Capítulo 1 Prólogo 1.0 Gabriel
Gabriel Vasconcellos
Sete anos antes...
Antes de viajar, eu precisava vê-la pela última vez.
Ela havia acabado de completar dezoito anos.
Sabia exatamente onde encontrá-la. Todas as tardes, ela costumava ir à mesma lanchonete com as amigas. Entrei, escolhi uma mesa mais afastada e permaneci em silêncio, observando-a de longe, como sempre fazia.
Ela ria.
Gesticulava enquanto conversava.
Seu sorriso iluminava o ambiente de um jeito que eu nunca conseguiria explicar.
Foi então que, de repente, uma grande quantidade de pessoas entrou na lanchonete. Em poucos segundos, todas as mesas foram ocupadas, e o lugar ficou completamente lotado.
Eu não esperava que ela se aproximasse.
Mas ela veio.
Parou diante da minha mesa e apontou para a cadeira vazia à minha frente.
- Com licença... Você vai precisar dessa cadeira? - perguntou com delicadeza.
Balancei a cabeça em negativa.
- Não. Pode ficar à vontade.
O sorriso que surgiu em seus lábios fez meu peito apertar.
- Obrigada! - respondeu.
Por um instante, nossos olhares se encontraram.
Ela sorriu daquele jeito doce e espontâneo, acenou discretamente com a cabeça e levou a cadeira até a mesa onde as amigas a esperavam.
Sem saber, ela havia transformado um simples gesto em uma lembrança que eu carregaria por muitos anos.
Continuei observando-a de longe.
Gravei cada detalhe daquele momento na memória.
Porque, de alguma forma, eu sabia que passaria muito tempo sem vê-la outra vez.
É... chegou a hora de você crescer, florzinha.
Levantei-me em silêncio.
Saí da lanchonete sem olhar para trás.
Se olhasse mais uma vez, talvez não tivesse coragem de partir.
Segui direto para a casa dos meus pais e, assim que entrei, encontrei minha avó esperando por mim.
Assim que me viu, abriu os braços e sorriu com carinho.
—Meu menino! Pensei que não daria tempo de me despedir de você!
Sorri e a abracei com força.
— Que bom que a senhora veio... Vou sentir saudades, vó.
Depois de me despedir da minha avó, encontrei meus pais na sala. As malas já estavam no carro, e o silêncio dizia muito mais do que qualquer palavra.
Meu pai foi o primeiro a se aproximar.
Ele colocou a mão sobre o meu ombro, como sempre fazia quando queria demonstrar confiança sem precisar recorrer a longos discursos.
— Você sabe por que estou enviando você para lá.
Assenti.
Sabia melhor do que ninguém.
A nova filial precisava de alguém capaz de estruturá-la, fazê-la crescer e transformá-la em referência. Era um desafio enorme, mas também a maior prova de confiança que ele poderia me dar.
— Eu não vou decepcionar o senhor.
Ele sorriu discretamente.
— Eu nunca pensei que fosse.
Respirei fundo antes de completar:
— Assim que tudo estiver estabilizado, eu volto. Assumo meu lugar na empresa, exatamente como o senhor sempre planejou.
Meu pai apenas assentiu.
Não havia promessas vazias entre nós. Apenas compromissos.
Minha mãe foi a próxima a me abraçar.
Seu abraço demorou mais do que o normal, como se tentasse gravar aquele momento na memória.
— Cuide de você, meu filho.
— Eu vou, mãe.
Ela acariciou meu rosto e sorriu, embora seus olhos estivessem marejados.
— E não trabalhe tanto.
Sorri de lado.
— Não prometo.
Ela riu baixinho.
Quando me afastei, Leonardo apareceu encostado na porta.
Como sempre, trazia aquele sorriso despreocupado que parecia tornar tudo mais leve.
— Então é isso... Vai abandonar o irmão mais novo?
Dei um leve soco em seu braço.
— Você já tem idade para se virar sozinho.
— Isso é discutível.
Nós dois rimos.
Ele me abraçou com força.
— Vai fazer falta.
— Você também.
Antes de entrar no carro, olhei mais uma vez para minha família.
Naquele momento, eu acreditava que estava apenas partindo para cumprir meu dever.
Não fazia ideia de tudo o que o destino ainda preparava para nós.
Chegar a outro Estado significava recomeçar do zero.
Não era apenas uma mudança de endereço.
Era assumir a responsabilidade por uma filial que, até poucos anos atrás, era uma das mais lucrativas do grupo e que agora acumulava resultados abaixo do esperado.
Eu tinha um objetivo muito claro.
Reerguer aquela unidade.
Fazer a empresa voltar a crescer.
E, quando tudo estivesse novamente nos trilhos, retornar para assumir meu lugar ao lado do meu pai na matriz, como sempre havia sido planejado.
