Capítulo 15 15
Luís Renato
Já são seis horas quando Marcos passou em minha sala e explicou os novos problemas na construção do novo hotel em Londres, depois saiu apressado, a fim de arrumar as suas malas para ir ao aeroporto quanto antes. Saí do meu escritório às nove da noite, quando já não tinha mais ninguém no prédio além dos seguranças. Entrei no elevador e fui direto para a garagem como de costume. Destravei o meu carro, um Porshe amarelo.
Era hora de ir para casa... ou seja, para o meu inferno particular.
Chegar em casa e olhar tudo aquilo deixava-me deprimido. Eu deveria ter ficado no escritório mesmo, ou ido a algum barzinho, ou talvez ido dormir em um flat. Suspirei, deixando os meus olhos percorrerem todo o ambiente. Olhar todas aquelas obras de arte espalhadas pela casa, os móveis de designs modernos, as cortinas de linho branco nas janelas, os tapetes. Tudo decorado por ela, cada pedacinho desse lugar.
Algumas vezes, tive vontade de destruir tudo com as minhas próprias mãos, de deixar o ódio das lembranças dominar-me, sair quebrando tudo e só parar quando não restasse mais nada. Mas demolir a casa e construir outra no lugar não vai apagar o que está aqui dentro do meu peito. Sou um fodido mesmo, quebrado. Ela me destruiu, para eu rejeitar qualquer mulher que quisesse entrar em minha vida.
Respirei fundo e subi as escadas. Fui para o meu quarto, entrei no banheiro e tomei um banho frio e demorado. A frieza da água ajudou a abrandar a minha dor. Fiquei ali durante horas e só saí quando notei as pontas dos dedos ficarem roxas e o corpo tremular incontrolavelmente. Sequei-me com uma toalha grande e felpuda, vesti uma roupa leve e me deitei na minha cama. Tentei dormir, mas o sono não vinha.
Ele nunca vem.
Nada além das lembranças felizes de uma vida que um dia pensei ter, mas que não passava de pura ilusão.
Levantei impaciente da cama, desci as escadas com passos largos e fui para o bar no canto da sala. Esse virou o meu o companheiro em momentos de dor e solidão como esse. Servi-me de uma dose generosa de uísque puro e sem gelo e bebi tudo em um só gole. A bebida desceu queimando, e só assim eu senti a minha mente relaxar. Servi mais uma dose generosa e me sentei no sofá em forma de L, que fica de frente para as escadas de onde eu costumava assisti-la descer em seus vestidos exuberantes e sensuais.
Meu celular tocou em cima da mesinha de centro e só então percebi que adormeci aqui mesmo no sofá. Sentei-me no sofá acolchoado e macio e esfreguei os meus olhos antes de atendê-lo. São duas da madrugada e Karolina Viena está me ligando, por quê? Atendi à chamada um tanto irritado e escutei um barulho infernal de música alta e de muitas vozes falando ao mesmo tempo do outro lado da linha.
— Fala, Karol — disse sem vontade alguma de iniciar uma conversa com ela.
— Oi, Luís! — Ela gritou por conta da música alta.
— Karol, você sabe que horas são? — resmunguei. — São quase duas e meia da manhã! Mas que droga, Karol! Eu trabalho, sabia?!
— Deixa de ser chato, Luís! Sabe aonde eu estou? — perguntou em tom animado.
Suspirei, puto da vida.
Karol é uma grande amiga da família. Eu a tolero desde a nossa infância. Estudamos juntos durante toda a adolescência e só nos separamos no período da faculdade. Faz tempo que não nos vemos e nem nos falamos, embora trabalhemos no mesmo prédio. Ela foi uma amiga incrível depois que minha vida virou o destroço que é hoje.
— Não, eu não sei e não sei se quero saber também! — rosnei.
— Estou na boate Kiss, aqui no centro.
— Karol, eu sei onde fica a boate Kiss — falei ainda ríspido, interrompendo-a — E não, não estou interessado em saber onde você está, então fala logo o que quer!
— Argh! Você é um chato mesmo! Sabe quem está aqui? — resmungou chateada, mas logo mudou seu humor.
Haja paciência!
— Não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe! Boa noite, Karol, a gente se fala! — Encerrei a chamada sem esperar a sua resposta e resolvi ir para o meu quarto. Deite-me em uma cama espaçosa, adormecendo alguns minutos depois.
Mas a noite inteira sonhei com ela, com o seu sorriso, com o seu toque. Nós dois fazendo amor em nosso quarto. Com os seus beijos quentes e molhados. Foram sonhos conturbados, uma mistura de nós dois em momentos íntimos, com ela me apunhalado pelas costas.
