Capítulo 2 Uma vontade perigosa

Foguinho narrando

Passei por aquela morena e, mais uma vez, precisei me controlar para não diminuir ainda mais a velocidade da moto.

Que menina linda!

Eu já tinha reparado nela fazia algum tempo. Isadora não era como as outras mulheres que circulavam por ali tentando chamar minha atenção. Na verdade, ela parecia fazer questão de manter distância de tudo o que envolvia meu nome. Andava sempre ocupada, com livros na bolsa, os pensamentos longe das conversas alheias e aquela expressão determinada de quem tinha coisas muito mais importantes para fazer.

E talvez tivesse mesmo.

Eu conhecia um pouco da história dela. Sabia que trabalhava na pensão e estudava Direito. Também sabia que havia sido criada pela avó, uma senhora por quem eu tinha bastante consideração.

Quanto à mãe da morena, minha opinião não era das melhores.

Ela era casada com um homem que havia trabalhado no movimento na época do meu pai. Durante uma invasão, ele sofreu um acidente com um explosivo que pretendia lançar e acabou perdendo parte da perna. Foi uma situação complicada, e meu pai, que ainda estava vivo naquela época, ajudou a família com dinheiro para o tratamento.

Pelo que soube depois, a quantia seria suficiente para cobrir as despesas médicas e até contribuir para a compra de uma prótese.

Só que boa parte daquele dinheiro acabou sendo usada pela mulher e pela filha em outras coisas.

Não sabia exatamente como estava a situação financeira deles naquele momento, mas conhecia o suficiente para perceber que Isadora não podia contar muito com a própria mãe.

Enquanto a jovem trabalhava e estudava para construir o futuro, as duas pareciam mais preocupadas em conseguir vantagens sem precisar fazer o mesmo esforço.

Aquilo me incomodava.

Não porque eu tivesse o direito de me meter na vida daquela família, mas porque sabia reconhecer uma pessoa batalhadora quando via uma.

Isadora tinha motivos para se revoltar com o mundo, mas não usava suas dificuldades como desculpa para desistir. Pelo contrário, parecia determinada a provar que poderia chegar muito mais longe do que esperavam dela.

E, quanto mais eu descobria sobre aquela mulher, mais curiosidade sentia.

O problema era que minha curiosidade estava começando a ultrapassar os limites do razoável.

Eu não costumava pensar tanto em alguém que mal conhecia. Minha rotina era cheia de responsabilidades, problemas para resolver e decisões que não podiam esperar. Não tinha tempo para ficar admirando mulher pelos cantos.

Pelo menos, era o que eu dizia a mim mesmo.

Naquela tarde, resolvi parar na pensão para comer alguma coisa. Estava sem fazer muita coisa naquele momento e pensei que uma refeição tranquila seria uma boa maneira de passar o tempo antes de voltar aos meus compromissos.

Mal entrei no estabelecimento, meus olhos encontraram a morena.

Isadora estava organizando algumas coisas atrás do balcão. Usava roupas simples, os cabelos soltos e uma expressão concentrada que desapareceu assim que percebeu minha presença.

Não sei se ficou surpresa ou apenas desconfortável.

Talvez as duas coisas.

Escolhi uma mesa e me sentei, fingindo que minha presença ali não tinha absolutamente nada a ver com ela.

Pouco depois, Isadora se aproximou com um cardápio nas mãos.

— Boa tarde. Já sabe o que vai pedir?

Levantei os olhos para ela.

De perto, aqueles olhos eram ainda mais bonitos.

Havia algo no jeito como me encarava que me deixava sem a tranquilidade habitual. Ela não abaixava a cabeça, não tentava me agradar e tampouco parecia disposta a sustentar uma conversa desnecessária.

— Boa tarde, morena.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— O senhor gostaria de ver o cardápio?

Segurei um sorriso.

O senhor?

Olhei para os lados, fingindo procurar alguém.

— Está falando comigo?

— Não estou vendo mais ninguém sentado nesta mesa.

Tive que conter a risada.

Aquela mulher tinha resposta para tudo.

— Então você é sempre assim?

— Assim como?

— Direta.

— Quando estou trabalhando, sim. Facilita bastante a vida.

Dessa vez, sorri de verdade.

— Certo. Vou querer um prato feito, um suco e uma porção de batata.

— O suco de qual sabor?

— O que você recomenda?

Ela olhou para o cardápio, depois voltou a me encarar.

— Recomendo o de maracujá. O senhor parece precisar relaxar.

Quase engasguei com a própria saliva.

Aquela atrevida estava me chamando de estressado na minha cara?

— Você acha que eu preciso relaxar?

— Eu não acho nada. Só estou recomendando um suco.

Ela respondeu com tanta tranquilidade que fiquei sem argumento.

A morena anotou o pedido e se afastou antes que eu pudesse inventar outra pergunta.

Acompanhei seus passos por alguns segundos, até perceber o tamanho da minha distração.

Eu estava feito um idiota.

Um homem acostumado a resolver problemas complicados, que não perdia tempo com bobagens, agora sentado numa pensão tentando descobrir como puxar assunto com uma estudante de Direito.

Meu pai, se estivesse vivo, provavelmente daria uma gargalhada da minha cara.

Foi quando a avó de Isadora entrou no estabelecimento.

A senhora tinha um sorriso fácil e uma maneira espontânea de conversar com as pessoas. Quando me viu, abriu ainda mais o sorriso e veio na minha direção.

— Olha só quem está por aqui! Boa tarde, meu filho!

— Boa tarde, dona. Tudo bem com a senhora?

