Capítulo 2 Deixe-os vir
Eu atravesso os corredores da mansão como uma tempestade, as botas estalando no mármore. Meus homens deveriam ser intocáveis. Minhas ordens deveriam ser seguidas à risca. E, ainda assim… a escória militar entrou. Eles mataram homens demais dos meus esta noite. Homens demais. E pra quê? Um ataque parcial? Um tapa na minha cara em plena luz do dia?
Eu cerro os dentes. Cada passo ecoa de raiva. Cada batida do coração é um trovão no meu peito. Eu poderia rasgar a cidade ao meio. Eu poderia destruir a unidade militar que ousou entrar na minha cidade. Eu poderia matar cada um deles — e talvez eu mate. Mas, agora, mal consigo pensar além da sede de sangue.
O cheiro me atinge antes de eu vê-la. Jasmim, baunilha, um toque de encrenca. E outra coisa… calor. Desejo. Ah, vai se foder.
— Sério? — murmuro, entre dentes. — Depois de hoje à noite, você tem a audácia de aparecer?
Sophia está lá, encostada no batente da porta dos meus aposentos privados. Ela sorri de canto, os olhos brilhando. Os olhos dela. Aquele truquezinho que ela tem, de bancar a inocente e vulnerável. E funciona. Sempre.
Eu arranco a máscara assim que entro no quarto. O vapor da raiva e da frustração parece subir de mim. — O que você quer? — rosno, a voz baixa e perigosa, ameaçadora o bastante para cortar a tensão espessa no ar.
— Eu soube do que aconteceu — ela diz, suave, aguda, quase choramingando. Lágrimas falsas cintilam nos cantos dos olhos. — Os militares, tudo aquilo… eu precisava ver com meus próprios olhos que você está bem.
Eu solto uma bufada, um som curto e amargo. — Eu estou bem — corto, ríspido. — Agora cai fora. Eu não estou com paciência pra sua presença.
Ela não se mexe. Só caminha até a cama, devagar, deliberada, ignorando minhas ordens por completo. Ousada. Ousada demais. Ela sorri de canto ao se sentar. — Você está com cheiro de fumaça e sangue. Vai tomar um banho, amor. Quando terminar, eu tenho uma coisa pra você. — Ela pisca, e meu sangue martela no peito.
Eu encaro ela com ódio. Minhas mãos se fecham em punhos. Uma parte de mim quer arrastá-la pra fora do quarto à força, talvez jogá-la por cima do ombro. Uma parte de mim? Eu nem tenho forças pra isso hoje.
— Inacreditável — murmuro. Ela apenas sorri, cruza as pernas e irradia uma confiança presunçosa.
Eu invado o chuveiro, deixando a água quente bater em mim, deixando que leve a sujeira, o suor e o sangue. O vapor enche o ambiente, pairando como fumaça, escondendo minha fúria do mundo. Meus músculos doem, meu corpo grita, mas minha mente está acesa com a lembrança da luta desta noite.
A figura mascarada. A estranha. Quem quer que ela fosse… eu ainda consigo ouvir a voz dela. Afiada, desafiadora, cheia de fogo. Sedenta por sangue. O tipo de fogo que deixa os homens idiotas. Que deixa os homens perigosos de um jeito que não deveriam ser. Que deixa homens como eu… curiosos.
Eu refaço o caminho da nossa luta na cabeça. Cada golpe, cada aparo, o jeito como ela se movia. Precisa, rápida, quase impossível de prever. E, ainda assim, ela era imprudente. Ousada. Teimosa. Uma faísca de caos indo contra a ordem. E isso… isso me excita de um jeito que eu odeio admitir.
Eu bato o frasco de xampu contra o azulejo, sibilando por entre os dentes cerrados. — Uma mulher — murmuro, a voz áspera. — Uma porra de uma mulher.
A lembrança da risada dela sob aquela máscara, cortando o tiroteio e as explosões, me atinge de novo. Ela não hesitou. Lutou como um soldado, mas com… atitude. E algo mais fundo. Algo perigoso espreitando sob aquela máscara.
O vapor me envolve, mas eu não consigo relaxar. Não por completo. Meu corpo reage mesmo assim. Meu pulso dispara. Minhas mãos se flexionam como se eu pudesse recriar cada movimento, cada golpe, em tempo real.
— Você era boa — sussurro para o chuveiro vazio. — Boa demais.
Uma risada escapa de mim, amarga, quase sombria. E, ainda assim, por baixo dela, algo escuro e faminto se agita. Algo que eu aprendi a não confiar, mas que não consigo ignorar. Uma necessidade de vê-la de novo. De sentir a descarga que ela me deu. De vê-la morrer ou me matar — ou talvez os dois.
