Capítulo Dois: Missão Suicida

Ivy

Os Thorns eram o poder encarnado: intocáveis, implacáveis, temidos por qualquer um com meio cérebro. Eles eram donos de tudo: território, política, juramentos de sangue. Enfrentar aquela família não era só imprudente; era suicídio.

Eu não sabia muito sobre os irmãos que mandavam agora, mas sabia o suficiente. Os nomes deles não eram pronunciados à toa, a menos que você estivesse pronto pra morrer.

E claro, era justamente pra lá que eu estava sendo enviada.

Não porque eu fosse a melhor opção.

Não porque eu tivesse o treinamento.

Mas porque o Alfa Brian queria se livrar de mim.

Aquilo não era uma missão. Era execução disfarçada.

Mil protestos arranhavam a minha garganta, mas eu engoli todos. Cada lágrima queimando atrás dos meus olhos, eu forcei de volta. Brian queria me ver quebrar, desmoronar sob o peso da crueldade dele. Eu me recusei a dar esse gosto pra ele.

Quanto eles precisavam me odiar pra me jogar pros lobos que eram os Thorns?

“Você tem dois dias pra colocar sua vida em ordem”, Brian disse, sem nenhuma emoção, como se estivesse falando de logística, e não da minha morte. “Apresente-se na sede da ACSC. Lá você vai receber mais instruções.”

“Sim, Alfa”, eu respondi, a voz firme enquanto tudo dentro de mim gritava.

Ele não piscou. Não se mexeu. Só olhou através de mim como se eu já fosse um fantasma.

“Não envergonhe a minha alcateia, Ivy Mooncrest. Se falhar nesta missão, sua linhagem será apagada.”

Lá estava de novo. O lembrete de que, aos olhos dele, eu não passava de uma mancha. O meu fracasso não condenaria só a mim, apagaria a minha família. A minha mãe. O meu irmão. Sumidos, como se a gente nunca tivesse existido.

Eu me virei pra ir embora, a armadura da minha compostura começando a rachar nas bordas. Mas antes que eu alcançasse o corredor, a porta se abriu. Emily.

O perfume veio primeiro, caro e sufocante, depois a voz dela, afiada de tanto direito achado.

“Que história é essa de você mandar a Ivy pra ACSC, Brian? Eu pensei que essa missão seria minha.”

Eu congelei logo do lado de fora. A porta estava entreaberta o suficiente pra deixar passar cada palavra venenosa. Eu não deveria ter escutado, mas escutei.

“Baixa o tom, Emily”, Brian rosnou. “E me trate com respeito.”

Eu quase ri. Respeito. Todo mundo na alcateia sabia que ela chamava ele do que quisesse quando estavam a sós. Ela vinha se gabando há semanas de que seria a próxima Luna. Talvez fosse. Talvez já tivesse marcado o território.

Um dia, eu achei que usaria esse título. Um dia, os braços dele foram meu refúgio. Os sussurros, promessas. A boca dele, verdade.

Mas a traição do meu pai tinha envenenado tudo. Agora eu não era parceira nem guerreira. Eu era o erro que ele queria apagar.

Talvez fosse por isso que ele me odiava tanto.

Ele não podia me matar diretamente, então encontrou outro jeito.

E ainda assim, lá no fundo, alguma parte de mim doía de saudade do garoto que ele tinha sido. Aquele que me amou. Aquele que teria me escolhido contra o mundo.

Mas ele se foi.

O que sobrou foi um homem que queria me ver enterrada.

“Essa missão devia ser minha”, Emily insistiu, a voz pingando ganância. “Isso ia me render medalhas, prestígio, a ACSC nunca mais ia esquecer o meu nome.”

A resposta de Brian veio fria, calculada. “Se essa missão rendesse medalhas, eu teria dado pra você.”

Eu prendi a respiração.

“É missão suicida.”

As palavras me rasgaram por dentro.

Ele sabia.

Ele sabia exatamente para o que estava me mandando.

