Se a querida mamãe escuta a senhora falando assim da filha preferida dela, vai ser uma confusão daquelas.
— Eu mando as duas conversarem na calçada e pronto!
Soltei uma gargalhada.
— A senhora está impossível hoje!
— Estou falando sério. Ainda bem que sua mãe mora lá pela entrada do morro com aquele marido encostado dela. E não me faça começar a falar daquele homem, porque hoje estou inspirada.
— Misericórdia! A senhora acordou afiada!
— E você ainda não viu nada.
Balancei a cabeça, sorrindo, enquanto pegava um copo de água.
Minha avó podia reclamar da vida, criticar metade dos moradores e arrumar discussão até com uma parede, mas eu sabia que, por trás daquela língua afiada, existia um coração enorme.
Ela tinha passado a vida inteira trabalhando para que eu tivesse oportunidades que ela nunca teve. Muitas vezes, abriu mão das próprias vontades para me ajudar. Por isso, eu jamais permitiria que alguém diminuísse a importância daquela mulher na minha vida.
— Está bem, dona encrenca. Vou comer alguma coisa antes de sair.
— Isso mesmo! Seu prato está no micro-ondas. Esquente e coma direitinho, porque você precisa de forças para trabalhar.
— Pode deixar. Obrigada, vó.
Ela ergueu o queixo, pensativa, antes de abrir aquele sorriso travesso que eu conhecia muito bem.
— Mas, se quiser me agradecer de verdade, pode começar irritando aquela aguada. Quero muito assistir a um barraco.
Quase engasguei com a água.
— A senhora quer me ver lascada, só pode!
— Eu jamais faria isso com você, minha menina. Estou apenas tentando colocar um pouco de adrenalina na sua vida. Cola na vovó que é sucesso!
Não consegui segurar a gargalhada.
— A senhora precisa de terapia!
— E você precisa de um namorado!
— Eu preciso é me formar!
— Namorado não atrapalha diploma, não. Dependendo do namorado, até ajuda a pagar a formatura.
— VÓ!
Ela caiu na risada, satisfeita com o próprio comentário.
Eu também ri, porque não havia como levar aquela mulher a sério por muito tempo.
Depois de esquentar minha comida, sentei à mesa e comecei a comer enquanto ela continuava inventando situações nas quais eu aparecia ao lado de Foguinho, usando um vestido bonito e entrando na cozinha para contar as novidades.
Segundo ela, o comandante poderia ser exatamente o homem de que eu precisava.
Segundo eu, minha avó precisava urgentemente encontrar um passatempo que não envolvesse a minha vida amorosa.
O problema era que, por mais que eu tentasse ignorar o assunto, a imagem daquele sorriso continuava voltando à minha cabeça.
A maneira como Foguinho havia diminuído a velocidade da moto.
O olhar demorado.
Aquele sorriso de canto.
Será que ele estava olhando para mim ou apenas tinha me reconhecido como mais uma moradora da região?
Era uma pergunta simples, mas que começava a me incomodar mais do que deveria.
Sacudi a cabeça, decidida a encerrar aquela investigação antes mesmo que ela começasse.
Eu tinha vinte e um anos, uma faculdade para terminar, contas para ajudar a pagar e uma avó que sonhava em me ver formada.
Não havia espaço para confusão.
Muito menos para um comandante acostumado a conseguir tudo o que queria.
Pelo menos, era nisso que eu acreditava.
Naquela noite, enquanto me preparava para sair, eu ainda não sabia que aquele encontro aparentemente insignificante seria o início de uma história capaz de virar minha rotina de cabeça para baixo.
E, se minha avó estivesse certa sobre alguma coisa, eu provavelmente ainda teria muitos motivos para gritar com ela antes que tudo terminasse.
Só esperava que, no meio de tanta confusão, eu conseguisse continuar sendo a dona do meu próprio destino.
Porque, se havia uma coisa que eu não pretendia entregar a ninguém, era o controle da minha vida.
