Capítulo 1 A invasão

A chuva açoita a cidade, lavando os paralelepípedos em prata e preto. Os canais cintilam sob as luzes de neon, refletindo o caos antes mesmo de ele começar. Aperto meu fuzil, os nós dos dedos brancos, as botas silenciosas na pedra molhada. Cada sentido meu está gritando. Esta noite, atacamos o coração da operação Moretti, e fracassar não é uma opção.

— Equipes Alfa e Bravo, em posição — o nosso capitão rosna no comunicador. A voz dele corta a estática e a chuva. — Alvo: armazém dos Moretti. A inteligência indica armamento pesado. Civis hostis podem estar presentes. Aproximem-se com cautela. Atirem apenas se forem alvejados.

Reviro os olhos por baixo da máscara. “Atirem apenas se forem alvejados”, ele diz como se a gente tivesse o luxo de uma maldita pausa pra café. Meu esquadrão se espalha, me acompanhando nas sombras. A gente se move como fantasmas, fuzis erguidos, vasculhando cada canto escuro. Um passo errado, e a cidade te engole inteiro.

O armazém é enorme, um bloco escuro contra a linha do horizonte. Holofotes varrem o perímetro. Guardas com equipamento tático se movem como lobos. E então o primeiro tiro estala na noite.

— Contato! — alguém grita. O caos explode na mesma hora.

Do telhado, silhuetas se mexem — mascaradas, armadas, letais. Homens de Ren Moretti, eu sei pela inteligência. Eles atiram de cima em nós. As balas ricocheteiam no concreto e no aço. Eu me jogo no chão, rolo para trás de uma caixa, e disparo duas vezes contra um guarda que achou que tinha me pego de surpresa. Ele cai sem fazer barulho, e eu sigo em frente.

— Fechem a formação! — o capitão berra. — Invasão em três! Equipe Alfa, flanco esquerdo! Bravo, cubram as saídas!

Eu disparo numa corrida, o coração martelando. Uma porta arrebenta. Fumaça e faíscas jorram. Mais tiros. Mergulho atrás de uma pilha de caixas enquanto as balas rasgam o ar ao meu redor. Meu esquadrão troca tiros com os capangas da Máfia, o som ensurdecedor. Gritos ecoam. O cheiro de pólvora molhada se mistura à chuva e ao medo.

Granadas explodem à distância. Uma espalha estilhaços perto de mim, e eu rolo por instinto, o metal mordendo meu ombro. Dor? Sim. Mas a adrenalina embota. A dor afia o foco.

Vejo movimento nas sombras — uma figura, alta, precisa, com um fuzil próprio. Se move com uma habilidade inquietante, abaixando, desviando, revidando com uma precisão mortal. Não consigo ver o rosto. A máscara esconde tudo. Mas é rápido, letal e calmo no meio do caos.

— Você é meio confiante demais, não é? — murmuro, me abaixando atrás de um barril. Faíscas voam quando as balas acertam o metal ao meu lado.

Uma risada responde, baixa, sarcástica, carregando por cima do tiroteio.

— Confiança é melhor do que morrer numa poça. Confia em mim.

Reviro os olhos.

— Que fofo. Não morre antes de eu ter a chance de te matar.

A gente se rodeia, se abaixando atrás de caixas, andaimes, paredes meio desabadas. Os tiros dilaceram a noite. Meu esquadrão luta com ferocidade, avançando, limpando salas, neutralizando os executores dos Moretti. Explosões sacodem o prédio. Poeira de concreto cai como chuva.

De repente, um tiro de sniper assovia passando pela minha orelha. Eu giro, atirando às cegas, e a figura mascarada se move — deslizando para trás de uma cobertura com a graça de um predador. Quem quer que seja, não é só habilidoso. É perigoso além de qualquer descrição.