Aquilo não era estratégia, era massacre.

“Como?” A voz da Emily vacilou.

“Eles querem alguém infiltrado nos Espinhos”, o Brian disse com calma, como se estivesse lendo uma lista de compras. “A Ivy vai trabalhar no clube deles. Infiltrada. Como stripper.”

Meu estômago se revirou.

Não uma espiã. Não uma agente. Um objeto. Um corpo vestido de seda e jogado para os predadores.

“Ela é inexperiente”, o Brian acrescentou, o tom carregado de desprezo. “Ela não vai durar. Nem agentes experientes saem vivos quando os Espinhos estão envolvidos.”

A Emily engasgou. Nem ela estava preparada para esse tipo de crueldade.

“E se isso levar até a gente?” ela perguntou, agora mais baixa.

O Brian deu de ombros. “Simples. O pai dela foi um traidor. Se ela quebrar sob interrogatório, a gente inventa uma história. Vamos dizer pros Espinhos que ela estava continuando a missão dele. Ela não vai ter nenhum registro na ACSC, então os Espinhos também não vão ligar ela a eles. E se os Espinhos quiserem sangue, a gente entrega a família dela. Corte limpo.”

Algo explodiu dentro de mim.

Eu queria arrombar a porta. Gritar. Arrancar as mentiras dele do ar e enfiar à força de volta na garganta.

Mas eu não me mexi.

Não era a hora de desmoronar.

Era a hora de decidir.

Então virei as costas, em silêncio, gelada, tremendo.

Eu ia sobreviver a isso.

Ia rastejar pra fora do inferno se fosse preciso, me arrastar por fogo e ruínas. Mas não ia deixar o Brian ter razão. Não ia deixar ele vencer.

Não dessa vez.

Quando cheguei em casa, a casa parecia menor, como se as paredes soubessem o que estava por vir. Minha mãe ergueu os olhos no segundo em que entrei, as mãos parando em cima da costura no colo.

“Ivy”, ela disse baixinho. “O que aconteceu?”

Tentei sorrir. O sorriso tremeu e se despedaçou. “O Brian me deu uma missão.”

A testa dela se franziu. “Que tipo de missão?”

“Do tipo que faz você morrer.”

O rosto dela perdeu toda a cor. “O que ele fez agora?”

“ACSC. Infiltrada no The Obsidian.”

A respiração dela falhou. “Os Espinhos?”

Eu assenti.

Ela se levantou tropeçando, uma mão agarrada na beirada da mesa. “Você não pode ir. Você não vai sair viva de lá.”

“Se eu não for”, eu disse baixinho, “ele vai exilar você e o Jamie.”

A mão dela voou para a boca. “Ele não pode…”

“Pode”, cortei. “E vai.”

Ficamos em silêncio, o ar pesado entre nós.

“Em cima de quem você vai espionar?” ela sussurrou.

“Os Espinhos”, eu disse. Só o nome fez os joelhos dela dobrarem. “Ele me disse que, se eu falhar, vai entregar você pra eles. Palavra por palavra.”

Os olhos dela se encheram de lágrimas. Por um instante, pareceu que ela ia quebrar de vez. Mas então algo endureceu dentro dela.

“Vai”, ela disse. A voz tremia, mas a postura não. “Faça o que tiver que fazer. E se você falhar… vai morrer com honra. A gente sobrevive de algum jeito.”

A força dela me ancorou, mesmo enquanto me despedaçava.

Mas eu não estava pronta pra morrer. Não assim.

O Brian achava que estava me mandando pro abate. Achava que já tinha me enterrado.

Ótimo. Deixa ele achar isso.

Eu ia entrar no covil dos lobos de olhos abertos.

Ia fazer meu papel, ler o ambiente e, quando chegasse a hora,

ia virar a armadilha contra quem armou.

Aquilo não era mais sobre redenção.

Era sobrevivência.

E eu tinha terminado de sangrar pelas regras dele.

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