Deixo a água cair com força, deixando que ela enxágue o sangue, o suor, a raiva. Mas a lembrança não vai embora. Ela se agarra, tenaz como uma sombra. Eu vou encontrá-la de novo.
Ela não sabe quem eu sou. Nem sequer conhece o meu rosto. Essa é a vantagem que eu tenho. O mundo só enxerga a lenda, o fantasma, a sombra. Eu controlo tudo porque ninguém me conhece. E, ainda assim… o fato de uma mulher — uma mulher — ter entrado no meu mundo e sobrevivido faz o sangue nas minhas veias ferver com algo além de raiva.
A voz de Sophia ecoa na minha mente, provocadora e suave. “Quando você terminar, eu tenho uma coisa pra você.”
Balanço a cabeça. Foco. Controle. Disciplina. Eu deveria odiá-la. Eu odeio. Ela é uma complicação. Uma fraqueza que eu me recuso a ter. E, no entanto, cada fibra do meu corpo dói de… expectativa.
Deixo a água correr sobre mim, quente, escaldante, limpando. Mas eu sei que, quando eu sair, quando eu me secar com a toalha, quando eu encarar o mundo de novo… ela vai estar esperando. E o estranho também.
E, ao contrário de Sophia, esta — esta mulher mascarada, sedenta de sangue, letal — não sabe que está caminhando direto para as presas de um predador que nunca esquece. Nunca falha. Nunca perdoa.
Fecho os olhos sob o jato. E sorrio, afiado e perigoso.
“Vamos brincar”, eu sussurro. “Vamos ver do que você é feita de verdade.”
Volto para o meu quarto, ainda com a toalha na mão.
O vapor do banho se agarra ao ar. Denso. Pesado. Ele rasteja pela minha pele e se instala nos meus pulmões. Não faz nada para tirar o depósito de mim. O cheiro de fumaça e sangue ainda gruda no meu corpo. Sempre gruda. Algumas noites nunca vão embora.
Então eu a vejo.
Sophia.
Nua. Estendida na minha cama como se fosse dona do lugar. Como se pertencesse aqui. Como se este quarto tivesse sido construído para ela.
Por um instante, a raiva recua. Não some. Só fica soterrada sob algo mais quente. Meus olhos se estreitam. Meu maxilar trava. Meu corpo reage antes que minha mente tenha tempo de mandar parar.
Ela percebe. Claro que percebe.
Sophia nunca deixa passar nada.
Ela abre um sorriso de canto. Devagar. Deliberado. Perigoso. O mesmo charme que já empurrou todos os limites que eu um dia estabeleci. O mesmo que faz dela um problema e um trunfo ao mesmo tempo.
“Você realmente sabe como fazer uma entrada”, eu resmungo.
Minha voz sai baixa. Cortante. Controlada.
Ela inclina a cabeça, os olhos brilhando. “Você está com cheiro de morte e encrenca”, diz baixinho. Uma falsa preocupação cobre cada palavra. “Achei que você podia querer companhia.”
Dou um passo mais perto. “Você tem sorte de ser a única autorizada a entrar neste quarto, Sophia.”
Ela ri. Baixo. Agudo. Calculado. “Eu nunca esqueço meus privilégios.”
Minhas mãos se fecham em punhos. Depois relaxam. Não há tempo pra isso. Não hoje à noite.
O depósito pisca na minha mente. Tiros rasgando o concreto. Ordens gritadas no caos. Sangue encharcando o chão. Homens que confiaram em mim. Homens que me seguiram sem questionar.
Homens que não saíram de lá.
Os militares agiram rápido. Limpo. Implacável. Rostos mascarados. Sem hesitação. Sem misericórdia. Entraram sabendo exatamente onde golpear.
Essa guerra vem queimando há anos. Esta noite, ela se inflamou.
A lembrança queima mais do que o desejo. Raiva e necessidade colidem dentro de mim. Violentas. Sem controle. Dá trabalho não me perder por completo.
Quase.
Viro o rosto. “Chega”, rosno. “Eu tenho trabalho a fazer.”
Sophia se senta devagar, completamente imperturbável. “Trabalho?”, ela diz. “Você acabou de voltar de um massacre. Você está tenso. Deixa eu ajudar.”
Eu paro.
Meus ombros sobem. Descendem.
Eu me viro de volta.
O ar se contrai. O controle escapa, fio por fio. Esta noite já tirou demais de mim. Estou cansado de fingir que nada me atinge.
Eu não a afasto.
Eu estendo a mão para ela.
