Capítulo 5 A primeira ameaça
Isadora narrando
Eu não podia negar que estava feliz.
Havia alguma coisa diferente naquela manhã, uma leveza que eu não sentia havia muito tempo. Talvez fosse por ter dormido bem, por ter passado a noite conversando com Foguinho ou simplesmente por perceber que, pela primeira vez, alguém parecia interessado em mim sem exigir que eu mudasse quem era.
Minha avó também estava feliz. Desde que ele havia ido embora, ela não parava de me olhar com um sorriso suspeito, como se tivesse acabado de descobrir o maior segredo do mundo.
— Para de me olhar assim, vó!
Ela apoiou as mãos na cintura.
— Assim como, menina?
— Com essa cara de quem está planejando alguma coisa.
— Eu estou feliz, ué! Conheço aquele menino desde bebê. Vi ele crescer, sei um pouco da história dele e, apesar de todas as dificuldades que enfrentou, acredito que tenha um bom coração.
Sorri enquanto recolhia as xícaras do café.
— Eu não vou negar que estou gostando disso.
Minha avó se aproximou imediatamente, interessada.
— Gostando de quê? Pode falar, que sua avó está aqui para ouvir!
— Da companhia dele, vó! Não precisa fazer essa festa toda.
Ela começou a rir.
— Ah, minha menina, deixa eu aproveitar! Você nunca me aparece com ninguém, vive enfiada nos livros e no trabalho. Quando finalmente resolve dar uma chance para alguém, quer que eu fique quietinha?
Balancei a cabeça, divertida.
— A senhora não sabe ficar quieta nem quando está dormindo.
— E nem pretendo aprender!
Rimos juntas, e continuei organizando a cozinha.
— Mas tem uma coisa que gostei bastante — acrescentei. — Nós dormimos juntos, mas ele não tentou me pressionar a fazer nada. Ficamos abraçados, conversamos e trocamos alguns beijos. Em nenhum momento ele me fez sentir que eu precisava oferecer alguma coisa em troca da companhia dele.
Minha avó ficou mais séria, embora continuasse sorrindo.
— Isso é importante, Isadora. Um homem que gosta de você precisa respeitar seu tempo. Você não tem que provar nada para ninguém, muito menos fazer alguma coisa só para manter alguém ao seu lado.
Aquelas palavras aqueceram meu coração.
— Eu sei, vó.
Ela segurou minha mão por alguns segundos.
— Quero ver você feliz, minha menina. Mas quero ver você feliz de verdade, com alguém que respeite seus sonhos e não tente tirar de você aquilo que levou tanto tempo para construir.
Abracei aquela mulher com força.
— Eu te amo, sabia?
— Sei, sim. E também sei que você vai acabar me fazendo chorar antes do almoço.
— Então não começa!
Ela me deu um tapinha carinhoso no braço.
— Agora vai lavar essas louças, porque eu não criei uma princesa para ficar com a pia cheia!
Soltei uma gargalhada e comecei a lavar os pratos.
Foi quando ouvimos uma batida forte no portão.
Minha avó virou o rosto na direção da entrada.
— Pela batida, só pode ser sua irmã.
Suspirei.
— Se for ela, diz que eu saí.
— Ah, não! Quero ver qual é a novidade dessa vez.
— Vó, por favor!
Ela já estava caminhando para a porta quando respondeu:
— Fique tranquila. Vou descobrir o que essa criatura quer.
Eu ri e voltei a lavar as louças, tentando aproveitar aqueles poucos minutos de paz.
Não demorou para ouvir a voz de Rebeca entrando pela casa.
— Bom dia, vó!
A resposta da minha avó veio imediatamente.
— Bom dia nada! Veio fazer o quê aqui? E pare de olhar para a minha casa desse jeito. Não tem nada aqui para você levar!
Quase deixei um prato escapar da mão.
Meu Deus, aquela mulher não tinha nem tomado o café direito e já estava pronta para uma discussão.
— Vó! — reclamei da cozinha.
— Estou conversando com sua irmã, menina!
Enxuguei as mãos e apareci na entrada da cozinha.
Rebeca estava parada no meio da sala, olhando ao redor como se procurasse alguma evidência de um crime. Usava uma roupa impecável e carregava o celular na mão. Assim que me viu, seu olhar ficou ainda mais desconfiado.
— Soube que o Foguinho estava aqui — anunciou, sem qualquer rodeio. — O que ele queria?
Cruzei os braços.
— Bom dia para você também, Rebeca. E por que tanto interesse?
