Capítulo 5 Capítulo 4 Gabriel
Eu estava fazendo de tudo para não encontrá-la outra vez.
Parecia absurdo.
Depois de sete anos longe, bastou vê-la por alguns minutos naquele ateliê para perceber que toda a distância havia sido inútil.
Nada tinha mudado.
Ou melhor... Os anos apenas transformaram uma paixão silenciosa em um sentimento ainda mais difícil de controlar.
Desde que voltei, Leonardo não falava de outra coisa além do casamento.
Era compreensível. Ele estava feliz.
Ansioso.
Contava os dias para subir ao altar.
E eu o ouvia. Porque era isso que um irmão faria.
Mesmo que, a cada nova conversa, uma parte de mim precisasse aprender a suportar a própria dor.
- Você precisava ver a expressão dela quando escolheu o vestido... - disse ele, completamente empolgado.
Forcei um discreto sorriso.
- Imagino que ela tenha ficado feliz.
- Feliz? Ela estava radiante.
Apenas assenti.
Em silêncio.
Ele continuou falando sobre a decoração, os convites, as flores, o buffet... Eu respondia apenas quando era necessário.
Quanto menos eu comentasse, menores eram as chances de minha expressão me denunciar.
Mas então ele mudou de assunto.
- Ah... e a lua de mel.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
- Encontramos um lugar incrível.
Continuei olhando alguns documentos sobre a mesa, fingindo interesse nas planilhas à minha frente.
- É mesmo?
- Uma praia praticamente deserta. Um resort maravilhoso. Vamos passar um mês inteiro lá.
Minha mão apertou a caneta com tanta força que senti os dedos embranquecerem.
Um mês.
Sozinhos.
Ele continuava descrevendo cada detalhe.
Falava sobre o mar cristalino.
Os bangalôs. Os passeios. Os jantares à luz de velas.
E tudo o que consegui pensar foi que aquelas lembranças seriam deles.
Não minhas.
Senti algo estranho crescer dentro de mim. Uma raiva silenciosa.
Não dele. Nunca dele.
Mas da situação.
Do destino.
Da vida.
Quis interrompê-lo.
Dizer que já era o suficiente.
Que eu não precisava conhecer cada detalhe da felicidade que ele construiria ao lado da mulher que eu amava.
Mas permaneci em silêncio.
Leonardo não fazia ideia.
Para ele, eu era apenas o irmão mais velho. O homem que sempre o apoiou.
Que sempre esteve ao seu lado.
E eu jamais permitiria que ele carregasse a culpa por um sentimento que era exclusivamente meu.
Respirei fundo, tentando recuperar o controle.
- Fico feliz por vocês, Leo.
As palavras saíram firmes.
Controladas. Como tudo na minha vida.
Ele abriu um sorriso sincero.
- Eu sabia que você gostaria da ideia.
Baixei os olhos por um instante.
Não.
Eu não tinha gostado.
Cada detalhe que ele compartilhava era como uma lembrança do lugar que nunca seria meu.
Mas aquilo não importava.
Porque, no fim, existia apenas uma verdade.
Aurora o amava. E Leonardo a amava da mesma forma.
Isso deveria bastar.
Precisava bastar.
Engoli o peso que insistia em permanecer preso na garganta e fechei a pasta sobre a mesa.
Chega.
Eu não precisava conhecer todos os detalhes da vida que eles construiriam juntos.
Já era difícil o suficiente saber que, dentro de poucos dias...
Ela deixaria de ser apenas Aurora.
E se tornaria, oficialmente... A esposa do meu irmão.
Minha mãe havia me enviado uma mensagem mais cedo avisando que tinha convidado Aurora e os pais dela para jantarem em casa.
Eu sabia que esse momento chegaria. Era inevitável.
Mais cedo ou mais tarde, eu precisaria encará-la novamente.
Não tinha certeza se estava preparado.
Mas, acima de qualquer sentimento que existisse dentro de mim, havia uma decisão que eu já havia tomado há muitos anos.
Eu apoiaria meu irmão.
Mesmo que isso significasse assistir à mulher que eu amava caminhar até o altar para se casar com outro.
O expediente já estava chegando ao fim quando ouvi algumas batidas na porta da minha sala.
- Entre.
Meu pai entrou e fechou a porta atrás de si.