“Me deem cobertura!”, grito. Um companheiro lança uma granada de luz. A claridade explode, iluminando o beco. Eu os vejo por uma fração de segundo. Musculosos, atléticos, precisos. Arma erguida. E então somem de novo.

Meu sangue martela. Quem quer que seja, é um fantasma. E eu vou pegar essa pessoa.

Um membro do esquadrão berra: “Granada!”, e eu me jogo, rolando para trás de uma cobertura enquanto uma explosão estilhaça caixotes atrás de mim. Estilhaços cortam o ar. A figura mascarada já está se movendo, deslizando entre as sombras, usando o caos a seu favor.

Eu a persigo por instinto. A chuva arde no meu rosto. Balas zunem ao meu lado. Eu me enfio num corredor estreito, escorando na parede. E então — colisão.

Nós nos chocamos um contra o outro como um raio. Meu fuzil bate no deles. Metal retine. Eu cambaleio para trás, punhos voando, acertando ombros e braços. Eles revidam, golpes precisos, cotovelos e joelhos estalando em ritmo. Cada movimento calculado, cada golpe controlado.

“Você luta como se já tivesse feito isso antes”, cuspo, o coração disparado, os músculos queimando.

“E você não é ruim”, respondem, a voz áspera e abafada pela máscara, baixa, quase divertida. “Pena que um de nós vai sair dessa luta morto.”

O galpão treme ao nosso redor. Outra explosão sacode a estrutura. Vigas de aço despencam. Eu os empurro com força contra a parede. Eles rolam e varrem minhas pernas. Eu bato no chão com força. A dor queima, mas eu me levanto num salto.

Tiros nos cercam. Capangas do Moretti estão por toda parte. Nossos esquadrões se chocam, gritos, berros e sangue se misturando. Eu atiro, recarrego, atiro de novo, cada disparo calculado. A figura mascarada se move com a mesma precisão, derrubando inimigos com habilidade cirúrgica.

Eles chutam um caixote contra mim. Eu rolo e devolvo com a coronha do fuzil, acertando o ombro deles. Eles vacilam, e eu aproveito o momento, avançando. Meu punho acerta. Eles giram, contra-atacando.

E então — nossas armas se travam. Ficamos nariz com nariz, respirando chuva e fumaça, cada nervo em alerta.

“Quem diabos é você?”, sibilo.

“Quem você acha?” A voz deles é divertida, mortal, confiante.

Eu franzo a testa. “Alguém que está prestes a morrer.”

“Então tenta.”

O prédio estremece. Outra granada cai perto, nos arremessando para longe um do outro. Destroços voam, a poeira sufoca o ar. Sumimos em sombras opostas. E então — pouco antes de o rádio chiar — eu os vejo uma última vez: uma silhueta, larga, controlada, letal. Mascarada, indecifrável, inesquecível.

Eu recupero o fôlego. Meu ombro pulsa, minhas luvas estão escorregadias de chuva e sangue. O galpão está em chamas atrás de nós. Gritos ecoam.

“Situação?”, exige o capitão.

“Limpeza parcial”, rosno. “O alvo escapou.”

“Você só pode estar brincando!”, grita um companheiro. “A gente limpou o prédio e ele simplesmente saiu andando?”

Eu sorrio por baixo da máscara, o coração ainda martelando. “Acho que eles nos subestimaram… ou superestimaram a si mesmos.”

E, lá no fundo, um arrepio sombrio se acomoda no meu peito. Quem quer que fosse aquela figura mascarada, não era um alvo comum.

É precisa, implacável, rápida. Move-se como a própria tempestade. E eu sei de uma coisa com certeza — vamos nos encontrar de novo. E, da próxima vez, nenhum de nós vai se conter.

A volta para a base é silenciosa, quase dolorosamente. A chuva ainda pinga do meu cabelo, misturando-se à sujeira e ao cansaço; meu uniforme está pegajoso de sangue e lama. Meu fuzil repousa atravessado no colo, mas minhas mãos se recusam a relaxar. Cada nervo ainda está em brasa. Meu esquadrão troca palavras baixas, recontando disparos, quase acertos, explosões. As vozes são contidas, profissionais, mas dá para sentir a tensão irradiando de cada um.

