Capítulo 4 Capítulo 3 Aurora

Alguns dias depois...

A ansiedade aumentava a cada novo amanhecer.

O casamento estava cada vez mais próximo e, aos poucos, tudo começava a tomar forma.

Meu vestido de noiva já havia sido escolhido.

Os convites estavam prontos, aguardando apenas o momento certo para serem entregues.

O buffet já estava contratado.

O espaço reservado.

As flores definidas.

Agora faltavam apenas os últimos ajustes.

Mesmo em meio à correria, havia uma lembrança que insistia em voltar à minha mente.

O dia em que encontrei o vestido perfeito.

Depois de visitar várias lojas, eu já estava começando a acreditar que nenhum vestido conseguiria transmitir exatamente o que eu sentia. Todos eram bonitos, mas nenhum fazia meu coração acelerar.

Foi então que minha mãe sorriu e disse:

- Conheço mais um lugar. É uma loja antiga, no centro da cidade. Talvez seja lá que esteja o vestido que você tanto procura.

Aceitei sem muita expectativa.

Assim que entramos no ateliê, meus olhos percorreram o ambiente até pararem em uma das vitrines internas.

E então aconteceu.

Meu olhar encontrou o vestido.

Ele estava exposto em um manequim, iluminado pela luz suave que atravessava as grandes janelas.

Meu coração acelerou.

Sorri sem perceber.

- Mãe... - murmurei, quase sem voz.

Ela acompanhou meu olhar e sorriu.

- Acho que encontramos.

Aproximei-me lentamente.

Toquei delicadamente a renda, admirando cada detalhe.

Era elegante.

Delicado.

Exatamente como eu sempre imaginei.

Olhei para a atendente.

- Posso experimentá-lo?

Ela sorriu.

- Claro.

Minutos depois, já estava diante do espelho.

Quando o vestido envolveu meu corpo, senti uma emoção difícil de explicar.

Era como se ele tivesse sido feito para mim.

Cada detalhe parecia encaixar perfeitamente.

Respirei fundo.

Sorri para meu próprio reflexo.

Era aquele.

Não existia mais nenhuma dúvida.

Saí do provador.

A primeira pessoa que procurei foi minha mãe.

Seus olhos estavam marejados.

Ela levou as mãos à boca, emocionada.

- Minha filha...

Sua voz falhou.

- Você está linda.

Sorri, sentindo meus próprios olhos se encherem de lágrimas.

A costureira aproximou-se logo em seguida.

- Vamos fazer apenas alguns ajustes para que ele fique perfeito no seu corpo.

Assenti.

Enquanto ela marcava a barra e ajustava alguns detalhes da renda, senti um estranho arrepio percorrer minha nuca.

Levantei os olhos para o espelho.

Foi então que o vi.

Um homem permanecia parado próximo à entrada do ateliê.

Alto.

Elegante.

Vestido com um terno escuro impecável.

Nossos olhares se encontraram através do reflexo.

Não consegui desviar.

Havia algo na forma como ele me observava.

Não era curiosidade.

Muito menos admiração comum.

Parecia... Saudade.

Como se ele estivesse revendo alguém que havia procurado durante muito tempo.

Senti meu coração acelerar sem entender o motivo.

Então ele falou.

- Você ficou exatamente como eu imaginava.

Franzi levemente a testa.

Por um instante, tive a estranha sensação de que ele me conhecia muito mais do que deveria.

Mas eu não conseguia me lembrar de onde.

Nem quando.

Nem como.

- Desculpe? - perguntei, confusa.

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois apenas respondeu:

- Nada.

Seu semblante voltou a ser tão sério quanto antes.

- Aproveite os últimos dias antes do casamento.

E foi embora.

Continuei olhando para a porta por alguns instantes, tentando entender aquele encontro.

Por mais que eu insistisse em lembrar, tinha certeza de que nunca o havia visto antes.

Ainda assim... Algo naquele homem despertava uma sensação estranhamente familiar.

Balancei a cabeça, afastando aqueles pensamentos.

A costureira terminou os últimos ajustes, e, pouco depois, deixei o ateliê levando comigo o vestido dos meus sonhos.

Depois daquele dia, os preparativos ficaram ainda mais intensos.

Leonardo, como sempre, fazia de tudo para arrancar de mim algum detalhe sobre o vestido.

- Só uma dica... - insistia ele, quase todos os dias.

Eu ria.

- Nem pensar.

- A cor, pelo menos?

