Capítulo 3 Seus planos

Fecho a porta do meu quarto e a tranco.

O som é seco. Definitivo.

Por um segundo, minhas costas batem na porta. Então minhas pernas cedem. Atravesso o quarto e desabo na cama sem nem me dar ao trabalho de tirar as botas. O colchão afunda sob o meu peso. As molas rangem. Encaro o teto e respiro.

Entra. Sai.

Não adianta nada.

Meu corpo ainda vibra com a adrenalina que sobrou. Meus músculos doem. Meus nós dos dedos ardem. O cheiro de óleo de arma e fumaça gruda na minha roupa. Eu devia tomar banho. Não me mexo.

Lá fora, a base está barulhenta. Vozes. Botas. Rádios chiando. Homens comemorando uma missão que eles acham que deu certo.

Eles estão errados.

Aperto os olhos.

Não importa o que eu faça, nunca é o suficiente.

Nunca é.

A voz do meu pai mora de graça na minha cabeça. Fria. Calculada. Sempre decepcionada. Sempre comparando. Sempre me lembrando de que meu irmão existe.

O filho de ouro.

O formidável.

O que nunca erra.

O que nunca hesita.

O que nunca envergonha o nome Russo.

Engulo em seco.

Eu odeio isso.

Odeio ele por causa disso. Odeio a mim mesma por me importar. Odeio que cada missão pareça uma prova que eu estou condenada a reprovar. Odeio que, mesmo quando eu faço tudo certo, ainda assim está errado.

Fecho os punhos nos lençóis.

Minhas unhas cravam. O tecido se torce sob a minha pegada.

Eu odeio Ren Moretti.

Eu odeio a Máfia.

Odeio aquele homem que eu nunca vi. Odeio que ele exista só como um nome e, ainda assim, controle a minha vida. Odeio que meu pai diga o nome dele com raiva e respeito na mesma frase. Odeio que todo fracasso, de algum jeito, leve de volta a ele.

Se Ren Moretti estivesse morto, as coisas seriam diferentes.

Eu imagino isso. Vividamente demais.

Uma bala atravessando a cabeça dele. À queima-roupa. Sem máscara. Sem fuga. Massa encefálica espalhada por toda parte. Sangue no concreto. O corpo dele, enfim, imóvel. Irreconhecível.

Eu quero isso.

Quero muito.

Quero despedaçá-lo, pedaço por pedaço, até não sobrar nada para nos assombrar. Até meu pai não ter mais nada para esfregar na minha cara. Até a guerra acabar e a sombra desaparecer.

Meu peito aperta.

Ninguém sabe quem Ren Moretti é.

Essa é a piada cruel.

Um nome sem rosto. Um fantasma com um império. Um mito que sangra, mas nunca morre. Cada informante canta uma música diferente. Cada pista esfria. A família Moretti escapa por entre os dedos do exército como fumaça.

Há anos.

Anos demais.

Viro a cabeça e encaro a parede. Meu reflexo me encara de volta na tela escura do meu tablet. O suor deixa meu cabelo grudado para trás. A sujeira risca minha bochecha. Meus olhos parecem selvagens.

Bom.

Eu não cheguei até aqui para ser sensata.

Sento devagar. Minha coluna estala. Eu acolho a dor.

— Eles acham que você é intocável — murmuro para o quarto vazio. — Vamos ver por quanto tempo isso dura.

Jogo as pernas para fora da cama e começo a andar de um lado para o outro. De um lado para o outro. De um lado para o outro. Minhas botas batem no chão num ritmo constante.

Repasso o armazém na cabeça.

A entrada. O timing. Os ângulos. Os homens dele lutaram bem. Bem demais. Organizados. Disciplinados. Leais até o osso. Só isso já me diz tudo o que preciso saber.

Ren Moretti não governa apenas com medo.

Isso me irrita mais do que deveria.

Paro de andar e apoio as mãos na mesa. Meus dedos tremem. Eu os obrigo a ficar imóveis.

Isso muda agora.

Endireito a postura.

Eu sou Amelia Russo.

Eu não sou a sombra do meu irmão.

Eu não sou a decepção do meu pai.

Eu não sou alguma oficial que mandam para limpar sobras.