Eu quero falar. Quero dizer alguma coisa esperta, sarcástica, engraçada. Em vez disso, encaro pela janela a cidade encharcada, cada poste refletindo nas poças como estilhaços de vidro. Alguém escapou esta noite. Uma única figura. Mascarada, rápida, precisa. Um fantasma entre balas e fumaça. E eu não peguei essa pessoa.

Fecho as mãos em punhos. Ainda sinto os movimentos dela nos meus músculos, o ritmo dos golpes, a precisão dos ataques. Quem quer que fosse, era bom. Bom demais. E esse pensamento fica preso no meu peito como uma faca.

O esquadrão desembarca na base. A chuva escorre de casacos e cabelos. Minhas botas fazem um som de sucção no piso de concreto enquanto entramos. O ar cheira a pólvora molhada e metal frio. O debriefing nos espera. Relatórios, acusações e as perguntas inevitáveis.

“Amelia Russo”, uma voz corta o burburinho. Grave, imperativa, afiada. “Meu gabinete. Agora.”

Eu congelo no meio do passo. Meu pai. General Marco Russo. O peso por trás da voz dele é inconfundível. Nada de sarcasmo, nada de aviso — só autoridade pura.

Eu assinto, forçando a mandíbula a destravar, e sigo pelo corredor. Meu esquadrão observa em silêncio, trocando olhares rápidos. Eu sinto a pena, a preocupação. Não importa.

A porta do gabinete dele está aberta; as luzes, duras; o cheiro de madeira polida e couro invade meus sentidos. Ele está sentado atrás da mesa, impecável no uniforme, medalhas reluzindo até na luz fraca. O rosto é ilegível no começo. Então os olhos dele se fixam em mim. E eu vejo a tempestade.

“Relatório”, ele diz, a voz baixa. Calma, mas letal.

Dou um passo à frente, mantendo as mãos visíveis. “Senhor. A operação foi parcialmente bem-sucedida. Limpamos o prédio e neutralizamos a maior parte das forças Moretti. As baixas foram mínimas. O alvo—”

Ele me interrompe com um gesto seco da mão. “O alvo? O alvo escapou?”

Sinto o estômago se contrair. Engulo em seco. “Sim, senhor. Um agente desconhecido conseguiu—”

“Agente desconhecido?”, ele sibila, levantando de repente. A cadeira raspa no chão. “Você tem noção do que isso significa, Amelia? Um homem, um homem de merda, escapou? Você deixou um membro da Máfia fugir?”

Fecho os punhos com raiva, as unhas cravando nas palmas. Cerro os dentes, obrigando a mandíbula a ficar firme. A raiva sobe como fogo no meu peito, e eu a empurro para baixo. Não vou mostrar fraqueza. Não aqui. Não para ele.

“Você acha que isso é brincadeira?”, ele continua, a voz aumentando. “Seu irmão teria se saído muito melhor.” Os olhos dele se estreitam. “Talvez eu devesse ter mandado ele no seu lugar.”

O calor toma meu rosto. Minhas mãos tremem. Meu peito arde. Minha mente dispara. Ele não sabe. Não sabe com quem eu lutei. Quem eu vi. Quem saiu daquele depósito vivo.

Forço um tom calmo, a voz firme mesmo com o coração martelando. “Senhor, o alvo era altamente treinado. Tático. E extremamente perigoso. Eu o enfrentei diretamente. Eu— eu tinha certeza de que conseguiríamos lidar com ele, mas…”

Ele bate o punho na mesa. A vibração faz os papéis e as canetas tremerem. Meu corpo se encolhe num sobressalto. “Mas o quê, Amelia? Mas eles escaparam? Você falhou. Isso não é confiança. É incompetência. Você faz ideia de quanto tempo eu esperei para derrubar a operação dos Moretti? Você sabe o sangue que eu já tenho nas mãos? E agora você deixa um deles viver?”