Ela ergueu o queixo.
— Porque eu vou ser a futura fiel daqui e tenho que saber o que ele faz.
Fiquei olhando para ela durante alguns segundos, tentando decidir se deveria rir ou sentir pena.
— Ele sabe disso?
O rosto da minha irmã ficou vermelho.
— Não interessa!
Minha avó soltou uma risada tão alta que precisei morder a parte interna da bochecha para não acompanhá-la.
— Pelo que estou sabendo, minha filha — disse ela, aproximando-se de Rebeca —, o Foguinho já tem alguém. E não é só isso: ele falou até em casamento. Também deixou bem claro que conhece suas artimanhas.
Rebeca arregalou os olhos.
— Você está mentindo! Ele não tem ninguém! Não tem!
A voz dela ficou tão alta que senti uma dor de cabeça começar a se formar.
Minha avó, por outro lado, não demonstrou a menor intenção de recuar.
— Primeiro, abaixe o tom. Você está na minha casa! Nunca aparece por aqui para saber se estou bem, se preciso de alguma coisa ou se tenho comida na geladeira. Mas basta ouvir o nome de um homem para lembrar que tem avó!
— Eu vim perguntar uma coisa!
— E eu respondi!
Rebeca apertou o celular com tanta força que seus dedos ficaram brancos.
— Mas ele vai ser meu!
A frase saiu aos gritos.
Fiquei completamente sem paciência.
— Rebeca, você não pode decidir que um homem pertence a você só porque está interessada nele. Ele tem vontade própria, sabia?
Ela se virou para mim, lançando um olhar carregado de raiva.
— Você fica quieta! Ninguém está falando com você!
— Está na minha casa também, querida. Se quer conversar, converse direito. Não precisa gritar.
— Ah, agora você é a dona de tudo, não é? A santinha que trabalha, estuda e faz todo mundo acreditar que é melhor do que os outros!
Aquelas palavras me atingiram mais do que eu gostaria de admitir.
Não era a primeira vez que Rebeca tentava diminuir minhas conquistas, mas eu continuava sem entender por que ela precisava transformar tudo em uma competição.
Eu nunca havia disputado nada com ela.
Só queria viver minha vida em paz.
— Eu nunca disse que sou melhor do que você — respondi, tentando manter a calma. — Estou estudando porque quero construir meu futuro. Se você quer alguma coisa diferente para a sua vida, também pode correr atrás. Mas não venha descontar em mim a sua frustração.
Ela abriu a boca para responder, mas foi interrompida por passos na entrada.
Um dos seguranças de Foguinho apareceu à porta, mantendo uma postura atenta. A presença dele me surpreendeu, e imediatamente compreendi que o comandante havia tomado alguma precaução depois de perceber que Rebeca estava subindo a rua.
O homem observou a sala antes de falar.
— Está tudo bem por aqui, Isadora? O chefe pediu para eu ficar de olho e avisar se acontecesse alguma coisa.
Rebeca virou-se para ele tão depressa que quase derrubou o celular.
— Por que o chefe mandou você ficar aqui?
O segurança a encarou sem demonstrar qualquer interesse em alimentar a discussão.
— Estou aqui para garantir que a patroa fique tranquila. Não quero confusão na porta dela.
— Patroa? — Rebeca repetiu, incrédula.
Ele deu de ombros.
— Foi o que eu disse.
Minha avó, que parecia ter encontrado uma nova pessoa para admirar, aproximou-se do rapaz.
— Gostei de você, menino! Quer um bolinho? Fiz ontem e ainda tem alguns na cozinha.
O segurança pareceu perder a postura séria por um instante.
— Aceito, dona.
— Então venha comigo. E não precisa ficar com essa cara fechada, não. Aqui a gente conversa e come primeiro!
Eu não sabia se ria da situação ou se agradecia por minha avó conseguir transformar até aquele momento tenso em uma cena de comédia.
Enquanto os dois seguiam para a cozinha, voltei minha atenção para Rebeca.
Ela estava furiosa.
— Você acha que ganhou alguma coisa, Isadora?
Suspirei.
— Não estou disputando nada com você.
— Fica com essa cara de inocente, mas sempre consegue o que quer!
— Eu consigo as coisas porque trabalho para isso. E, se você tivesse vindo aqui para visitar a nossa avó, eu teria recebido você normalmente. Mas veio para fazer perguntas sobre um homem e começou a gritar dentro da casa dela.
Rebeca se aproximou um pouco, baixando a voz.
