Capítulo 3 Capítulo 2 Gabriel
Após a última reunião, voltei ao hotel com a certeza de que havia cumprido minha missão.
A filial estava novamente nos trilhos.
Os números voltaram a crescer, os contratos foram recuperados e a equipe finalmente caminhava na mesma direção. Eu havia feito exatamente o que prometera ao meu pai anos atrás.
Agora, não existia mais motivo para permanecer ali.
Minha mala já estava pronta.
Bastava voltar para casa.
Era o que eu precisava.
Só não tinha certeza se estava preparado para isso.
Desde a ligação de Leonardo, uma saudade que eu passei anos tentando sufocar encontrou um jeito de voltar.
Aurora.
Bastou ouvir seu nome para todas as lembranças reaparecerem como se o tempo jamais tivesse passado.
O sorriso. A delicadeza.
A garota da lanchonete.
A mulher que, dentro de poucos dias, se casaria com o meu irmão.
Fechei os olhos por um instante.
Durante anos, tentei convencer a mim mesmo de que a distância seria suficiente para apagar aquele sentimento.
Não foi.
Pelo contrário.
Ela apenas me ensinou que alguns amores aprendem a viver em silêncio.
Por um momento, fui egoísta.
Desejei que ela desistisse daquele casamento.
Desejei que Leonardo encontrasse outra mulher e fosse feliz ao lado dela.
Mas esses pensamentos desapareceram tão rápido quanto surgiram.
Não.
A felicidade deles jamais poderia depender da minha dor.
Se Aurora escolheu Leonardo, eu precisava respeitar essa escolha.
Sempre precisei.
Sempre respeitei.
Respirei profundamente.
- Chega... - murmurei para mim mesmo.
Já era hora de colocar aquele sentimento de volta no único lugar onde ele deveria permanecer.
Escondido.
Intocável.
Ela seria minha cunhada.
E eu faria o que sempre fiz de melhor. Guardaria tudo para mim.
Porque, acima de qualquer desejo meu, existia uma única coisa que realmente importava.
Ver a minha florzinha feliz.
Mesmo que essa felicidade nunca fosse ao meu lado.
Passei as mãos pelo rosto, tentando afastar os pensamentos.
O trabalho sempre foi meu refúgio.
Enquanto minha mente estivesse ocupada, meu coração permaneceria em silêncio.
Soltei um longo suspiro, segurei a mala e deixei o quarto.
Ao passar pela recepção, a atendente sorriu educadamente.
- Espero que tenha tido uma boa estadia, senhor Vasconcellos.
Retribuí com aceno com discrição.
- Obrigado.
Depois de concluir o check-out, caminhei até o carro que me aguardava.
Durante todo o trajeto até o aeroporto, observei a paisagem pela janela.
Sete anos.
Foi o tempo que passei longe de casa. Sete anos tentando convencer a mim mesmo de que fiz a escolha certa.
Agora era hora de voltar.
Não avisei ninguém que estava embarcando. Queria fazer uma surpresa.
Principalmente para minha mãe.
E para minha avó Celina.
Todos os dias, sem exceção, ela encerrava nossas ligações fazendo exatamente a mesma pergunta:
- E então, meu menino... quando você volta para casa?
Sorri sozinho ao me lembrar da voz dela.
Dessa vez, eu não responderia por telefone. Em poucas horas, estaria diante dela.
E, pela primeira vez em muitos anos. Eu finalmente estaria de volta ao lugar de onde nunca deveria ter partido.
Ao sair do aeroporto, peguei um táxi e segui diretamente para a casa dos meus pais.
Seria apenas por alguns dias.
Apesar da saudade, eu precisava da minha privacidade. Já havia decidido que, assim que resolvesse algumas questões na empresa, procuraria uma casa para morar sozinho.
Talvez a distância fosse a única maneira de preservar a paz que levei anos tentando construir.
Quanto menos contato eu tivesse com Aurora... Melhor seria.
Durante o trajeto, observei a cidade pela janela.
Pouca coisa havia mudado.
As ruas continuavam as mesmas.
Era estranho perceber que, enquanto tudo permanecia igual, eu já não era o mesmo homem que havia partido sete anos antes.
O táxi parou em frente ao portão.
O segurança me reconheceu imediatamente e liberou minha entrada.
Desci do carro respirando fundo.
Estava em casa.
Antes mesmo que eu alcançasse a porta principal, meu pai surgiu na varanda.
Ele me observou por alguns segundos.
Nenhuma surpresa.
Apenas aquele olhar firme de quem sempre parecia saber exatamente o que aconteceria.
Um discreto sorriso surgiu em seus lábios.
- Seja bem-vindo de volta, meu filho.
Aproximei-me e apertei sua mão antes de puxá-lo para um breve abraço.
- Obrigado, pai.
Afastei-me e o observei.
- Como o senhor está?
