Capítulo 2
Três guardas sem camisa estavam reunidos em volta de uma mesa de cartas improvisada com caixas de munição, batendo várias cartas de baralho e moedas enferrujadas sobre a superfície.
As luzes de freio vermelho-vivo da picape se acenderam quando ela guinchou e parou diante do posto de controle de segurança do centro.
O posto amplo estava tão vazio quanto um cemitério.
O posto de controle, que originalmente exigia duas pessoas em equipe para se cobrirem mutuamente, agora tinha apenas um rapaz chamado Jamie.
Ele apoiava o fuzil de assalto com desleixo num saco de areia, largado numa cadeira dobrável como um boneco de pano, e roía as unhas.
Quanto ao parceiro dele, fazia tempo que tinha sumido e agora estava escondido em algum lugar.
O ronco do motor, enfim, fez Jamie se levantar, impaciente.
Ele enfiou as botas táticas, nem se deu ao trabalho de pegar a arma e cambaleou até a traseira da picape, puxando com brutalidade e escancarando a portinhola metálica da caçamba.
Uma onda de calor escaldante, carregando um fedor forte e azedo, nos atingiu.
Jamie cobriu o nariz por instinto, prestes a despejar uma enxurrada de palavrões, quando o olhar dele congelou de repente num canto.
Martha se encolhia nas sombras como uma fêmea protegendo seus filhotes, abraçando com força a filha, enrolada num cobertor grosso.
O rosto pálido da menina tinha um tom acinzentado antinatural, e sua respiração rápida e fraca se amplificava infinitamente no espaço apertado da caçamba.
— Alto!
Jamie recuou como se tivesse levado um choque e, em seguida, se virou de supetão e arrancou o fuzil de cima do saco de areia. O estalo metálico de puxar o ferrolho foi nítido e mortal.
O cano escuro apontou direto para a cabeça de Martha.
— Mordida por zumbi?! Vocês todos, desçam já daqui!
Isso! É isso!
Minha alma rugiu, selvagem, no ar, uma excitação sanguinária há muito esquecida atravessando meu corpo. Atira! Ou toca o alarme! Se ele puxar o gatilho, esta cidade ainda pode ser salva!
— Senhor! Não atire! Por favor, não atire!
A porta da cabine do motorista foi escancarada a chutes, e Tom saltou para fora como um cachorro de rua com a coluna quebrada, desabando de joelhos no cascalho com um baque.
Ele ergueu as mãos bem alto, tremendo como folhas secas ao vento, e foi raspando os joelhos, desesperado, para a frente no chão pedregoso.
— Não tem mordida! De verdade, não tem mordida! A criança só pegou febre por causa do vento lá fora, no ermo!
Tom implorava, sem conseguir nem articular direito, enquanto levantava o casaco sujo, manchado de óleo, e tirava algo do bolso.
Uma garrafa de uísque.
Uma garrafa inteira, perfeitamente lacrada. Neste mundo em que até água limpa é questão de vida ou morte, aquilo valia dez vezes mais do que ouro.
O rugido de Jamie cessou de repente.
Aquelas pupilas, antes saltadas de medo, agora pareciam coladas na garrafa; o brilho ganancioso engoliu a razão num instante.
O cano encostado na cabeça de Martha baixou sem que ela percebesse.
Tom percebeu com precisão essa mínima distração e, na mesma hora, se arrastou para a frente, enfiando a valiosa garrafa de uísque nas mãos trêmulas de Jamie.
— Senhor, por favor, me faça esse favor. O senhor sabe... quando a gente entra na sala de quarentena, descontam metade das rações, e a criança vai morrer de fome.
O pomo de Adão de Jamie subiu e desceu com força enquanto ele apertava a garrafa, olhava rápido ao redor e então a enfiava no bolso largo da calça tática.
Ele fingiu se inclinar para dentro da caçamba e tocou a testa em brasa da menina com os dedos ásperos.
Até eu, uma alma privada de tato, dava para perceber pelo tremor imediato nos olhos de Jamie que a temperatura era apavorantemente alta.
Mas ele apenas limpou as mãos, como se nada tivesse acontecido.
— Cof, é só um resfriado mesmo. Tenham mais cuidado da próxima vez; andem logo e entrem, não fiquem bloqueando a passagem.