Pelo menos era isso que eu dizia para todos.
No fundo, porém, aquela viagem também era uma fuga.
Ninguém, além de mim, sabia que eu carregava um sentimento que jamais deveria existir.
Um amor silencioso.
Proibido.
Um amor que nunca estaria ao alcance das minhas mãos.
Talvez a distância fosse suficiente para arrancá-la do meu coração.
Ou, ao menos, me ensinar a conviver com a ausência dela.
Assim que desembarquei, mal tive tempo de descansar.
Meu pai era um dos proprietários de uma das vinícolas mais tradicionais e respeitadas da região. Sempre que alguma unidade apresentava dificuldades, ele me enviava para descobrir a origem do problema e reorganizar toda a operação.
Foi para isso que me preparei durante anos.
Estudei administração, mercado internacional, gestão financeira e produção vitivinícola. Desde a adolescência, aquele universo despertava em mim uma curiosidade quase obsessiva. Com o tempo, a curiosidade transformou-se em paixão.
Não aceitava administrar uma empresa apenas olhando números.
Era preciso conhecer as pessoas.
Os processos. A produção.
Os detalhes que quase ninguém percebia.
Porque eram justamente eles que determinavam o sucesso ou o fracasso de um negócio.
Ainda no caminho para o hotel, enviei uma mensagem ao gerente da filial.
"Já estou na cidade. Assim que deixar minhas coisas no hotel, seguirei para a empresa. Quero reunir o financeiro e a gerência ainda hoje."
A resposta chegou poucos segundos depois.
"Perfeito, doutor Gabriel. Estaremos aguardando sua chegada." respondeu Tomás.
Entrei no quarto do hotel, deixei a mala ao lado da cama e tomei um banho rápido para aliviar o cansaço da viagem.
Vesti um terno em tons escuros, organizei alguns documentos que meu pai havia separado antes da minha partida e os coloquei na pasta de couro que sempre me acompanhava.
Ali estavam os últimos relatórios financeiros, balanços patrimoniais, índices de produtividade e comparativos de desempenho entre todas as filiais.
Os números já indicavam que havia algo errado.
Mas números contam apenas parte da história.
Eu precisava ouvir quem estava ali todos os dias.
Precisava entender por que os custos haviam aumentado, enquanto a produção diminuía.
Por que os contratos de exportação estavam sendo perdidos.
Por que clientes antigos deixaram de renovar seus pedidos.
E, principalmente...
O que estava acontecendo dentro daquela vinícola.
Antes de tomar qualquer decisão, eu precisava enxergar além das planilhas.
Por isso, a primeira reunião seria com o gerente da unidade e com o diretor financeiro.
Depois, faria questão de caminhar por cada setor da empresa.
E terminaria o dia onde tudo realmente começava.
Nos parreirais.
Porque uma boa safra nunca depende apenas da terra.
Ela começa na forma como cada detalhe é cuidado....
Tempo atual
Sete anos se passaram. A filial prosperou além das expectativas.
Os hotéis cresceram.
As vinícolas conquistaram novos mercados.
Tudo estava exatamente como eu havia prometido ao meu pai.
Já era hora de voltar.
Eu analisava alguns relatórios quando o telefone tocou.
Sorri ao ver o nome de Leonardo no visor.
— Finalmente resolveu lembrar que tem um irmão? — provoquei.
Do outro lado da linha, ele soltou uma gargalhada.
— Tenho uma notícia.
— Imagino.
— Marquei a data do casamento!
Fechei os olhos por um breve instante.
Então era oficial.
— Parabéns, Leo.
— E você não tem desculpa. Quero você aqui. Aliás... quero que seja meu padrinho.
Sorri.
— Eu estaria aí de qualquer forma.
— Sabia que podia contar com você.
A empolgação na voz dele era contagiante.
— Espera até conhecer a Aurora. Tenho certeza de que você vai gostar dela.
Aurora.
Pela primeira vez em muitos anos, ouvi seu nome sendo pronunciado em voz alta.
Meu peito se contraiu.
As lembranças voltaram como se o tempo nunca tivesse passado.
A garota da lanchonete.
O sorriso tímido. A cadeira levada até a mesa. Os dezoito anos.
A despedida silenciosa.
Respirei fundo antes de responder.
— Tenho certeza de que ela é uma mulher incrível.
— Ela é. Você vai ver.
Depois de desligar, permaneci alguns minutos olhando pela janela.
Durante todos aqueles anos, mantive meus sentimentos exatamente onde deveriam permanecer. Escondidos.
Distantes. Proibidos.
Cultivei um amor que jamais poderia existir.
E precisava continuar assim.
Porque, dentro de poucos dias, eu voltaria para casa... para ser padrinho do casamento da mulher que nunca deixei de amar.
