Capítulo 3
— Aqui estamos, minha Rainha. Este é o seu quarto — ela disse.
Eu percorri o ambiente com os olhos, sem acreditar. O quarto parecia irreal, quase um sonho. O que eu deveria fazer com um lugar daquele tamanho? Só a cama já era larga o bastante para acomodar quatro pessoas, e os criados-mudos eram primorosamente trabalhados.
Eu me virei e peguei meu reflexo em um espelho enorme, de cristal, tão nítido que dava arrepio. A penteadeira estava tomada por cremes, óleos e frascos delicados. Eu me senti tonta. Se aquilo fosse um sonho, eu nunca queria acordar.
— Tenho certeza de que minha Rainha ama o seu quarto — ela disse, num tom suave. Quando eu me virei, ela sorria de leve, com o olhar preso no chão. De repente, eu me lembrei de que deveria me portar como realeza, e não como uma garota do vilarejo, boquiaberta.
— Sim, eu amo. Ele realmente me encantou — respondi, sentando-me diante do espelho e fingindo que aquele nível de luxo era algo familiar para mim.
— Fico feliz que a senhora goste, minha Rainha. Fui eu mesma quem desenhou o quarto para a senhora — disse ela, corando de orgulho. — Tenho certeza de que a senhora gostaria de saber quais são minhas funções como sua criada pessoal.
Ela falava enquanto eu caminhava pelo quarto, ainda atordoada.
— Sim, por favor, me diga — pedi, voltando-me para ela.
— Estou aqui para servir a senhora, e somente a senhora — ela explicou, com uma reverência. — Vou preparar suas refeições, a menos que o Rei solicite uma refeição em família. Vou dar banho na senhora, vesti-la e acompanhá-la aonde quer que a senhora deseje ir. Em resumo, vou cuidar completamente da senhora, minha Rainha.
— Você vai me dar banho? — exclamei, assustada. Ela levantou um pouco a cabeça.
— Espero que minha Rainha não tenha nenhuma objeção? — perguntou, educadamente.
— Não. Acho que não tenho — respondi, embora minha mente estivesse a mil.
Então ela me veria nua. Com frequência.
O que havia de errado com os ricos? Por que eu ficaria parada enquanto outra pessoa me dava banho só porque eu era uma Rainha — supostamente?
— Minha Rainha, posso tirar suas roupas de cima e preparar seu banho? A senhora deve estar exausta da viagem. Eu também gostaria de lhe fazer uma massagem para ajudá-la a relaxar — disse ela, com gentileza, dando um passo mais perto.
— E eu vou vestir o quê? Eu cheguei aqui sem nada — perguntei.
— O Rei providenciou roupas e sapatos em vários tamanhos para que a senhora não tivesse nenhuma dificuldade — disse ela, abrindo o guarda-roupa.
Minha respiração travou.
O armário estava abarrotado de vestidos, sapatos e roupas finamente confeccionadas. Era coisa demais para uma pessoa só. Se aquilo fosse mesmo meu, eu queria poder mandar uma parte para Seren e Rosamund. Tudo era lindo, feito com tecidos caros.
— Foi atencioso da parte dele — murmurei, deixando que ela tirasse meu vestido.
Depois de um banho quente e uma massagem relaxante, eu me sentei diante do espelho enquanto ela cuidava do meu cabelo com todo o zelo, aplicando cremes e escovando até ficar liso. Aos poucos, o aspecto apagado foi sumindo, e o brilho voltou ao meu cabelo vermelho, liso como osso.
Eu sempre tinha odiado meu cabelo, principalmente a cor. Agora eu percebi que ele apenas carecia de cuidados. Apesar de haver muitas quebras — o que era esperado depois de anos de doença —, ele parecia mais saudável do que tinha estado em muito tempo.
Ainda assim, por mais cuidadoso que fosse o jeito que ela arrumasse, meu cabelo não conseguia competir com o dela.
Observei o reflexo dela enquanto passava loção na minha pele sardenta com uma delicadeza precisa. A dedicação dela era inconfundível.
“Você é deste reino?”, perguntei baixo, encontrando os olhos dela pelo espelho.
Ela sorriu de leve. “Não, minha Rainha. Eu sou de Bemuga, o reino vizinho.”
Ela pousou a escova. “Terminei de vesti-la.”
“Você fez um trabalho excelente”, eu disse, embora meu olhar escorregasse para o meu peito. O vestido mostrava muito mais do que eu me sentia à vontade. Segundo ela, o Rei preferia roupas assim.
Claro que preferia. O infame mulherengo.
“Não tem nada que eu possa fazer para me cobrir um pouco?”, perguntei, puxando o tecido, embora ele quase não cedesse.
“Sinto muito, minha Rainha, mas o Rei insiste nesse estilo. Ele ficaria descontente se a senhora usasse algo mais comportado”, ela disse.
Suspirei e me sentei de novo, encarando meu reflexo com raiva.
“Peço desculpas se a senhora está desconfortável”, ela acrescentou em voz baixa. “Eu queria poder ajudar.”
“Não é sua culpa, Sage. Você fez seu trabalho perfeitamente”, eu disse, exatamente quando bateram à porta.
Fiz um gesto para ela abrir.
Uma mulher entrou, mais velha do que as outras, com uma presença que mandava no ambiente. Sage inclinou a cabeça em reverência. Quase fiz o mesmo, até me lembrar da minha posição.
A mulher varreu o quarto com um desprezo evidente. Eu soube na hora que ela me detestava.
A competição tinha começado no instante em que eu cheguei.
Os olhos dela deslizaram por mim devagar, críticos, como se ela estivesse avaliando um defeito. Cerrei a mandíbula, me forçando a manter a calma.
O olhar dela mudou para Sage, que ainda estava curvada.
“O que você ainda está fazendo aqui?”, ela disparou.
Sage me olhou, pedindo permissão.
“Você já pode ir, Sage. Obrigada”, eu disse.
A mulher soltou um riso de escárnio.
“Fazendo pose de boazinha pra todo mundo gostar de você?”, ela zombou.
Cruzei os braços, já cansada daquele exame constante.
“Você nem é digna de competir comigo”, ela acrescentou.
Eu ri por dentro. Eu nunca pedi para competir.
“Eu sou Zinnia”, ela continuou. “A primeira esposa do Rei. A favorita dele. Fique no seu lugar e não tente chamar a atenção dele.”
Ela se virou para sair, então parou.
“E o Rei detesta mulheres ruivas. Lembre-se disso.”
Ela bateu a porta com força atrás de si.
Eu desabei na cama enorme, lembranças dos meus pais e dos meus amigos inundando minha mente. Eu estava completamente sozinha.
Tudo tinha sido tirado de mim tão rápido. Meus pais tinham partido, assassinados pelo mesmo homem que agora me reivindicava.
Mesmo que eles tivessem me feito mal, não mereciam um fim daqueles.
Se o Rei realmente odiava mulheres ruivas, por que se casar comigo, afinal? Era mais uma forma de punição?
Eu rezei para que Seren e Rosamund estivessem a salvo. A fuga delas tinha sido imprudente, mas elas eram fortes.
Olhei em volta pelo quarto mais uma vez. Ele estava cheio de beleza e riqueza, e ainda assim parecia uma prisão.
Eu estava ali para me casar com o Rei Archer, o mulherengo implacável.
E, por mais que tentassem enfeitar a história, eu sabia a verdade.
Eu não era uma Rainha.
Eu era uma posse.
