Capítulo Quatro: No Fogo
Ivy
Treinar com o ACSC não tinha nada a ver com o que eu tinha imaginado.
Meu instrutor, Marco, era um lobo esculpido em pedra: arestas afiadas, olhos frios, nenhuma misericórdia. Ele não desperdiçava palavras, não ligava para simpatia. Me observava como se eu fosse ao mesmo tempo um fardo e uma arma nas mãos dele.
— Você vai ter que ser mais do que convincente — ele disse no primeiro dia, a voz baixa, áspera. — O Obsidian não é um clube, é um cadinho. Todo mundo lá tem olhos. Todo mundo lá quer alguma coisa. Escorregou uma vez, acabou.
A gente treinava sob luzes cegantes, num salão espelhado que refletia cada fraqueza de volta pra mim. Durante duas semanas, ele me desmontou e me reconstruiu, me ensinou a mexer o corpo, a respirar, a vender sedução sem me entregar.
— Você não é mais a Ivy Mooncrest — ele me lembrava todo dia. — Você não é ninguém. Uma renegada sem nada a perder. É assim que você sobrevive.
Algumas noites, o peso disso quase me quebrava. Fingir que eu não era nada. Fingir que meu sangue e minha dor não significavam nada. Mas a vida da minha família era o preço. Quebrar não era opção.
Uma noite, finalmente fiz a pergunta que vinha me arranhando por dentro.
— Eu vou ser obrigada a dormir com eles?
Marco ergueu os olhos das anotações. O silêncio se estendeu e, para minha surpresa, ele balançou a cabeça.
— O Obsidian não permite que os clientes durmam com as dançarinas.
O alívio veio tão forte que meus joelhos quase cederam.
— Você vai estar lá pra se apresentar — ele disse. — Pra entreter. Pra arrancar segredos de Alphas bêbados e conselheiros de língua solta. Não pra se vender. — O tom dele amaciou um pouco. — Eles negociam poder, não prazer. Use isso.
Soltei o ar num suspiro trêmulo. O medo que Brian tinha plantado com aquela única palavra, dançarina, afrouxou o aperto. Eu não estava segura, mas pelo menos não estava à venda.
— Sua tarefa é simples — Marco continuou. — Observar. Ouvir. Lembrar. Tirar fotos quando der. Todo segredo que você descobrir, todo sussurro que você pegar, você reporta só pra mim. Entendido?
— Sim — eu disse, embora meu estômago estivesse embrulhado. Simples, foi como ele chamou. Não havia nada de simples em dançar num covil de lobos.
Ao fim da segunda semana, eu conseguia me mover do jeito que ele exigia: fluida, graciosa, atraente sem cruzar a linha. Meu corpo doía, meu orgulho estava em carne viva, mas quando Marco finalmente assentiu em aprovação, algo cortante dentro de mim se firmou.
— Você está pronta — ele disse.
No dia seguinte, começaram a transformação.
O salão brilhava como um templo, espelhos, instrumentos prateados, mãos que sabiam esculpir ilusões. Eles me deixaram nua, descoloriram meu cabelo ruivo até que a estranha no espelho já não parecia a Ivy Mooncrest. Minha pele foi esfregada, tratada, amaciada até que até minhas cicatrizes pareciam emprestadas.
Não era transformação. Era apagamento.
Aí veio a parte que eu temia.
O chip.
Um técnico de jaleco branco fez sinal para eu me sentar. A máquina ao lado dele brilhava num azul estéril.
— Vai arder — ele disse.
Cerrei os punhos. Eu sabia o que vinha, mas nada podia me preparar para as lembranças que aquilo arrancaria de dentro de mim.
A lâmina de prata cortou minha palma, o calor explodiu, e de repente eu tinha dezessete anos de novo.
Arrastada para o pátio. Minha mãe gritando. Jamie agarrado às saias dela. A alcateia reunida, faminta por sangue.
Meu pai de joelhos, mãos atadas, o pescoço exposto ao bloco.
Brian parado ali perto, com dezoito anos, mais duro, já perdido para a vingança.
O decreto do Gamma ecoou:
— Pela traição, o preço é a morte.
A lâmina desceu.
A cabeça do meu pai bateu na terra. O grito da minha mãe rasgou o céu. Jamie chorou até vomitar.
E eu? Eu fiquei imóvel. Oca. Morta por dentro antes mesmo do corpo esfriar.
Mas não acabou aí.
Guardas agarraram a gente, minha mãe, Jamie, eu. Nos arrastaram para a frente como gado. A máquina de marcação brilhava em prata.
— Esta família vai carregar a marca — declarou o Gamma. — Um lembrete da vergonha do sangue deles.
O cheiro de carne queimada. O grito da minha mãe. O berro agudo de Jamie.
Depois, eu.
Olhei direto para Brian enquanto enfiavam o chip debaixo da minha pele. O rosto dele era pedra. Os olhos, frios. Como se não lembrasse da garota a quem tinha prometido “pra sempre”.
A queimadura subiu pelo meu braço, se gravando nos meus ossos. Mordi o lábio até encher a boca de sangue, me recusando a gritar. A rejeição do nosso vínculo veio em seguida, e ele nunca olhou para trás.
Foi nesse dia que eu aprendi o que significava pertencer a alguém.
Agora, enquanto a máquina da ACSC apitava e o novo chip deslizava pro meu pulso, o sangue brotou. Minha visão embaçou.
Eu não estava livre.
Só estava trocando de dono.
O técnico pressionou um curativo na minha pele, a voz clínica:
— Esse modelo é premium. Mais que um rastreador, é uma coleira. Tentar remover, ele detona. A prata invade sua corrente sanguínea. Morte instantânea.
Minha garganta fechou. Uma arma debaixo da minha pele.
Marco estava de pé no canto, braços cruzados.
— Lembre disso, Ivy. Você pertence à ACSC agora. Traia a gente, até sussurrar sua missão pros Thorns, e você vai ser executada antes de chegar nos portões deles.
Executada. Por eles. Por Brian. Pelos Thorns. Não importava quem segurava a lâmina, o final era o mesmo.
Ele empurrou um documento na minha direção.
— Sua identidade de cobertura: Rhea Black. Renegada. Desesperada. Atrás de trabalho. Vá para o The Obsidian. Faça eles acreditarem que você é deles.
Peguei o arquivo com os dedos dormentes. Minha nova vida me encarava de volta: localização do apartamento, nome falso, histórico forjado.
Outra jaula disfarçada de liberdade.
O olhar de Marco não vacilou.
— Você entende o seu papel?
Assenti. Sem escolha. Sem voz. Só obediência.
O rosto da minha mãe piscou na minha mente. Os olhos do Jamie. Se eu não entrasse no The Obsidian, seriam eles arrastados de novo para aquele pátio.
— Eu entendo — sussurrei.
Marco não respondeu. Só saiu da frente e abriu a porta.
A mensagem era clara: o mundo que eu conhecia tinha acabado.
Apertei os papéis contra o peito, sentindo o chip pulsar no meu pulso como uma maldição.
Eu não estava livre. Eu não estava segura.
Mas eu estava viva.
E eu estava indo direto para o mundo dos irmãos Thorn.
A toca dos lobos.
O The Obsidian.
E rezei para todos os deuses para conseguir sair de lá de novo.