Eu vou desmascará-lo.

Vou arrancar a máscara de Ren Moretti e arrastá-lo para a luz. Vou mostrar ao mundo quem ele é. Vou mostrar ao meu pai do que sou capaz.

E então eu vou acabar com ele.

Meu maxilar se contrai.

A dor aparece antes que eu perceba o que estou fazendo. Meus dentes rangem. Forte. Forte demais.

Solto o ar num sopro curto e obrigo meu maxilar a relaxar.

Devagar.

Controle.

É isso que separa caçadores de animais.

Sento na beira da cama e esfrego o rosto. Minhas mãos tremem agora. A raiva faz isso comigo. Sempre fez.

Alguém bate à porta.

Eu congelo.

Outra batida. Mais forte desta vez.

— Capitã Russo — chama uma voz. — Debriefing em dez minutos.

Claro que tem.

Passo a mão pelo cabelo. — Já vou.

Os passos se afastam.

Eu me levanto e tiro o casaco. Ele cai na cadeira, amontoado. Pego meu reflexo de novo e ergo os ombros, firme.

Eles acham que esta noite foi um aviso.

Estão errados.

Isto é o começo.

Ren Moretti acha que é a Sombra. Intocável. Invisível. Seguro atrás de máscaras e mitos.

Ele também está errado.

Pego minha arma e confiro a câmara. Hábito. Conforto.

— Aproveite a escuridão — sussurro. — Eu estou indo atrás de você.

E desta vez eu não vou errar.

O corredor do lado de fora do meu quarto cheira a metal e desinfetante.

Ando rápido. Botas batendo no chão em pancadas secas. Os soldados abrem caminho quando me veem chegando. Alguns se endireitam. Alguns desviam o olhar. Uns poucos encaram por tempo demais. Eu ignoro todos.

Que olhem.

A sala de briefing já está cheia quando eu entro. As telas brilham na frente. Mapas. Marcadores vermelhos. Linhas do tempo. Números de baixas que fazem meu estômago revirar.

Sento no meu lugar sem cumprimentar ninguém.

Um tenente se inclina na minha direção. “Noite difícil?”

Eu olho para ele. Devagar. “Eu pareço que passei o dia num spa?”

Ele se cala.

Ótimo.

O general Russo entra instantes depois. Meu pai. A sala se põe em sentido como se estivesse ligada a ele por fios. Ele não olha para mim. Nem uma única vez. Os olhos vão direto para as telas.

“Sentem-se”, ele diz.

Todos se sentam.

Ele fala de estratégia. De contenção. De escalada. A voz dele é calma. Controlada. Como se estivesse discutindo padrões climáticos, e não corpos mortos.

Eu escuto. Eu sempre escuto.

Mas tudo o que eu ouço é o que ele não diz.

Ele não diz o meu nome.

Ele não diz bom trabalho.

Ele não diz nada sobre o fato de que quase pegamos eles.

Quase.

Essa palavra queima.

Um capitão levanta a mão. “Senhor, os homens dos Moretti recuaram mais rápido do que o esperado. Quase como se soubessem nossas rotas de saída.”

Meu pai assente. “Eles se adaptam rápido.”

Eu não consigo evitar. Eu me inclino para a frente. “Eles se adaptam porque a gente se move do mesmo jeito todas as vezes.”

Silêncio.

Todas as cabeças se viram para mim.

Meu pai finalmente olha para mim. Os olhos dele são afiados. Avaliadores. Frios.

“Explique”, ele diz.

Eu sustento o olhar dele. Não vacilo. “A gente vai pra cima de frente. Barulhento. Previsível. Eles esperam força bruta. Eles treinam pra isso. Ren Moretti treina eles pra isso.”

Um murmúrio percorre a sala.

Alguém dá uma risadinha de desprezo. “Com todo respeito, capitã, a gente nem sabe como ele se parece.”

Eu sorrio. Não é um sorriso amigável. “Exatamente. E, ainda assim, ele conhece a gente.”

Isso cala todo mundo.

Meu pai me observa por um longo momento. “O que você está sugerindo?”