Cruzei os braços, fingindo pensar.

- Acho que vai ser... branca.

Ele levou a mão ao peito dramaticamente.

- Aurora, assim você acaba com todas as surpresas.

Caí na risada.

- Vai ter que esperar até o casamento, senhor curioso.

Ele resmungava, mas logo acabava rindo junto comigo.

Era impossível não sorrir ao lado dele.

Naquela mesma semana, fomos convidados para jantar na casa dos Vasconcellos.

Leonardo comentou que o irmão finalmente havia voltado para assumir seu lugar na empresa da família.

- Quero que vocês se conheçam logo - disse ele enquanto dirigíamos. - O Gabriel passou muitos anos fora por causa da filial. Desde que voltou, está completamente envolvido com o trabalho, mas hoje não tem desculpa.

Sorri.

Confesso que também estava curiosa.

Estava terminando de me arrumar quando ouvi algumas batidas suaves na porta. Antes mesmo que eu pudesse responder, minha mãe colocou apenas a cabeça para dentro do quarto.

- Filha! Já estamos em cima da hora!

Olhei meu reflexo pela última vez no espelho. Passei delicadamente o perfume pelos pulsos e pescoço, tentando controlar a ansiedade que apertava meu peito.

- Já estou finalizando, mãe!

Soltei um longo suspiro.

Finalmente estava pronta.

Peguei minha bolsa e desci as escadas. Encontrei meus pais conversando na sala, já vestidos para o jantar.

- Já podemos ir! - sorri, embora minhas mãos estivessem geladas. - Estou me sentindo nervosa... Parece até a primeira vez que vou jantar na casa dos meus sogros.

Meu pai sorriu divertido.

- E é bom esse nervosismo. Significa que você se importa com eles. Agora vamos, ou seu noivo vai achar que desistimos de aparecer.

Minha mãe riu discretamente.

- Seu pai tem razão. Hoje é uma noite importante.

Respirei fundo e apenas concordei.

Saímos de casa.

O caminho até a mansão dos Vasconcellos foi tranquilo, mas, quanto mais nos aproximávamos, mais meu coração acelerava. Era estranho... eu já conhecia aquela casa havia anos, mas naquela noite tudo parecia diferente.

Os portões foram abertos imediatamente.

Assim que o carro parou, fomos recebidos por Otávio e Branca Vasconcellos com a elegância de sempre.

- Sejam muito bem-vindos! - meu sogro cumprimentou meu pai com um aperto de mão firme.

- É um prazer recebê-los novamente - acrescentou minha sogra, abraçando minha mãe com carinho.

Logo senti braços conhecidos me envolvendo.

- Minha querida! - dona Celina me abraçou demoradamente. - Como você está linda...

Sorri emocionada.

- Obrigada, senhora Celina.

Mas, quando me afastei, notei algo estranho.

O sorriso dela não alcançava os olhos.

Ela parecia inquieta.

Como se carregasse um peso enorme sobre os ombros.

Antes que eu pudesse perguntar se estava tudo bem, fui puxada delicadamente pela cintura.

- Finalmente você chegou...

Leo.

Ele depositou um beijo casto em meus lábios, fazendo meu coração se acalmar por alguns segundos.

- Você está maravilhosa.

Sorri.

- Obrigada.

- Eu queria ter ido buscá-la, mas você insistiu que viria com seus pais.

- Não fazia sentido você sair e depois voltar para cá.

Ele riu.

- Eu sei... mas queria qualquer desculpa para ficar mais tempo com você.

Revirei os olhos, divertida.

- Você é impossível.

- Completamente apaixonado.

Meus pais riram da resposta dele.

- Isso nós já percebemos faz tempo. - meu pai comentou.

O ambiente ficou leve... por poucos segundos.

Porque, naquele instante, ouvi passos atrás de nós.

- Gabriel, finalmente resolveu aparecer! - Leo falou animado.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Levantei lentamente os olhos.

E o reconheci no mesmo instante.

Era ele.

O homem do ateliê de vestidos de noiva.

O mesmo olhar intenso. A mesma postura impecável.

O mesmo semblante sério.

Meu coração falhou uma batida.

Leo sorriu completamente alheio ao que acontecia.

- Irmão, quero te apresentar oficialmente minha noiva!

Olhei rapidamente para Gabriel.

Ele não demonstrava surpresa.

Como se já soubesse exatamente quem eu era.

- Amor... este é meu irmão, Gabriel Vasconcellos.

Léo passou o braço pelos meus ombros.

