Capítulo Seis: O Lobo no Escuro
Alpha Kael
Nenhum lobo entrava no meu território com traição no coração e saía vivo.
Se saía, significava que eu não tinha visto.
E isso nunca acontecia.
Mas hoje à noite, aconteceu.
Ela cruzou o meu limite e, nesse instante, virou minha.
O cheiro dela veio primeiro, musgo e névoa de rio, entrelaçados com selvageria. Não era suave nem domado; era bruto, vivo, sem corrente. Rasgou a fumaça, o perfume, o ar encharcado de suor do Obsidian e me acertou como um pulso.
Sem medo. Sem submissão.
Ela entrou na minha toca como se já fosse dona do lugar.
Esse foi o primeiro erro dela.
Espiões sempre subestimavam os irmãos Thorn. E ela era uma espiã, eu sentia isso no sangue.
Se tivesse vindo desmontar o que a gente construiu, ia sair daqui acorrentada. Ou em pedaços.
Nosso informante na ACSC tinha avisado: tinha movimento na escuridão. Alguém estava mandando uma mulher, uma distração, uma armadilha, uma arma moldada em tentação. Achavam que podiam me desfazer com seda e pele.
Não me conheciam.
Eu não era um homem que se desfazia por carne.
Eu era o lobo que a caçava.
A multidão se abriu quando fui em direção ao mezanino. Alfas, betas, executores, todos saíam do caminho por instinto. Eu não carregava coroa, mas o poder escorria de mim, denso como ferro, e eles sentiam.
Lá embaixo, o salão pulsava no ritmo do grave, lobos fingindo ser humanos, se perdendo no borrão de luzes, corpos e pecado.
Parei acima do palco.
E lá estava ela.
Se preparando para o primeiro ato.
Confiante. Inconsciente.
Já parada na boca do lobo.
Silverfang não foi construída com diplomacia. A gente não seguia o Conselho, a gente entortava ele. O legado Thorn não era charme; era medo refinado em ordem. Poder não era força bruta. Era vantagem. Segredos. Controle.
E o Obsidian?
Obsidian era o meu trono.
Todo pecado, todo segredo em Silverfang escorria pra cá, debaixo das minhas luzes.
Eles achavam que a escuridão deixava todo mundo invisível, mas no momento em que entravam na minha casa, se despiam por completo.
Tobias Thorn pode até ter feito a fundação, mas meus irmãos e eu fortificamos. A gente não herdou riqueza. A gente transformou ela em arma.
Obsidian não era uma boate.
Era uma fortaleza.
Um campo de caça.
E eu era o arquiteto das sombras.
Diziam que eu era impiedoso. Perigoso.
Não sabiam nem metade.
Eu não era só o Alpha Kael Thorn.
Eu era a presa. O executor. Aquele que transformava pesadelos em realidade.
“Casa cheia hoje”, a voz do Jaxson se arrastou atrás de mim, suave, divertida, calma demais pro caos que a gente comandava.
Meu irmão mais velho. O estrategista. Sempre contando os lucros, nunca os corpos.
“Os Alfas vieram em peso”, murmurei, escaneando o mezanino. “Metade das matilhas do sul tá aqui.”
“Conselho em sessão”, ele disse com um sorriso preguiçoso. “Precisavam de um escape. Obsidian oferece. Vinho raro, carne marcada, pecados sem testemunha. Iriam pra onde mais?”
“Você tá animado”, eu disse.
“Lucros dobraram. Nenhuma auditoria. Por uma vez, Kael, eu tô aproveitando.”
Ele bateu no meu ombro, o fantasma de um sorriso nos lábios, e sumiu de volta na multidão, já fechando outro negócio antes do gelo derreter no copo.
Talvez ele tivesse certo. Talvez eu devesse me permitir.
Mas indulgência não calava o sussurro que tinha chegado até mim mais cedo: batida da ACSC.
Não confirmada. Perigosa.
E o silêncio, esse sempre foi o aviso mais alto no nosso mundo.
Se invadissem o Obsidian, mesmo com base falsa, rachaduras iam se espalhar pelo império.
Eu não podia deixar isso acontecer.
No bar, Geena deslizou um copo baixo na minha direção, o líquido âmbar captando a luz. “A novata é a próxima”, ela disse. “Parece nervosa. Quer impressionar.”
Um sorriso lento curvou minha boca.
“Vai impressionar, sim”, murmurei. “Só não do jeito que ela espera.”
As luzes baixaram.
A música cresceu.
Obsidian ganhou vida, o grave, os murmúrios, o pulso de lobos famintos por fuga. As sombras se adensaram, o cheiro de luxúria e perigo engrossando como fumaça.
E então, ela entrou na luz.
Ela não andou. Ela chegou.
Loiro sob o brilho do palco, jovem, fluida como água. O corpo se movia como se a música tivesse tomado posse, mas havia uma rigidez por baixo. Cada movimento era limpo demais, coreografado demais.
Cada balanço de quadril gritava precisão, não prazer.
O medo dela estava enterrado fundo, escondido atrás da graça treinada.
Ela não se alimentava do ritmo.
Ela sobrevivia a ele.
E nesse instante, eu soube.
Ela não era uma das minhas.
“Precisamos conversar, Kael.”
A voz do Malric, baixa, rouca e impaciente, cortou a névoa.
Meu irmão mais novo. O farejador. Paranoico, preciso, afiado demais pra ser confortável.
“O que foi agora?” perguntei, sem tirar os olhos dela.
“Temos um problema.”
Ergui o copo, deixando o uísque descer queimando pela garganta. “Seja específico.”
— A espiã.
Meus lábios se curvaram. — Já esperava.
Malric fez uma careta. — Já esperava? Você tava sentado em cima disso?
— Eu tava observando.