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O ar estala de tensão quando eu a alcanço. Minhas mãos se fecham em torno dos pulsos dela, prendendo-os acima da cabeça. Ela solta um suspiro, os olhos se arregalando de surpresa antes de se estreitarem em outra coisa. Algo perigoso.
Eu me inclino para perto, meu rosto a poucos centímetros do dela. “Você não tem o direito de decidir do que eu preciso”, rosno, a voz áspera e baixa. “Não esta noite.”
Ela ri, um som ofegante que faz o calor disparar pelas minhas veias. “Ah, eu acho que tenho, sim”, ela ronrona, se contorcendo sob mim. “Você precisa de mim, Abram. Precisa se soltar. Esquecer.”
Aperto mais meu controle nos pulsos dela, cravando os dedos na carne macia. “E você acha que consegue me fazer esquecer?”, sibilo, meus lábios roçando nos dela. “Que consegue me controlar?”
Ela sorri de canto, sem nenhum arrependimento. “Acho que posso tentar.”
Num movimento rápido, viro-a de bruços, pressionando o rosto dela contra o colchão. Ela solta um guincho surpreso, mas eu ignoro, concentrado na visão provocante do corpo nu dela estendido sob mim.
Minha mão desliza pela coluna dela, traçando a curva da bunda antes de mergulhar entre as coxas. Ela já está molhada, pingando de necessidade. Eu a provoco, circulando o clitóris com o polegar enquanto ela se remexe contra o meu toque.
“Você está brincando com fogo”, eu aviso, a voz num ronco baixo. “Você devia saber que não é boa ideia me desafiar, Sophia.”
Ela olha para trás por cima do ombro, os olhos vidrados de tesão. “E você devia saber que não é boa ideia me negar”, ela rebate. “Eu posso fazer você sentir coisas que nunca sentiu antes. Coisas que vão te libertar.”
Eu hesito, dividido entre a raiva e o desejo. Mas a imagem dos meus homens mortos no chão do galpão queima na minha mente, me empurrando adiante.
Agarro os quadris dela, puxando-os para cima até que ela fique de joelhos, a bunda empinada. Ela arqueja, arqueando as costas em submissão.
“Então me mostra”, eu exijo, a voz num rosnado baixo. “Mostra o que você sabe fazer.”
Ela não hesita, virando-se para me encarar enquanto desce até o chão. Ela ergue os olhos para mim por entre os cílios, um sorriso malicioso brincando nos cantos da boca.
Minha respiração prende na garganta quando ela coloca meu pau duro na boca, fechando os lábios ao redor da cabeça e girando a língua na ponta. Ela me engole mais fundo, centímetro por centímetro, até eu sentir o fundo da garganta dela contra a minha pele.
Eu gemo, enroscando os dedos no cabelo dela enquanto ela sobe e desce, a boca quente e molhada e perfeita. Ela me leva à beira, me empurrando cada vez mais perto do ponto sem volta.
Mas eu ainda não estou pronto para acabar. Nem de longe.
Eu a puxo para longe de mim, empurrando-a de volta na cama. Ela cai com um baque suave, olhos arregalados e as bochechas coradas de excitação.
Eu subo por cima dela, meu corpo pressionando o dela enquanto prendo os pulsos acima da cabeça dela mais uma vez.
“Não para”, eu ordeno, a voz áspera e urgente. “Eu quero sentir cada centímetro de você.”
Ela geme, se arqueando contra mim enquanto eu esfrego meu pau duro no calor escorregadio dela. Ela está pingando agora, pronta para eu tomá-la.
Eu a provoco com os dedos primeiro, enfiando e tirando dentro do canal apertado até ela se contorcer sob mim, desesperada por mais.
Então eu substituo meus dedos pelo meu pau, metendo com uma estocada forte. Ela grita, as costas se arqueando para fora da cama quando eu a preencho por completo.
Eu imponho um ritmo castigador, socando dentro dela de novo e de novo enquanto ela me acompanha estocada por estocada. O quarto se enche do som de pele batendo em pele, de gemidos e grunhidos e súplicas desesperadas por mais.
Ela arranha minhas costas, arrastando as unhas pela minha pele até eu ter certeza de que ela tirou sangue. Mas eu não me importo, consumido demais pela necessidade de reivindicá-la, de fazê-la minha.
Eu sinto ela se apertando ao meu redor, o corpo enrijecendo à medida que chega cada vez mais perto do limite. Eu desço uma mão, encontro o clitóris dela e o circulo com o polegar até ela gritar o meu nome.
É aí que eu me deixo levar, fodendo ela sem freio enquanto sinto meu próprio orgasmo se formando, profundo dentro de mim.