- Melhor agora que você voltou.
Ele colocou uma das mãos em meu ombro.
- Venha. Tenho certeza de que sua mãe e sua avó vão ficar muito felizes em ver você.
Entramos.
Assim que minha mãe levantou os olhos e me viu na sala, levou a mão à boca.
- Gabriel...
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
No segundo seguinte, ela caminhou rapidamente até mim e me envolveu em um abraço apertado.
- Meu filho... você voltou.
Sorri, fechando os olhos por um instante.
- Voltei, mãe.
Ela acariciou meu rosto como fazia quando eu era criança.
- Você está mais magro.
Dei uma pequena risada.
- A senhora continua dizendo isso toda vez que me vê.
- Porque é verdade.
Antes que eu pudesse responder, ouvi uma voz conhecida atrás de mim.
- Eu sabia!
Virei-me a tempo de ver minha avó Celina caminhando em minha direção.
Ela abriu os braços.
- Meu menino...
Abracei-a com cuidado.
- Estava morrendo de saudades da senhora, vó.
Ela segurou meu rosto entre as mãos.
- Eu perguntava todos os dias quando você voltaria... e você nunca me dava uma resposta.
Sorri.
- Achei que seria melhor responder pessoalmente.
Ela riu, emocionada.
- Fez muito bem.
Passamos boa parte da tarde conversando.
Falamos sobre a empresa, sobre a viagem, sobre os anos que passei longe.
Pela primeira vez em muito tempo, senti que realmente estava em casa.
Já era início da noite quando a porta da frente se abriu.
- Mãe, cheguei!
Reconheci a voz de Leonardo antes mesmo de vê-lo.
Assim que entrou na sala, ele parou bruscamente.
- Gabriel?
No instante seguinte, abriu um enorme sorriso.
- Não acredito!
Atravessou a sala em poucos passos e me abraçou com força.
- Por que não avisou que chegaria hoje?
Sorri.
- Queria fazer uma surpresa.
Ele balançou a cabeça, ainda rindo.
- E conseguiu.
Afastou-se e me analisou por alguns segundos.
- Então... veio para ficar?
Assenti.
- Sim.
Olhei rapidamente para nosso pai.
- Concluí o trabalho na filial. Agora vou assumir minhas funções aqui, como combinei com o pai.
Meu pai apenas confirmou com um leve aceno.
Leonardo sorriu satisfeito.
- Finalmente.
Olhei para ele.
- E você? Pelo sorriso, imagino que tenha boas notícias.
Os olhos dele brilharam imediatamente.
- Marquei a data do casamento!
Sorri com sinceridade.
- Parabéns, irmão.
- Acabei de deixar a Aurora na casa dela.
Meu peito enrijeceu por um breve instante.
Mantive a expressão inalterada.
- Entendo.
Ele continuou animado.
- Amanhã mesmo vou trazê-la aqui. Quero apresentar vocês.
Desviei o olhar por um segundo antes de voltar a encará-lo.
Minha resposta saiu calma, exatamente como eu pretendia.
- Acho melhor deixar para o fim de semana.
Leonardo franziu a testa.
- Por quê?
- Preciso me organizar primeiro.
Olhei para meu pai.
- Ainda tenho algumas reuniões, documentos para analisar e quero entender como está a empresa antes de assumir definitivamente.
Leonardo suspirou.
- Você continua igual.
Cruzei os braços.
- Igual como?
Ele riu.
- Casado com o trabalho.
Todos na sala sorriram.
- Irmão... você precisa arrumar uma mulher.
Dei uma discreta risada.
- Esse assunto de novo?
- Claro.
Ele passou o braço pelos meus ombros.
- Não é normal alguém viver só para trabalhar.
Balancei a cabeça.
- Para mim, sempre foi suficiente.
Leonardo fez uma careta.
- Você fala isso porque ainda não encontrou a mulher certa.
Engoli em seco.
Se ele soubesse... Sequer imaginava que a mulher certa, para mim, sempre teve nome e sobrenome.
Mas jamais poderia ser minha.
Ele continuou falando, completamente alheio ao conflito que travava dentro de mim.
- Quero que você conheça logo a Aurora.
Sorriu com orgulho.
- Tenho certeza de que vocês vão se dar muito bem.
Sustentei seu olhar e forcei um discreto sorriso.
- Tenho certeza de que ela é uma mulher incrível.
Por dentro, porém, uma única certeza me acompanhava.
Conhecê-la novamente seria muito mais difícil do que permanecer sete anos longe dela...
O almoço de negócios terminou mais cedo do que eu imaginava.
A reunião havia sido produtiva. Fechamos um novo contrato para uma das vinícolas, discutimos estratégias para a próxima safra e alinhamos os investimentos que seriam feitos nos hotéis da família.
Mesmo assim, minha mente estava longe da mesa de reuniões.
