Capítulo 1

“Extração de vitalidade concluída. Hospedeiro descartado.”

A voz mecânica despedaçou minha consciência. Minha visão se apagou rápido, mas a última imagem ficou gravada a fogo na memória: Max limpando meu sangue da faca tática de combate na jaqueta de couro. Atrás dele, Chloe nem conseguiu encarar meus olhos; ainda assim, os nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar, com força mortal, a bolsa de suprimentos que por direito era minha.

No segundo seguinte, uma luz do sol ofuscante rasgou a escuridão como uma lâmina.

Arregalei os olhos e me impulsionei do sofá, arfando por ar como se tivesse me afogado. O ar-condicionado jorrava um frio cortante pela saída no teto, eriçando minha pele de arrepio.

A tela do meu celular, em cima da mesinha de centro, brilhava. A hora marcava: 12 de agosto, 14h00.

Exatamente três dias antes do apocalipse.

Antes que meu coração disparado conseguisse sequer se acalmar, uma batida frenética ecoou na minha porta.

—Ian! Abre! Você tem que ver o que eu acabei de desenterrar!

Era o Max.

Minhas pupilas se contraíram. Enterrei as unhas nas palmas até doer. Puxando um suspiro longo e trêmulo para engolir o ódio fervente, fui até lá e escancarei a porta.

Max estava no corredor, coberto de terra. Nas mãos, carregava um bloco metálico cinza-escuro, coberto de veios estranhos e intrincados. Chloe estava bem ao lado dele, franzindo o nariz, enojada, enquanto sacudia a poeira do sobretudo.

—Acabei de tirar isso do canteiro de obras do centro. É bizarro… tá morno ao toque. —Max se enfiou no hall de entrada e empurrou o artefato direto contra o meu peito. —Você estuda geologia antiga na universidade, né? O que você acha disso…

Antes que ele terminasse a frase, os veios no metal pulsaram com uma luz azul fraca e sinistra.

Na minha vida passada, foi exatamente nesse momento que eu peguei das mãos dele aquele pedaço de metal fatal.

Desta vez, dei meio passo para trás sem alarde e enfiei as mãos fundo nos bolsos do jeans. —Não faço ideia. Pra mim parece sucata industrial.

A luz azul explodiu de repente. Como um organismo vivo, o brilho rastejou pelo braço de Max.

—Ah, merda… que porra é essa?! —Max gritou. Ele sacudiu a mão com violência, tentando largar o objeto, mas o bloco metálico já estava derretendo, infiltrando-se direto nos poros da palma dele.

"Sequência de vinculação iniciada. Assinatura genética registrada. Bem-vindo ao Sistema de Evolução do Juízo Final."

A voz sintetizada e mecânica ecoou pela sala de estar.

Max ficou imóvel. Alguns segundos depois, um fanatismo selvagem e incontrolável irrompeu em seus olhos. Ele se virou num giro e arrancou uma colher pesada de aço inoxidável do balcão da cozinha americana.

Sem aparentemente fazer força alguma, ele apertou. O aço grosso cedeu como argila macia entre os dedos dele, torcendo-se sem esforço até virar um nó retorcido e deformado.

—Superpoderes... Ian, você viu isso?! Eu tenho superpoderes! — a voz de Max tremia de euforia enquanto ele enfiava a colher retorcida na minha cara, se exibindo.

A expressão de Chloe se transformou num instante, do nojo para um assombro absoluto. Ela se grudou no braço do Max imediatamente, sem nem se dar ao trabalho de me lançar um olhar sequer.

— E-eu... eu achei que tinha me escolhido — murmurei, baixando a cabeça. Forcei a voz a soar seca, espremendo a medida certa de decepção amarga. — Eu devia usar isso na minha tese.

— Ei, foi só sorte, cara. — Max deu um tapinha no meu ombro, o tom escorrendo uma superioridade condescendente recém-descoberta. — Relaxa, teu irmão vai cuidar de você a partir de agora. Vamos, Chloe. Vamos descer pro beco e ver o que mais esse sistema consegue fazer!

Bum. A porta do apartamento bateu com força.

A máscara de decepção sumiu do meu rosto num piscar de olhos, deixando só uma indiferença gelada.

Entrei no banheiro, abri a torneira no máximo e joguei água congelante no rosto. Encarando no espelho meus olhos afiados, de novo focados, soltei um longo e pesado suspiro.

Peguei o celular e abri a lista de contatos.

Max: Bloquear. Excluir.

Chloe: Bloquear. Excluir.

Quando terminei aquela rotina simples, uma onda de alívio sem precedentes atravessou meu corpo inteiro. Aquilo não era nenhum “trapaceiro nível divino”. Era um parasita voraz que se alimentava da carne e da sanidade do hospedeiro. E agora Max tinha engolido sozinho aquela bomba-relógio.

Fechei as persianas, cortando a luz de fora, e me sentei à escrivaninha. Peguei um bloco de anotações. A caneta arranhou o papel depressa enquanto eu rabiscava algumas frases-chave:

[Frio Extremo] — Em três dias, as temperaturas vão despencar num intervalo de duas horas. Os despreparados vão morrer aos montes.

[Esporos] — Em meio mês, partículas alucinógenas e indutoras de mutação vão subir de baixo do gelo, à deriva.

[Colapso da Ordem] — As comunicações oficiais vão sair do ar. A Guarda Nacional vai ficar completamente paralisada.

[Ascensão do Submundo] — Quem controlar os suprimentos e os abrigos vira o novo rei.

Quando terminei o último traço, acendi o isqueiro e queimei a página até virar cinzas.

Já que eu tinha recebido uma segunda chance, eu estava fora desse jogo bizarro de sistema parasitário. Nesse apocalipse devorador de gente, só duas coisas podiam garantir sobrevivência:

Um bunker impenetrável e armas capazes de abrir um buraco direto através de um crânio.

Ergui o olhar, os olhos presos ao monitor do computador. Na tela havia um mapa detalhado do Distrito Portuário de San Lodo. Era lá que estava a única pessoa que eu precisava desesperadamente encontrar agora.

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