Capítulo 14 14
Luís Renato
— Bom dia, senhor Luís! — Cassandra disse entrando em minha sala.
— Bom dia, Cassandra! — A Olhei. — Aconteceu algo? Parece estar correndo para uma maratona. — Ela respirou profundamente.
— Quase isso, Senhor Luís. Coloquei os relatórios que me pediu ontem em sua mesa. A sua programação para hoje já está disponível na tela do seu computador e aqui está o seu café. — Ela falou tudo tão rápido, que parecia ter apressa para alguma coisa.
— Vai a algum lugar? — perguntei quando a vi se virar e ir em direção à porta.
— Sim, hoje tenho que acompanhar o senhor Marcos nas visitas de alguns provedores, esqueceu? — Sua indagação soou insolente. Fechei os meus olhos e puxei a respiração.
— Nossa, é mesmo! Como pude me esquecer? — Passei uma mão na nuca, apreensivo. — Então, eu ficarei sozinho o dia inteiro? — questionei com uma certa irritação.
— Penso que sim. O que resolveu sobre as entrevistadas que fez? — rebateu profissionalmente. — Me diga que escolheu alguém?
— Na verdade, não. Confesso que esqueci. — Olhei para a tela do meu computador e porra! — E hoje isso aqui ficará uma loucura sem você — reclamei.
— Sinto muito, senhor Luís, mas vai ter que resolver isso quanto antes — sibilou. — Não posso ser a sua secretária e a do senhor Marcos em simultâneo! — Voltou a rebater. Sabe o que é pior? É que ela tem toda razão. Apesar do seu profissionalismo e eficiência, não é justo dividi-la em duas.
— Tudo bem, Cassandra. Pelo que vejo tenho duas reuniões essa manhã, um almoço com o advogado da empresa. — Comecei a citar minha agenda e ela assentiu. — Posso ver isso à tarde. Prometo que resolvo isso ainda hoje.
— Certo, conto com isso, senhor Luís. As coisas estão ficando complicadas para mim.
— Eu entendo. Até mais tarde, então! Pegarei os relatórios e vou direto para a primeira reunião do dia. Obrigado por tudo, Cassandra! Acompanhei Cassandra até a porta e voltei para minha mesa, acomodei-me na cadeira e dei uma olhada rápida nos relatórios, enquanto degustava o meu café quente, para depois ir à sala de reuniões.
Duas reuniões e um almoço seguido era muito cansativo, mas ótimo para me manter ocupado e longe do meu passado desastroso, por isso preferia chegar cedo na empresa. Fui o primeiro a chegar e o último a sair como sempre, desde quando tudo aconteceu. Assim não tenho tempo para pensar em coisas que não valem a pena, que me trazem dores que não quero sentir. Quando voltei para o meu escritório já era uma duas da tarde e fiquei preso na sala, sobrecarregado entre ler e enviar e-mails, assinar relatórios, ler os contratos, e ainda tinha que atender e fazer ligações.
Isso é exaustivo para caralho!
— Merda, isso está um caos! — xinguei irritado quando o telefone voltou a tocar no meio de mais uma leitura de relatórios.
Respirei fundo.
Preciso resolver a questão da minha secretária logo, ou enlouquecerei aqui. Parei tudo que tinha para fazer e peguei alguns currículos das entrevistas dentro da minha gaveta. Li atentamente um por um, mas foi o último currículo que me chamou a atenção.
CURRÍCULO VITAI
NOME: Ana Júlia Falcão.
IDADE: 20 anos.
ESCOLARIDADE: Segundo período de medicina e curso completo de inglês.
EXPERIÊNCIA: Sem experiências.
OBSERVAÇÃO: Aberta a novas experiências.
— Interessante — disse baixinho. — Jovem, boa aparência, inexperiente, essa parte me preocupa. Tive que demitir algumas mulheres com bastante experiência no cargo. Será que ela conseguiria dar conta? Olho a foto no topo do currículo e me deixo levar. Ela é bonita! Uma morena e tanto! Olhos castanhos e meigos, cabelos negros, lábios cheios. Simplesmente linda!
Bufei, esfregando as mãos no rosto.
No que você está pensando, Luís Renato? Essa garota não serve pra você, cara. Ela não é igual às mulheres que você costuma levar para a cama nesses últimos anos!
Fui interrompido por algumas batidas na porta do meu escritório, então ergui a cabeça e olhei na mesma direção.
— Pode entrar — ordenei.
— Boa tarde, senhor Luís! Vim avisar que amanhã não poderei lhe ajudar com a agenda — Cassandra informou, entrando na minha sala. — O senhor Marcos recebeu um telefonema e soube que houve alguns problemas na construção do hotel em Londres. Nós viajaremos essa noite. Ele quer resolver tudo quanto antes.
— Algo grave? — indaguei preocupado.
— Não sei lhe informar, senhor. Mas ele deve vir conversar com o senhor antes de terminar o expediente.
— Certo. Cassandra, um último favor, eu prometo — estendi-lhe o currículo de Ana Júlia Falcão. — Ligue para a senhorita Ana Júlia e informe que a quero aqui amanhã, às oito em ponto. Deixe bem claro que não tolero atrasos.
Minha voz tem um tom ríspido, porém calmo.
— Claro, senhor Luís. Mais alguma coisa? — perguntou com um sorriso satisfeito.
— Sim. Veja alguém para treiná-la por uma semana. Quero que ela faça as coisas como eu gosto.
— Certo. — Cassandra olhou-me com hesitação.
— O que foi?
— E se o senhor a deixasse ter uma experiência de pelo menos um mês? — sugeriu. — Sabe? Para ver se dá certo. Quatro demissões em apenas quinze dias são demais até mesmo para o Senhor.
— Não sou exigente, Cassandra. Só acredito que ser pontual e atencioso com o trabalho não é pedir demais — retruquei.
— Certo, você tem razão. Mas, que tal ser só um pouquinho tolerável?
Ela fez um gesto com os dedos indicador e polegar, para enfatizar o pouquinho.
— Um pouquinho tolerável? — perguntei. — Ok, eu vou tentar.
Ela sorriu.
— Mas não prometo nada — completei.
Assentiu com um sorriso satisfeito e saiu da minha sala, então eu voltei aos meus documentos.