Parei imediatamente o que estava fazendo.
Conhecia aquele olhar.
Ele parecia procurar as palavras certas antes de começar qualquer conversa.
Cruzei os braços.
- Aconteceu alguma coisa, pai?
Ele respirou fundo antes de responder.
- Não... só vim avisar que hoje a Aurora e os pais dela vão jantar lá em casa.
Assenti calmamente.
- Minha mãe já havia me mandado uma mensagem.
Um breve silêncio tomou conta da sala. Meu pai continuava parado à minha frente.
Como se ainda houvesse algo que precisasse dizer.
- Tem mais alguma coisa?
Ele desviou o olhar por um instante.
- Espero que você entenda a situação.
Franzi levemente a testa.
- Que situação?
- Seu irmão ama a Aurora.
Sustentei seu olhar sem dizer uma palavra.
Ele continuou.
- Eu espero que isso não traga problemas.
Aquelas palavras acertaram em cheio a pouca tranquilidade que eu ainda mantinha.
Endireitei a postura.
Minha voz permaneceu calma.
Controlada.
Exatamente como sempre.
- Não precisa repetir isso, pai.
Ele permaneceu em silêncio.
- Fui eu quem abriu mão do acordo. Fui eu quem disse que ela deveria ter o direito de escolher o próprio caminho. A única coisa que eu jamais imaginei... Foi que o senhor mudaria o acordo e colocaria o Leonardo no meu lugar.
Meu pai fechou os olhos por um breve instante.
- Você sabe que eu não podia simplesmente quebrar aquele acordo.
Balancei a cabeça lentamente.
- Não. O senhor podia. Só não quis.
Ele respirou fundo.
- Você abriu mão dela.
- Sim.
Minha voz saiu firme.
- Eu abri mão porque ela ainda era uma menina. Porque nunca quis que crescesse carregando o peso de uma promessa feita antes mesmo de nascer.
Aproximei-me da janela.
Mantive os olhos voltados para a cidade.
- Mas o senhor escolheu outro caminho.
Silêncio.
- Preferiu colocar o Leonardo dentro de uma história que nunca deveria ter sido dele.
Meu pai caminhou até ficar ao meu lado.
- Eu queria proteger vocês dois.
Soltei uma breve risada, sem qualquer humor.
- E conseguiu exatamente o contrário. Protegeu ninguém. Feriu todos nós.
As palavras ficaram suspensas entre nós.
Meu pai passou a mão pelo rosto, demonstrando um cansaço que eu raramente via.
- Meu maior medo sempre foi perder meus filhos.
Virei-me lentamente para encará-lo.
- E agora o seu medo é que eu atrapalhe esse casamento?
Ele não respondeu.
Não precisava.
A resposta estava estampada em seu silêncio.
Respirei profundamente.
Contive toda a revolta que ameaçava escapar.
Quando voltei a falar, minha voz saiu baixa, mas carregada de uma sinceridade impossível de esconder.
- Escute uma coisa, pai. Eu jamais faria isso com o Leonardo. Jamais.
Ele é meu irmão. Eu o amo.
E nunca transformaria a felicidade dele em motivo para alimentar a minha dor.
Fiz uma breve pausa antes de continuar.
- Se for preciso abrir mão da mulher da minha vida para vê-la feliz... eu farei isso. Mesmo que essa escolha me destrua todos os dias.
Meu pai abaixou a cabeça.
Pela primeira vez, parecia não encontrar nenhuma resposta.
Nesse instante, algumas batidas interromperam o silêncio.
A porta se abriu lentamente.
- Estou atrapalhando?
A voz suave da minha avó Celina fez nós dois voltarmos a atenção para a entrada.
Ela nos observava atentamente.
Seu semblante tranquilo não conseguia esconder a preocupação em seus olhos.
Respirei fundo, afastando qualquer vestígio da conversa.
- Claro que não, vó.
Abri um pequeno sorriso e caminhei até ela.
Inclinei-me para abraçá-la.
- Aconteceu alguma coisa?
Ela acariciou meu rosto com o mesmo carinho de sempre.
- Não aconteceu nada, meu filho.
Sorriu de maneira serena.
- Passei apenas para conversar com seu pai.
Olhou rapidamente para ele.
- Não sabia que ele estava aqui.