E então me atinge como uma onda de maré, arrebentando sobre mim em onda após onda de prazer intenso. Gozo com força, me derramando dentro dela enquanto ela convulsiona ao meu redor, gritando meu nome enquanto se desfaz sob mim.
Desabamos juntos, corpos exaustos e ofegantes, tentando recuperar o fôlego.
Mas, mesmo quando a névoa do prazer se dissipa, consigo sentir a raiva fervendo logo abaixo da superfície outra vez.
Os olhos de Sophia encontram os meus, escuros e conscientes. “Não se preocupe”, ela diz baixinho, erguendo a mão para acariciar minha bochecha. “Eu vou garantir que você esqueça. Tudo.”
E, por enquanto, isso basta.
SEGURO PARA LER
Depois, o fogo se apaga. A raiva não.
Eu me afasto primeiro.
Pego um roupão e o visto. Meus movimentos são bruscos. Precisos. Minhas botas batem forte no chão quando me afasto da cama. A tensão no meu peito se enrosca ainda mais apertada.
Sophia ri atrás de mim. Preguiçosa. Satisfeita. “Tente não começar uma guerra sem mim”, ela chama.
Eu não olho para trás.
Já existe uma guerra.
Caminho pelos corredores e entro no meu escritório. Este cômodo é mais frio. Mais limpo. Honesto. O poder mora aqui. O controle mora aqui.
Meus homens estão esperando.
Matteo. Meu subchefe. Sólido. Marcado por cicatrizes. Leal.
Alessandro. Meu consigliere. Calmo. Observador. Perigoso de um jeito que a maioria nunca percebe.
Os capos se sentam em silêncio. Luca. Enzo. Marco.
Os rostos deles são duros. Os olhos, mais afiados ainda. Não há confusão aqui. Só raiva e expectativa.
— Sentem — eu digo.
Eles já estão sentados.
Eu ando de um lado para o outro diante da mesa. As botas raspam na pedra. — Os militares atacaram de novo esta noite — digo. — Entrada precisa. Execução limpa. Mataram oito dos nossos e saíram antes que os reforços chegassem.
Luca bate o punho na mesa. — Estão ficando mais ousados.
— Eles sempre ficam — respondo. — Bem antes de sangrar.
Enzo se inclina para a frente. — Isso não foi aleatório. Eles sabiam a planta. Sabiam o horário.
— Eles sempre sabem — diz Matteo. — Essa guerra não começou ontem.
— Não — digo. — Mas esta noite foi uma mensagem.
Alessandro entrelaça os dedos. — Eles querem uma reação.
— Vão ter — respondo. — Nos meus termos.
Luca solta um riso de desprezo. — A gente joga xadrez com eles há anos. Até quando vamos esperar?
— Pelo tempo que for preciso para vencer — digo. — Não para se sentir melhor.
Marco fala baixo: — O comandante deles estava lá. Mascarado. O mesmo de Milão.
— Eu sei — digo.
O silêncio vem em seguida.
Enzo me observa. — Você cruzou com ela?
— Sim.
— E aí?
— Ela foi embora — digo. — Isso não vai acontecer duas vezes.
O olhar de Alessandro se aguça. — Então a escalada é inevitável.
— Já está decidido — digo. — Aumentem a vigilância. Rastreiem os movimentos dos militares. Observem os postos de controle. Subornem quem precisar ser subornado. Quebrem quem não aceitar.
Matteo assente. — E a retaliação?
Eu paro de andar. — Lenta. Cirúrgica. Vamos lembrá-los de que Verona é minha. E de que a Sombra não erra.
Luca sorri. — Finalmente.
Eu me viro para ele. — Não confunda paciência com misericórdia.
O sorriso desaparece.
Alessandro lança um olhar para mim. — Sophia?
Meus olhos endurecem. — Sophia fica fora disso. Ela não é soldado. Não é peão. Quem envolver ela responde a mim.
Eles entendem.
Eu me sento e esfrego o maxilar. — Quero nomes. Rotas. Horários. Quero saber quando eles respiram e quando dormem. Matteo e Alessandro coordenam. Capos, fechem a cidade.
— Sim, chefe.
Eu me levanto. — Dispensa. E se alguém vazar as perdas desta noite — minha voz baixa —, os militares não vão ser os que vão terminar com você.
Eles saem.
A mansão se acomoda no silêncio.
Eu me recosto e encaro o teto.
A mulher mascarada. A postura dela. O controle. O jeito como lutava como se já tivesse aceitado a morte.
Esta guerra está longe de acabar.
E, por baixo da fúria, algo afiado se mexe.
Antecipação.
Ótimo.
Que venham.