Despedindo-me dos investidores, preferi caminhar um pouco antes de voltar para a empresa.
Precisava colocar os pensamentos em ordem.
Foi quando meus passos diminuíram.
Do outro lado da avenida, uma fachada chamou minha atenção.
Maison Blanche.
O ateliê mais tradicional de vestidos de noiva da cidade.
Meu olhar seguiu automaticamente para a vitrine.
E então eu a vi.
Aurora.
Ela acabava de entrar acompanhada da mãe. Meu peito apertou.
Por um instante, pensei em atravessar a rua e seguir outro caminho.
Seria o mais sensato.
Ela estava vivendo um dos momentos mais felizes da vida.
Eu não tinha o direito de interromper aquilo.
Mas minhas pernas simplesmente não obedeceram.
Sem perceber, já estava atravessando a avenida.
Parei diante da vitrine.
Lá dentro, costureiras caminhavam de um lado para o outro enquanto ajustavam tecidos e rendas.
Aurora desapareceu atrás de uma cortina.
Respirei fundo.
Vai embora, Gabriel.
Era o que minha consciência repetia.
Você não deveria estar aqui.
Mas havia uma parte de mim que precisava vê-la apenas mais uma vez.
Mesmo que fosse pela última vez.
A recepcionista sorriu ao abrir a porta.
- Boa tarde, senhor. Posso ajudá-lo?
Mantive os olhos no interior do ateliê.
- Estou esperando alguém.
Ela apenas assentiu.
Poucos minutos depois, a cortina voltou a se abrir.
E o tempo pareceu parar.
Aurora surgiu usando um vestido de noiva.
A renda desenhava delicadamente sua silhueta. O tecido caía com leveza, como se tivesse sido criado exclusivamente para ela.
O véu descia pelos cabelos, iluminados pela luz que atravessava as enormes janelas do ateliê.
Era impossível desviar o olhar.
Ela estava... Linda.
Não. Essa palavra era pequena demais.
Ela parecia exatamente como imaginei durante tantos anos.
Como tantas vezes meu coração desenhou em silêncio.
Vestida de branco.
Pronta para caminhar até o altar.
Só que aquele altar não me pertencia. Aurora sorriu diante do espelho.
Sua mãe aproximou-se devagar e ajeitou o véu sobre seus cabelos.
- Está nervosa? - perguntou Anelise, com a voz carregada de emoção.
Aurora soltou uma risada baixa.
- Um pouco.
- Isso é normal.
Ela concordou com um pequeno aceno.
Foi então que seus olhos encontraram os meus através do espelho.
Nos encaramos em silêncio.
Por alguns segundos, todo o restante desapareceu. Não existiam costureiras. Nem clientes.
Apenas nós dois.
Ela virou lentamente em minha direção.
Percebi a surpresa em seu rosto.
Era a primeira vez, em tantos anos, que realmente nos olhávamos.
Aproximei-me apenas o suficiente para não parecer invasivo.
Minhas mãos permaneceram dentro dos bolsos do paletó.
Eu precisava manter o controle.
Mas meu coração parecia disposto a desafiar tudo aquilo.
As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las.
- Você ficou exatamente como eu imaginava...
Assim que as pronunciei, percebi o erro.
Aurora franziu levemente a testa.
- Desculpe?
Sustentei seu olhar.
Havia tantas coisas que eu gostaria de dizer.
Que aquele vestido parecia ter sido feito para ela. Que, durante anos, imaginei aquele exato momento.
Que nenhum homem no mundo teria mais orgulho de vê-la entrando em uma igreja.
Mas nenhum desses pensamentos me pertencia.
Não mais. Engoli todas as palavras.
- Nada.
Minha voz voltou a soar firme.
Controlada.
Como sempre.
Deixei que um discreto sorriso surgisse apenas por educação.
- Espero que aproveite cada instante dos preparativos.
Ela continuava me observando, claramente tentando entender o que havia acontecido.
Inclinei levemente a cabeça.
- Aproveite os últimos dias antes do casamento.
Era o máximo que eu podia dizer.
Se permanecesse ali por mais alguns segundos, correria o risco de deixar transparecer tudo aquilo que passei sete anos escondendo.
Dei um passo para trás.
Depois outro.
E saí do ateliê sem olhar novamente para o reflexo dela no espelho.
Assim que a porta se fechou atrás de mim, parei na calçada.
Respirei fundo.
Pela primeira vez em muitos anos, senti meu autocontrole vacilar.
Fechei os olhos.
Ela estava pronta para se casar.
E eu precisava aceitar isso.
Mesmo que cada passo dado para longe daquele ateliê parecesse arrancar uma parte de mim.
Sem que eu soubesse...
Aquele não seria o fim da nossa história.
Seria apenas o último momento em que Aurora Monteiro vestiria um vestido de noiva acreditando que caminharia até o altar para se casar com Leonardo.
E eu teria que aceitar...