Eu inspiro. Firme. “A gente para de caçar fantasmas no escuro. Deixa eles acharem que estão ganhando. A gente sangra eles devagar. A gente fica quieto. A gente segue o dinheiro. Rotas. Empresas de fachada. A gente puxa os fios até alguma coisa se desfazer.”

“E quando isso acontecer”, ele diz.

Eu me recosto. “Aí a gente puxa com mais força.”

Silêncio de novo.

Esse é diferente.

Meu pai volta a atenção para a tela. “Vamos discutir isso depois.”

Depois. Sempre depois.

A reunião termina. Cadeiras arrastam. Vozes se elevam. Planos mudam.

Meu pai sai sem me dirigir outra palavra.

Claro que sai.

Eu vou embora com a mandíbula travada. Minhas mãos coçam. Eu quero socar alguma coisa. Alguém.

Eu escolho a academia.

O saco de pancadas leva o primeiro soco. Depois o segundo. Depois o terceiro.

Eu bato nele até os nós dos meus dedos queimarem. Até meus braços tremerem. Até o suor pingar nos meus olhos e embaçar tudo.

“Finge que é o Moretti”, diz uma voz.

Não paro de socar. “Sou eu.”

A voz é da Elena. Minha companheira de equipe. Minha amiga. Uma das poucas pessoas que não pisa em ovos comigo.

Ela se encosta na parede, braços cruzados. “Você assusta pra caralho os recrutas novos.”

“Ótimo.”

Ela bufa. “Seu pai assusta mais.”

Isso acerta mais forte do que o saco.

Eu paro. Apoio a testa no couro gasto. “Ele nem me enxerga.”

Elena dá um passo mais perto. “Ele enxerga você. Só não sabe como lidar com você.”

Eu rio. É um riso cortante. Amargo. “Que generosidade.”

Ela hesita. “Você quase pegou eles hoje à noite.”

Quase de novo.

Eu me afasto e olho para ela. “Quase não serve pra nada.”

Ela estuda meu rosto. “Você vai fazer alguma coisa imprudente.”

“Sim.”

Ela suspira. “Eu quero saber?”

“Não.”

Ela assente. “Imaginei.”

Depois eu tomo banho. A água cai quente. Não lava a raiva. Nunca lava. Esfrego até a pele ficar vermelha.

De volta ao meu quarto, sento na cama e puxo uma pasta. Preta. Sem marca. Meu trabalho particular.

Ren Moretti.

Nomes. Empresas. Rotas de envio. Fotos de armazéns queimados e docas vazias. Cada pista que deu em nada. Cada beco sem saída.

Folheio tudo de novo. E de novo.

Padrões se escondem na repetição. Era o que meu irmão costumava dizer.

Bato a pasta e fecho.

Chega.

Abro meu laptop e entro num canal seguro. Os dedos se movem rápido. Os comandos fluem. Eu fuço onde não deveria. Firewalls militares não me assustam.

Eu encontro alguma coisa.

Um carregamento marcado como suprimentos médicos. Roteado por três portos. Pertencente a uma empresa que não existe.

Meu pulso dispara.

Aí está você.

Eu sorrio devagar.

Ren Moretti sangra como todo mundo. Só esconde melhor.

Digito mais rápido. Rastreio conexões. Nomes aparecem. Alguns familiares.

Meu celular vibra.

Número desconhecido.

Eu encaro a tela.

Então atendo.

“Capitã Russo”, diz uma voz masculina. Calma. Calma demais. “Você está fazendo perguntas muito interessantes.”

Meu sangue gela.

“Quem é você?”, eu pergunto.

Uma pausa. Só o bastante para parecer deliberada.

“Alguém que aprecia persistência”, ele diz. “Mas eu aconselharia cautela.”

Eu me levanto. Minha mão se fecha com força em torno do celular. “Você está me ameaçando?”

Uma risada baixa. “Não. Estou avisando.”

A ligação cai.

Eu encaro a tela.

Meu coração martela. Rápido. Forte.

Eu estou tremendo.

Não de medo.

De empolgação.

Ren Moretti sabe que eu estou perto.

Ótimo.

Eu sussurro para o quarto vazio: “Corre.”

Porque eu não vou parar.

E essa guerra só está começando a ficar interessante.

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