“Senhor—” começo, mas ele me corta com um gesto da mão.

“Não se justifique. Não explique. Você falhou. E eu confiei em você.”

Eu cerro os dentes. A raiva disputa espaço com a culpa e a frustração. Quero gritar com ele. Dizer que ele não entende, que não estava lá. Que a figura que enfrentei — mascarada, rápida, letal — não se parecia com homem nenhum dos relatórios de inteligência dele.

“Você acha que eu tenho medo da verdade?” retruco, a voz baixa, mas controlada. “Eu estava lá, pai. Eu vi ele. Eu— ele não era só um capanga da Máfia. Ele era preciso. Inteligente. Calculista. Eu lutei com ele. E ele escapou. Eu não falhei. Ele é… ele é outra coisa, completamente diferente.”

Silêncio. O ar entre nós engrossa, carregado. Os olhos dele se estreitam, vasculhando meu rosto como se conseguisse enxergar cada batida do meu coração, cada pensamento secreto.

“Você—” ele solta, baixo, perigoso. “Você deixou alguém escapar porque… porque ficou impressionada?”

Mordo o lábio, engulo em seco. “Não. Eu— eu sobrevivi. Esse era o objetivo. A equipe sobreviveu. Mas sim… ele é bom. Bom demais para ser um alvo comum.”

Ele ri. Baixo. Seco. Sarcástico, amargo. “Bom? Você acha que um executor da Máfia é bom? Amelia, você está deixando a emoção nublar seu julgamento. Se ele escapa, pessoas morrem. Você entende isso?”

“Sim, senhor”, digo, a voz afiada, travada. “Eu entendo. Mas ele é diferente. O senhor vai ver em breve. Seja lá quem for, ele não é só um soldado. Ele é… outra coisa.”

Marco Russo se recosta na cadeira, o maxilar tenso. As mãos pressionam as têmporas. “Eu não vou tolerar desculpas. Eu não vou tolerar fracasso. Você acha que eu me importo com o quão esperto ele era? Esperteza não para balas, Amelia. Esperteza não impede o luto. Esperteza não impede a vingança. Mais um erro como esse, e…”

Eu abro as narinas, inflamada. Estou pronta para discutir, pronta para rebater. Mas forço as palavras para dentro, deixo que fervam. Eu não sou fraca. Eu não sou uma criança. Meus punhos se descrispam, mas o fogo no meu peito não apaga.

Ele se inclina para a frente, o olhar perfurante. “Você não vai tornar isso pessoal. Você não vai fantasiar com seus inimigos. Entendeu?”

“Sim, senhor”, sopro.

Mas por dentro, a tempestade ruge. A figura mascarada assombra cada pensamento. Eu revivo nossa luta, de novo e de novo. Cada golpe, cada bloqueio, cada risada sob a máscara. Quem é você? penso, os dentes cerrados. E por que eu não consigo parar de pensar em você?

Dou um passo para trás, o controle voltando, a máscara profissional de volta ao lugar. “Relatório entregue, senhor.”

Ele assente, frio, distante. “Dispensada.”

Saio do escritório dele, a chuva ainda pingando do meu cabelo, os ombros tensos. Do lado de fora, meu esquadrão está se reunindo, trocando murmúrios contidos. Sorrio de leve, sarcástica, cortante.

“Bom”, murmuro para mim mesma, “pelo menos alguém se divertiu esta noite.”

Minhas botas fazem um som de sucção no concreto molhado. Meu fuzil balança contra o ombro. E eu sei a verdade — gelada e eletrizante ao mesmo tempo: seja lá quem fosse aquela figura mascarada, eu vou encontrá-la de novo. E, da próxima vez, não vai ser por acaso.

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