— Melhor agora que encontrei gente conhecida. Já comeu?

— Acabei de pedir.

— Fez muito bem! Aqui a comida é boa, viu? E não estou falando isso só porque minha neta trabalha aqui.

Ela soltou uma risada, e eu a acompanhei.

Gostava daquela senhora. Ela não costumava me tratar como se eu fosse uma pessoa diferente das outras por causa da posição que ocupava. Falava comigo com naturalidade, reclamava quando achava necessário e não parecia ter medo de expressar suas opiniões.

— Cadê a sua neta? — perguntei, tentando fazer a pergunta parecer casual.

A senhora apontou discretamente para o balcão.

— Está trabalhando, coitada. Aquela menina não para. Estuda, trabalha e ainda chega em casa querendo arrumar tudo. Já falei que ela precisa descansar, mas acha que pode resolver o mundo inteiro sozinha.

Olhei na direção indicada.

Isadora conversava com outro funcionário enquanto organizava alguns pedidos.

— Ela é esforçada.

— Muito! Tenho um orgulho danado daquela menina. Se eu pudesse, colocava num potinho para ninguém fazer mal a ela.

Sorri diante da declaração.

Aquela era exatamente a impressão que eu tinha: a avó de Isadora faria qualquer coisa para protegê-la.

As duas conversaram por mais alguns minutos, até a senhora avisar que precisava falar com a neta antes de ir embora.

Não consegui ouvir tudo, mas algumas palavras chegaram até mim.

Forró.

Voltar no dia seguinte.

Casa vazia.

Parei de mexer no copo e prestei atenção sem perceber.

A avó estava avisando que passaria a noite fora e só voltaria na tarde do dia seguinte.

Aquilo despertou uma ideia imediata na minha cabeça.

Eu poderia procurar Isadora mais tarde e conversar com ela sem a correria do trabalho, sem funcionários circulando e sem a presença de outras pessoas.

Mas logo percebi o problema daquela ideia.

Eu nem sequer sabia se ela gostaria de conversar comigo.

E aparecer na casa de uma mulher sem ser convidado, aproveitando-se da ausência de sua avó, não era exatamente a melhor maneira de começar uma aproximação.

Passei a mão pelo rosto, irritado comigo mesmo.

Desde quando eu precisava planejar tanto para falar com alguém?

Eu poderia simplesmente convidá-la para conversar. Se ela aceitasse, ótimo. Se não quisesse, teria de respeitar a decisão.

Aquela última possibilidade era a que mais me incomodava.

Não estava acostumado a querer alguma coisa e precisar esperar pela resposta de outra pessoa.

Mas Isadora não era uma ordem que eu pudesse dar, um problema que pudesse resolver com dinheiro ou uma situação que pudesse controlar usando minha posição.

Ela era uma mulher com os próprios sonhos.

E eu precisava entender isso antes de fazer alguma besteira.

Quando minha comida chegou, tentei me concentrar no prato, mas meus olhos voltavam para ela de tempos em tempos.

Isadora continuava trabalhando, conversando com os clientes e resolvendo pequenas confusões com uma paciência que eu provavelmente não teria.

Em determinado momento, nossos olhares se encontraram novamente.

Ela estreitou os olhos, como se tivesse percebido que eu a observava.

Eu sorri.

Ela revirou os olhos e voltou ao trabalho.

Aquilo me arrancou uma risada baixa.

Estava oficialmente perdido.

Não sabia quando aquela curiosidade tinha começado, nem por que a morena conseguia despertar tantas coisas em mim sem fazer praticamente nada.

Só sabia que queria conhecê-la.

Queria descobrir o que a fazia sorrir, quais eram seus planos para o futuro e por que parecia carregar o mundo inteiro nas costas.

Também queria entender por que a ideia de vê-la com outro homem já me causava um incômodo que eu não tinha o menor direito de sentir.

Ciúmes?

De uma mulher com quem eu sequer havia tido uma conversa decente?

Ridículo.

Terminei a refeição, paguei a conta e me levantei. Antes de sair, olhei uma última vez na direção do balcão.

Isadora estava ocupada demais para perceber minha partida.

Por algum motivo, aquilo me fez sorrir.

Eu voltaria, mas da próxima vez tentaria fazer as coisas direito.

Sem aparecer de surpresa na casa dela, sem usar minha influência para conseguir atenção e sem agir como se meus desejos fossem mais importantes do que a vontade dela.

Era um plano simples.

O difícil seria colocá-lo em prática.

Do lado de fora, subi na moto e coloquei o capacete. Antes de ligar o motor, fiquei alguns segundos olhando para a rua por onde havia chegado.

Eu queria aquela morena na minha vida.

Queria conhecê-la, conquistar sua confiança e descobrir se existia alguma possibilidade de ela sentir por mim ao menos uma parte daquela inquietação que eu vinha sentindo.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, percebi que desejar alguma coisa não significava ter o direito de consegui-la a qualquer custo.

E, se eu realmente quisesse me aproximar de Isadora, teria de aprender a diferença.

Acelerei a moto e segui meu caminho, levando comigo uma certeza e uma dúvida.

A certeza era que aquela jovem já tinha despertado meu interesse como ninguém fazia havia muito tempo.

A dúvida era se eu teria maturidade suficiente para lidar com aquilo sem transformar minha vontade em mais um problema.

Porque, no fundo, eu sabia que Isadora não precisava de alguém para mandar na vida dela.

Precisava de alguém capaz de respeitar seus sonhos.

E eu ainda tinha muito a aprender antes de merecer um lugar ao lado daquela mulher.

Continua...

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