Capítulo 3
Ao cair da noite, nuvens escuras se avolumaram sobre a cidade, e o trovão rugiu.
Tom, no fim das contas, não teve coragem de deixar a “bomba” em casa.
O medo sufocante o levou a empurrar a porta dos fundos da clínica sob o manto da noite.
Ele arremessou a filha, enrolada com força, sobre a mesa de cirurgia gelada.
O doutor Henry franziu a testa e arrancou o cobertor de cheiro azedo.
O cirurgião-chefe, a quem eu havia promovido pessoalmente, bateu a lanterna com força no piso de ladrilhos no instante em que o olhar dele caiu sobre o tornozelo enegrecido da menina.
— Marca de mordida de zumbi! Você enlouqueceu, porra?!
Henry cambaleou três passos para trás, como se tivesse levado um choque, e então se virou e socou o alarme vermelho na parede.
— Não aperta! Por favor, por favor, não aperta!
Tom se atirou sobre ele como uma fera desesperada.
Agarrou-se com força à perna de Henry, e lágrimas e ranho se espalharam pelo jaleco branco impecável do médico.
Assim que o alarme tocasse, a equipe de quarentena conseguiria isolar o quarteirão inteiro em três minutos.
Mas o dedo de Henry parou de repente, a três centímetros do botão vermelho.
— Ela só arranhou numa galha... Henry, ela só tem sete anos!
Tom bateu a cabeça no chão de mármore com um baque alto, e o sangue jorrou sem parar.
— Corta! Ela vai sobreviver se você cortar a perna dela! Você não é o melhor médico?!
Os princípios de Henry foram desmoronando, pouco a pouco, em meio aos uivos de Tom.
Tremendo, ele soltou o alarme, virou-se e foi até o esterilizador, puxando a serra pesada de ossos.
— Só dessa vez. Segura ela bem e não deixa ela fazer um som.
A perna apodrecida foi jogada no incinerador.
Henry enxugou o suor frio da testa e forçou um sorriso fraco para Tom:
— A febre deve baixar e ela vai ficar bem.
Tom sentiu como se tivesse recebido um perdão. Abraçou com força o corpo sem vida e se enfiou no dilúvio do lado de fora.
De madrugada, a menina com a perna amputada estava agarrada ao pescoço da mãe, Martha, mordendo-a como um cachorro selvagem!
A garganta de Martha foi arrancada, e ela nem conseguiu gritar; só se ouviu o gorgolejo desesperado do ar escapando pela traqueia.
O sangue espirrou em Tom, e ele rolou para fora da cama.
Ele nem teve coragem de olhar para a esposa. Escancarou a porta de madeira com mãos e pés e disparou para a rua enlameada.
— Socorro! Me ajuda—
O vendaval e a tempestade agiram como uma muralha impenetrável, engolindo seus gritos na poça d’água.
Um medo infinito o açoitou, fazendo-o correr desvairado por mais de quinhentos metros por aquela rua deserta.
Por fim, uma porta de madeira, brilhando com uma luz alaranjada, se abriu.
O vizinho Luke espiou para fora, esfregando os olhos, ainda com sono.
—Tom? O que deu em você no meio da noite...?
Antes que ele conseguisse terminar de falar, uma sombra negra e retorcida saltou da chuva atrás de Tom!
Era Martha, que já tinha se transformado em zumbi. Com um urro nauseante, ela derrubou Luke, jogando-o direto na água barrenta.
—Não...!
Beth, a esposa de Luke, soltou um grito de partir o coração.
Em vez de ajudar o marido, ela de repente deu um passo para trás e bateu as mãos na porta, trancando-a com um alto “clique”.
Do lado de fora, a mandíbula de Luke foi arrancada por Martha, e o sangue dele se misturou à água da chuva, formando um rio vermelho.
Eu flutuava no ar, observando aquela rua antes pacífica do Distrito Oeste ser completamente tomada em apenas vinte minutos.
A pessoa mordida se punha de pé com uma velocidade espantosa, rugindo ao se atirar sobre a próxima alma azarada que abria a porta para ver o que estava acontecendo.
Uma dúzia de zumbis desencadeou uma carnificina na noite chuvosa.
Felizmente, a maioria das pessoas nas favelas está acostumada a manter portas e janelas fechadas, então a infecção não engoliu a cidade inteira como uma praga.
Se a minha lei de patrulha ainda estivesse em vigor, os três sentinelas na esquina teriam aberto fogo cinco minutos atrás!
Mas agora, só quando os zumbis começaram a socar a porta freneticamente é que os tiros estridentes finalmente rasgaram o céu noturno.
—Bang! Bang! Bang!
Línguas densas de fogo cuspiram através da chuva, e balas de grosso calibre arrebentaram com precisão os crânios dos zumbis.
O líder da patrulha, Rolf, à frente de um pelotão de soldados totalmente armados, avançou sem expressão, pisando por cima dos membros espalhados e do sangue negro.
O prefeito recém-nomeado, Carles, também chegou ao local.
Ele chutou um cadáver sem cabeça que ainda se contorcia e, em seguida, se virou e berrou, histérico, para Rolf:
—É isso que você chama de boa segurança pública?! Uma dúzia de zumbis fazendo festa na cidade! Que porra você está fazendo?!
Rolf limpou friamente o sangue do rosto, encarando Carles como se encarasse um homem morto.
—Prefeito, o senhor vai ter que perguntar àqueles inspetores de segurança que “aproveitam a liberdade”.
Ele inclinou levemente a cabeça, e dois soldados imediatamente arrastaram o Tom, flácido, para fora e o arremessaram com força na poça.
Carles agarrou Tom pelo cabelo, puxou a arma do coldre e a pressionou com firmeza contra a testa dele.
—Fala! Quem colocou essa coisa aqui?!
Tom tremia como um fole furado, mas não hesitou nem por um segundo.
—Foi o Henry! O doutor Henry da clínica!
Tom gritou, cravando as unhas em sulcos fundos e sangrentos na lama. —Ele pegou o meu dinheiro e ajudou minha filha com o disfarce! Ele fez tudo!