Ele acenou com a mão, virou-se e foi até o painel de controle, apertando o botão verde para abrir o portão.
Que se dane o seu resfriado! Isso aí é o período de incubação da transformação em zumbi!
Não houve quarentena obrigatória, nem isolamento de sete dias, e até uma revista básica de corpo inteiro foi omitida!
Os procedimentos de segurança que eu construí com tanto esforço foram completamente comprometidos por uma garrafa de álcool barato.
No instante em que o portão se abriu, Tom afundou o pé no acelerador.
Ao som do rugido desesperado do motor, minha alma foi pregada no teto do carro e arrastada para o coração desavisado de Morningstar Town.
As rodas derraparam enlouquecidas pelos becos lamacentos das favelas do West End, até por fim baterem com força na varanda da própria casa de madeira.
Tom saltou do carro e, como se arrastasse um cadáver, empurrou a esposa e a filha desacordada para dentro do quarto escuro.
O cadeado enferrujado estalou ao se fechar, o tinido metálico e seco soando como uma contagem regressiva para a morte.
Depois de fazer tudo isso, Tom se encostou na porta de madeira, ofegando pesadamente, a roupa inteira ensopada de suor frio.
Mas ele não se atreveu a parar.
Se não entregasse a lista de busca de hoje ao depósito de suprimentos, a patrulha logo descobriria que ele desertou e voltou mais cedo, e então os homens de Kares com certeza viriam revistar a casa dele.
Essa vontade quase frenética de sobreviver o levou, tropeçando e cambaleando, em direção ao depósito de suprimentos no centro da cidade.
Minha alma o seguiu de perto, atravessando as ruas movimentadas, até aquele pesado portão de ferro.
O ar do depósito estava impregnado do cheiro de trigo velho e conservantes.
Atrás do balcão estava Jack, o gerente do depósito.
A cicatriz horrenda no ombro desse veterano, que atravessava as costas inteiras, foi deixada três anos atrás, quando eu o carreguei para fora de um monte de cadáveres.
Ele era os “olhos” em quem eu mais confiava em vida — e o executor mais firme e mão de ferro das regras que regiam a administração dos materiais.
“A lista está errada.”
Jack largou o livro-caixa e encarou o rosto pálido de Tom com olhos de falcão.
“O número foi reduzido pela metade. Você encontrou uma horda de zumbis?”
Tom estremeceu com violência, as pupilas contraindo sem controle.
“Sim... sim! Eu encontrei alguns zumbis errantes e tive que largar minhas coisas pra conseguir, por pouco, voltar correndo.”
Ele está mentindo.
Jack semicerrrou os olhos; seus dedos ásperos deslizaram devagar na direção da coronha da arma na cintura.
A intuição do veterano, temperada na beira entre a vida e a morte, permitiu que ele percebesse uma atmosfera extremamente perigosa.
Bastava Jack sacar a arma e investigar a fundo para que essa catástrofe fosse cortada pela raiz!
Mas o dedo de Jack hesitou na coronha por três segundos antes de enfim recuar.
Ele olhou para o estado lastimável, miserável de Tom, e um lampejo de simpatia cansada atravessou seus olhos.
“Os tempos estão difíceis, mas gente honesta ainda precisa sobreviver.”
Jack pegou o carimbo e o cravou com força na lista incompleta.
“Eu entendo juntar umas latas de comida. Mas da próxima vez, não seja tão óbvio.”
Ele deu um tapinha no ombro de Tom e empurrou a lista de volta.
Tom sentiu como se tivesse recebido um perdão. Agarrou o comprovante e saiu tropeçando do depósito.
O depósito voltou a ficar em silêncio.
Jack pegou a caneta outra vez, achando que acabara de mostrar misericórdia e deixar escapar um pai pobre que tinha escondido feijões para dar mais comida à filha.
Eu fiquei diante de Jack, olhando para o irmão que eu tinha arriscado a vida para salvar, e soltei uma risada muda e amarga.
Ele não sabia que não tinha deixado passar apenas alguns potes de feijão.
Era uma bomba de carne e osso — com o pavio já puxado e a contagem regressiva iniciada.
