Capítulo Três: O adeus
Ivy
No dia em que eu ia partir, o Alfa Brian apareceu na porta do meu quarto.
Eu não perguntei por quê. Depois de tudo que eu tinha escutado escondida, de cada palavra venenosa que ele cuspiu na minha cara, não sobrara espaço pra ilusões. Ele não estava ali pra me desejar boa viagem.
Ele se encostou no batente, fingindo despreocupação, mas não havia nada de casual nele. A presença dele enchia o quarto como fumaça, densa, sufocante, impossível de escapar.
— Vejo que você está pronta — ele disse, o olhar percorrendo as roupas dobradas e a bolsa com as alças fechadas na beirada da minha cama.
Eu dei um único aceno de cabeça. O silêncio era o único escudo que me restava.
Então ele se aproximou. O perfume dele me atingiu primeiro, forte, marcante, dolorosamente familiar. O mesmo cheiro que ele usava quando me beijou debaixo das estrelas e sussurrou “pra sempre”. Na época em que amor queria dizer alguma coisa.
Sem aviso, a mão dele subiu, os dedos roçando na minha bochecha num carinho que revirou o meu estômago.
— Se você conseguir… — a voz dele ficou mais suave, quase terna — eu posso considerar te aceitar de volta. Te fazer minha Luna.
A audácia tirou o meu ar.
Eu olhei direto nos olhos dele e sorri, fria, calculada.
— Nós dois sabemos que isso não vai acontecer, Alfa.
Afastei a mão dele. Cada milímetro de pele que ele tocara parecia contaminado.
— Você está me mandando pra morte — eu disse. — Não vamos enfeitar isso com fantasia. Eu ouvi o que você disse pra Emily. Cada palavra.
A sobrancelha dele tremeu, uma rachadura na máscara.
— Espionar não combina com você, Ivy.
Eu não respondi. O silêncio cortava mais fundo do que qualquer resposta.
Ele chegou ainda mais perto, a sombra dele engolindo a minha.
— Eu teria me ligado a você — ele disse baixinho. — Eu te amei. Mas fui cego demais pra enxergar a podridão na sua linhagem.
Mesmo assim, eu não disse nada.
Eu não ia sangrar pelo pecado do meu pai, nem pelo orgulho do homem à minha frente.
A voz dele engrossou, com um lampejo de algo quase humano por trás do aço.
— Seu pai mandou o meu pro túmulo antes da hora. Me deixou juntando os pedaços. Você acha que uma traição dessas não deixa marca? Não me culpe por guardar rancor… nem contra a mulher que eu um dia amei. Ainda amo, —
Ele não conseguiu terminar.
Então a mão dele agarrou meu maxilar, mais forte dessa vez. A ternura sumiu, substituída por posse.
— É bom você sobreviver lá fora, Ivy — ele sussurrou. — Eu não vou te perdoar se você morrer.
Talvez houvesse arrependimento nos olhos dele. Ou talvez fosse só mais uma atuação.
E então ele se inclinou.
Ele tentou me beijar.
Eu me afastei num tranco, mas ele acompanhou, perto demais, confiante demais, até que o instinto assumiu o controle.
Eu mordi. Com força.
O gosto de sangue inundou minha boca antes que ele recuasse, cambaleando, a mão na boca, os olhos em chamas.
— Você não tem o direito de me dar um beijo de despedida — eu disse, firme. — Você já me enterrou, lembra?
O tapa veio rápido e seco. Minha cabeça virou pro lado, a bochecha ardendo, mas eu não pisquei. Não dei o prazer pra ele.
— Cadela! — Brian rugiu.
Eu encarei ele com olhos mortos. Ele não podia mais me machucar, não onde importava.
Então a raiva dele se retorceu em algo mais escuro. Ele avançou, desespero e fúria se chocando.
— Qual o problema? — A voz dele pingava veneno. — Você vai fazer muito isso lá pra onde está indo. Um pouco de treino não vai te matar.
Eu sabia o que ele queria: me quebrar por completo. Me tomar pela última vez pra poder fingir que ainda tinha poder.
Mas eu não era dele pra destruir.