- Gabriel, pode admitir... fui o irmão que teve mais sorte. Conquistei a mulher mais linda do mundo.

O silêncio durou alguns segundos.

Longos demais.

Então Gabriel estendeu a mão.

Seu rosto permanecia impassível.

- É um prazer conhecê-la, Aurora. Meu irmão fala muito bem de você.

Respirei fundo antes de aceitar o cumprimento.

- O prazer é meu, Gabriel. O Leo também fala bastante de você... e disse que ficou muito feliz com seu retorno.

No instante em que nossas mãos se tocaram... Um arrepio percorreu minha espinha.

Foi rápido.

Intenso.

Inexplicável.

Por uma fração de segundo, seus dedos permaneceram sobre os meus mais tempo do que deveriam.

Então ele soltou minha mão.

Sem desviar os olhos dos meus.

Aquele homem de poucas palavras... E de um olhar que parecia esconder uma história inteira.

Quem realmente era Gabriel Vasconcellos?

Por que parecia me observar como se já me conhecesse?

Como se estivesse tentando decifrar algo que apenas ele sabia.

Fomos interrompidos quando meu sogro convidou todos para entrar.

Seguimos para a sala principal.

Leo foi buscar uma bebida para mim enquanto todos começavam a conversar.

Sentei-me tentando parecer tranquila.

Mas era impossível.

Mesmo conversando com outras pessoas, Gabriel continuava me observando discretamente.

Não era descarado.

Era pior.

Era um olhar silencioso.

Analítico.

Quase doloroso.

Será que ele já me conhecia?

Ou eu estava imaginando coisas?

Fui desperta quando Leo colocou um copo de suco em minhas mãos.

- Está tudo bem, meu amor?

Forcei um sorriso antes de beber um gole.

- Está sim, meu lindo.

Ele beijou minha testa.

- Tem certeza?

- Tenho.

Mentira. Eu não tinha certeza de absolutamente nada.

Logo os homens iniciaram uma conversa mais formal.

Meu pai se aproximou de Gabriel, de Leo e do meu sogro.

- Então você é o famoso Gabriel. Finalmente nos conhecemos. O Leonardo sempre comenta sobre o irmão mais velho.

Gabriel assentiu educadamente.

- Espero que apenas coisas boas.

Meu pai sorriu.

- Pelo contrário. Diz que você é exigente demais nos negócios.

Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios de Gabriel.

- Talvez ele tenha razão.

Meu sogro resolveu entrar na conversa.

- Gabriel sempre foi mais reservado. Mas é um homem de palavra.

- Imagino. - meu pai respondeu. - O Leonardo sempre fala do quanto admira o irmão.

Leo passou o braço sobre os ombros de Gabriel.

- Sempre foi meu exemplo.

Gabriel permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Então voltou o olhar para mim antes de responder.

- Nem sempre os exemplos são aquilo que parecem.

O comentário fez um silêncio estranho cair sobre a sala.

Meu pai franziu discretamente a testa.

- Como assim?

Gabriel sustentou meu olhar por apenas mais um segundo.

- Nada... apenas uma maneira diferente de enxergar a vida.

Meu sogro mudou rapidamente de assunto.

- Vamos deixar as conversas sérias para depois. Hoje estamos reunidos para celebrar sua chegada meu filho.

Mas a tensão permaneceu no ar.

Enquanto isso, minha sogra aproximou-se de mim e segurou delicadamente minha mão.

- E como você está se sentindo, minha filha? Nervosa com os preparativos do casamento?

Sorri.

- Não vou negar... bastante. Mas o Leo consegue me deixar tranquila.

Ela acariciou meus dedos.

- Ele sempre teve esse jeito.

Antes que eu pudesse continuar, dona Celina, que até então permanecia em silêncio observando tudo ao redor, finalmente falou.

Sua voz saiu baixa.

Cuidadosa.

Como se cada palavra tivesse um peso enorme.

- Aurora...

Olhei para ela.

Ela me encarava com uma intensidade diferente. Quase triste.

- Você o ama?

A pergunta caiu sobre a sala como uma pedra.

Meu sorriso desapareceu.

Olhei rapidamente para Leo.

Depois para meus pais.

Ninguém pareceu entender por que aquela pergunta havia sido feita justamente naquele momento.

Exceto uma pessoa.

Gabriel.

Quando nossos olhares se encontraram novamente... Tive a estranha sensação de que ele já sabia qual seria a minha resposta....

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