— Observando? — ele sibilou.
— Eliminando opções.
Finalmente me virei pra ele, meu olhar cortando a penumbra. — Ela tá no palco agora.
A cabeça dele virou na direção dela num estalo, os olhos se estreitando. — Ela?
— Rhea Black — eu disse. — Ou pelo menos é o nome que usou no cadastro. Willows Grove Dancers.
— Willows Grove não existe — ele resmungou.
— Eu sei.
Ela era uma mentira embrulhada em seda.
O currículo dela era impecável, impecável demais. O jeito como o corpo dela se movia, a confiança, os olhares calculados, era o tipo de perfeição que só vinha de treinamento. Não de experiência. Não de instinto.
— Ela é loira de farmácia — Malric disse, o nariz se contraindo. — Vinte e poucos anos. Treinada. Mas não tá suando. Tá dançando pra se esconder, não pra se alimentar.
Exato.
— Você acha que ela é da ACSC?
— Pode ser. Ou bichinho de estimação do Worthmore. Ou da Rikshaw Syndicate, eles têm rondado por aqui ultimamente.
Ele praguejou por entre os dentes.
Virei o resto da minha bebida, o gelo tilintando como dentes num rosnado. — Seja de quem for, ela mentiu.
E no meu mundo, mentiras não eram perdoadas.
Eram reivindicadas.
Quebradas.
Devoradas.
Eu me virei de novo pro palco, pronto pra calcular o próximo passo dela, quando algo mudou.
O ar ao meu redor engrossou.
Meu lobo despertou.
Não em alerta. Não em fúria.
Em reconhecimento.
No instante em que os olhos dela se ergueram, só por um batimento, através da multidão, da fumaça e do caos, meu peito se comprimiu. Aquele mesmo cheiro selvagem que tinha me atingido quando ela cruzou a porta agora inundou meus sentidos, mais forte, mais rico, misturado com algo impossível de ignorar.
O tipo de cheiro que não pertencia a uma desconhecida.
Não pertencia a uma espiã.
Pertencia ao destino.
Companheira.
A palavra trovejou na minha mente, sacudindo as paredes que eu tinha passado anos erguendo.
Meu lobo avançou dentro de mim, em fúria, desesperado, arranhando na direção dela. Nossa. A voz não era minha, era antiga, instintiva, absoluta.
Apertei o corrimão até o aço morder minhas palmas.
Controle.
Empurrei o lobo pra baixo, respiração firme, músculos rígidos. Não era a hora. Não era o lugar.
Aceitar um vínculo de companheira aqui, agora, era suicídio.
Todo mundo no Obsidian tava olhando. Todo rival, todo aspirante a usurpador, todo Alfa que adoraria cochichar que Kael Thorn, Alfa da Silverfang, tinha amolecido por causa de uma mulher.
Reconhecer um vínculo era uma fraqueza.
Uma rachadura na armadura que eu tinha levado a vida inteira pra forjar.
Eu não ia ser governado por instinto.
Não hoje à noite.
Mas o meu lobo discordava. O rosnado dele vibrava sob a minha pele, um tremor que eu mal conseguia conter. Ele sentia o cheiro dela, o próprio cheiro entrelaçado ao dela, uma força magnética que desafiava a lógica.
Ela nem sabia.
Ou talvez soubesse. Talvez aquele tremor que eu vi sob a máscara impecável não fosse medo, fosse reconhecimento.
O jeito como ela se movia, o pequeno tropeço na respiração quando o olhar dela roçava o mezanino, já não era atuação. Era reação.
Ela sentiu também.
Nossa.
A palavra pulsou de novo, mais forte dessa vez.
Cerrei os dentes, empurrando o impulso de volta pro escuro.
Não.
Não aqui. Não agora.
Eu não podia me dar ao luxo de perder o controle.
Meu lobo rondava logo abaixo da superfície, dentes à mostra de pura frustração. O instinto dele berrava pra ir até ela, reivindicar, marcar, proteger.
Mas Kael Thorn não se curvava a instinto.
Eu tinha construído um império sobre os cadáveres de homens que se curvavam.
Então eu apenas observei. Cada giro, cada balanço, a afronta na quietude dela, o jeito como dançava como se a própria sobrevivência fosse uma forma de arte.
Ela não era presa.
Ela era outra coisa.
Algo perigoso o suficiente pra fazer o lobo dentro de mim se ajoelhar.
E isso me aterrorizava mais do que a ACSC algum dia conseguiria.
Malric acompanhou meu olhar, o maxilar travando. — Você tá encarando — ele disse, a desconfiança cortando o tom de voz.
Não olhei pra ele. — Observando.
— Tá parecendo mais do que isso.
— Ela é minha — falei baixo.
Malric enrijeceu. — Como assim, “mi—
— Não do jeito que você tá pensando — cortei, os olhos se estreitando quando ela terminou o giro final. Os aplausos explodiram como trovão, altos e vazios.
Mas eu não tava ouvindo.
Eu tava ouvindo o coração dela.
Rápido. Errático. Familiar.
Meu lobo pressionou mais forte, inquieto, faminto.
Soltei o ar devagar, esmagando o tremor que ameaçava escapar.
— Eu cuido dela — eu disse.
Malric franziu a testa. — Kael,—
— Nem uma palavra — rosnei, o fio cortante na minha voz calando ele na hora.
Me endireitei, a fachada de calma deslizando de volta pro lugar com facilidade quando as luzes se apagaram e o palco mergulhou na escuridão.
O lobo dentro de mim ainda fervia, rondando, rosnando, doendo por aquilo que ele já sabia que era dele.
Mas Kael Thorn não se quebrava por causa do destino.
Não quando o jogo tinha acabado de começar.
E naquela noite,
ela tinha acabado de se tornar minha.