A loba debaixo da minha pele avançou, um rosnado baixo vibrando no meu peito. Meus olhos brilharam.
— Chega mais perto — avisei — e eu ligo pra Emily. A gente vai ver se ela continua com cara de futura Luna quando ouvir o que você acabou de tentar fazer.
Ele congelou no meio do passo. Maxilar travado, narinas infladas. Eu tinha acertado em cheio.
— Eu nem estaria com ela se não fosse por seu pai — cuspiu.
— Não me importa — respondi, seca. — Eu não sou sua desculpa. Só quero ir embora.
Os lábios dele se contorceram num sorriso amargo.
— Você vai ver. Um dia, você vai perceber que eu fui a melhor coisa que já te aconteceu. Lá fora, vão te mastigar e cuspir, e eu vou estar olhando quando isso acontecer.
Ele se virou e saiu, pisando pesado. A porta se fechou com um clique, como tampa de caixão.
As palavras dele não me atravessaram.
Elas me incendiaram.
Qualquer parte de mim que ainda amasse ele morreu ali.
Limpei o sangue do meu lábio, joguei a bolsa no ombro e saí pro corredor.
Minha mãe e Jamie me esperavam na sala. No instante em que vi os dois, minha garganta fechou. Puxei os dois pros meus braços, segurando como se pudesse parar o tempo.
— Seja forte — minha mãe sussurrou, a voz trêmula, mesmo com os braços firmes.
— Vou ser — prometi.
Jamie agarrou minha mão, os olhos arregalados.
— Não vai, Ivy. Por favor.
Meu coração se partiu, mas forcei um sorriso.
— Eu volto se puder. Mas se eu não voltar… — minha voz falhou. — Você protege a mamãe, tá? Você vai ser a força dela.
As lágrimas escorriam pelo rosto dele, mas Jamie assentiu, corajoso de um jeito que nenhuma criança deveria precisar ser.
Beijei a testa dele, depois a da minha mãe, deixando o calor deles se marcar em mim.
Então virei as costas pra tudo que eu já tinha conhecido.
Na direção de Silverfang.
Na direção da ACSC.
Na direção de qualquer inferno que estivesse me esperando.
No complexo da ACSC, não houve boas-vindas, nem simpatia. A primeira coisa que fizeram foi cortar o chip de rastreamento da matilha da minha mão.
Sem cerimônia. Sem aviso. Só uma sala esterilizada, uma lâmina prateada, o zumbido das máquinas. Uma queimação aguda. Um arfado. E pronto.
No instante em que o chip saiu do meu corpo, eu estava fora da rede. Inlocalizável. Desprotegida. Descartável.
Depois veio a orientação.
Três nomes. Três alvos.
Jaxson Thorn, o mais velho. Frio, calculista, a mente que construiu o império. Se os Thorn fossem um reino, ele era o arquiteto.
Kael Thorn, o irmão do meio. O executor. O carrasco. Sussurros diziam que até Jaxson tinha medo dele. Um movimento errado perto dele e você não só sumia, você era apagado.
Malric Thorn, o caçula, perigoso de um jeito mais sutil. O marionetista do submundo. Se você queria algo proibido, ele já era o dono.
Juntos? Eles não eram homens.
Eram intocáveis.
E esperavam que eu me infiltrasse no mundo deles e vivesse o suficiente pra contar pra alguém o que tinha visto.
Não era à toa que o Brian chamou de missão suicida.
As acusações que a ACSC listou — tráfico, fraude fiscal, negócios de mercado negro — pareciam poeira perto do que me esperava naquele clube. Todo mundo tirava uma casquinha. Mas os Thorn não só roubavam, eles se alimentavam. De poder. De medo. De lobos idiotas o bastante pra entrar na toca deles.
Mesmo assim, nada disso importava.
Eu não estava ali pra questionar.
Eu estava ali pra sobreviver.
Se eu jogasse direito, talvez saísse de lá de rastros, mas com mais do que ar nos pulmões. Talvez eu saísse com vantagem.
Mas era um talvez perigoso.
Porque eu não estava entrando num clube.
Eu estava entrando numa guerra.
E só rezei pra que não fosse a última coisa que eu veria na vida.