— Isso não vai ficar assim.
Senti um arrepio desagradável, mas não desviei o olhar.
— O que você quer dizer com isso?
Ela apertou os lábios e respondeu:
— Eu vou acabar com você.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o segurança apareceu novamente na entrada da sala, segurando um pequeno rádio.
— Chefe, está na escuta? A situação aqui ficou complicada. A moça está ameaçando a patroa.
Meu coração acelerou.
Eu não queria que Foguinho se envolvesse em uma briga familiar por minha causa. Muito menos que aquela discussão se transformasse em algo maior.
Rebeca, por sua vez, ficou pálida ao perceber que o segurança estava falando com ele.
Alguns segundos depois, a resposta veio pelo rádio.
— O que está acontecendo aí?
O segurança explicou brevemente a situação, sem aumentar os fatos nem esconder o que havia sido dito.
Houve uma pequena pausa.
Então, a voz de Foguinho voltou, firme:
— Fique atento e não deixe ninguém intimidar a Isadora. Se ela continuar ameaçando minha mulher, me avise imediatamente. Quero resolver isso sem confusão.
O segurança confirmou que havia entendido e guardou o rádio.
Minha mulher.
Aquelas duas palavras fizeram meu coração tropeçar no peito, mesmo naquele momento.
Rebeca também havia escutado.
— Sua mulher? — repetiu, olhando diretamente para mim.
Respirei fundo.
— Rebeca, eu não quero brigar com você. Se você está chateada, podemos conversar quando estiver mais calma. Mas não vou aceitar ameaças dentro da casa da nossa avó.
Ela me encarou como se estivesse tentando encontrar alguma resposta capaz de me ferir.
Por fim, pegou a bolsa e caminhou até a porta.
— Aproveita enquanto pode.
Não respondi.
Minha avó apareceu na sala com um prato de bolinhos nas mãos, justamente quando Rebeca estava saindo.
— Já vai? Nem tomou café!
Minha irmã bateu o portão com força.
Dona Dulce olhou para mim e depois para a entrada.
— Essa menina precisa de férias. Está muito nervosa!
Apesar da tensão, não consegui segurar uma risada.
— Vó, pelo amor de Deus!
— O quê? Estou preocupada com a saúde dela!
O segurança pigarreou discretamente, tentando esconder o próprio sorriso.
Minha avó ofereceu mais um bolinho a ele, e eu aproveitei aquele instante para me afastar da porta.
Só então percebi que minhas mãos estavam tremendo.
Não era medo de Rebeca. Era tristeza.
Por mais que tentasse seguir em frente, uma parte de mim ainda desejava que minha irmã e eu pudéssemos ter uma relação normal. Que ela pudesse ficar feliz pelas minhas conquistas, assim como eu não desejava nada de ruim para ela.
Mas não podia obrigá-la a gostar de mim.
Nem permitir que a necessidade de aprovação da minha família destruísse a vida que eu estava construindo.
Meu celular vibrou em cima da mesa.
Era uma mensagem de Foguinho.
Foguinho: Está tudo bem com você, princesa?
Sorri discretamente e respondi.
Eu: Estou bem. Sua equipe chegou antes que a situação piorasse. Obrigada por se preocupar comigo.
A resposta veio pouco depois.
Foguinho: Não precisa agradecer. Só quero que saiba que pode contar comigo. Mas não quero que você tenha problemas por minha causa. Se precisar conversar, estou aqui.
Li a mensagem duas vezes.
Eu sabia que ainda estávamos no começo de alguma coisa que poderia se tornar bonita, complicada ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo.
Não queria depender de Foguinho para resolver meus problemas, mas gostava de saber que ele estava disposto a me apoiar sem tomar as decisões por mim.
Era uma diferença importante.
Guardei o celular e olhei para minha avó, que agora conversava animadamente com o segurança sobre a melhor receita de bolo de fubá.
Sorri.
Aquela era a minha família, com todas as imperfeições, provocações e contradições.
Eu continuaria estudando, trabalhando e construindo meu futuro. Não permitiria que uma discussão me afastasse dos meus objetivos, muito menos que uma rivalidade inventada decidisse com quem eu poderia me relacionar.
Se Foguinho quisesse fazer parte da minha vida, precisaria caminhar ao meu lado, respeitando minhas escolhas.
E, se Rebeca estivesse disposta a transformar tudo em uma disputa, teria de aprender que eu não precisava vencê-la para ser feliz.
Eu só precisava continuar sendo eu mesma.
Continua...