Sorri discretamente.
- A senhora aceita um café? Ou um suco?
Ela balançou a cabeça em negativa.
- Não precisa, meu menino. Passei só para deixar um beijo e roubar seu pai por alguns minutos.
Meu pai respirou fundo, como se agradecesse silenciosamente pela interrupção.
- Vamos para minha sala, mãe.
Ela apenas assentiu.
Antes de sair, voltou-se para mim.
Seu olhar permaneceu sobre o meu por alguns segundos.
Parecia que ela conseguia enxergar exatamente o que eu tentava esconder de todos.
Sorriu com ternura.
- Te vejo em casa, meu menino! Não demore muito.
Assenti com a cabeça.
Assim que os dois deixaram a sala, o silêncio voltou a tomar conta do ambiente.
Fechei a porta lentamente.
Caminhei até minha mesa e me sentei na cadeira.
Passei as mãos pelo rosto e soltei um longo suspiro.
Era desnecessário tocar naquele assunto. Eu conhecia as consequências de cada escolha feita anos atrás.
Sabia exatamente o que estava em jogo. Mas havia uma única certeza que nunca mudaria.
Eu jamais faria qualquer coisa capaz de tirar o sorriso de Aurora.
Nunca.
Nem mesmo se, para isso. Eu precisasse assistir, em silêncio, ao casamento da mulher que sempre foi dona do meu coração.
Após encerrar meu expediente, sigo para casa, mas a conversa que tive com meu pai continua ecoando em minha mente como um aviso impossível de ignorar.
Gabriel... você precisa ser forte. Logo não terá mais que conviver diariamente com seu irmão e sua cunhada.
Fecho os olhos por um instante enquanto dirijo, tentando afastar aquelas palavras.
É isso que eu espero... - meu subconsciente responde, embora meu coração se recuse a acreditar.
Ao chegar em casa, vou direto para o meu quarto. Tranco a porta e espalho sobre a mesa alguns documentos que trouxe da empresa. Tento mergulhar no trabalho para ocupar a mente, mas cada assinatura, cada relatório e cada número acabam me levando novamente ao mesmo pensamento... Aurora.
Depois de concluir tudo, tomo um banho demorado, deixando a água escorrer pelo corpo na esperança de aliviar a tensão que se acumulava em meus ombros. Quando termino, visto uma roupa confortável e resolvo descer antes que minha mãe apareça para repetir seu sermão de sempre sobre não levar trabalho para casa.
Assim que saio da escada, a campainha toca.
Eles haviam chegado.
Meu peito aperta no mesmo instante em que meus olhos encontram Aurora. Preciso reunir toda a força que ainda me resta para não atravessar a sala e puxá-la para um abraço. O simples fato de vê-la sorrindo já era suficiente para desestabilizar todo o autocontrole que passei anos construindo.
Respiro fundo.
Cumprimento a todos com a educação de sempre e, quando estendo a mão para Aurora, nossos dedos se tocam por apenas um segundo.
Foi o bastante.
Um arrepio percorre todo o meu corpo, da ponta dos dedos até a nuca, fazendo meu coração acelerar de forma absurda.
Isso deve ser coisa da minha cabeça... tento me convencer, retirando a mão antes que alguém perceba meu desconforto.
Logo a conversa flui naturalmente entre as famílias, até que minha avó Celina quebra o clima com uma pergunta completamente inesperada.
- Aurora... você o ama?
O silêncio toma conta da sala.
Por um breve e egoísta segundo, desejei ouvir sair da boca dela apenas uma palavra.
Não.
Aurora arregala levemente os olhos, claramente surpresa com a pergunta. Ela encara os próprios pais, como se buscasse alguma explicação, e então seus olhos encontram os meus.
Havia insegurança naquele olhar...
Quase um pedido silencioso de ajuda.
Antes que ela pudesse responder, Leonardo tomou a frente.
- Vó, é claro que ela me ama!
- Leonardo... - minha avó o interrompe com firmeza. - Eu fiz a pergunta para a sua noiva. Então deixe que ela responda.
Seu tom era calmo, mas carregava uma autoridade que fez até Leonardo se calar.
Naquele instante tive certeza de que havia alguma coisa acontecendo.
Minha avó jamais faria uma pergunta como aquela sem motivo.
Olho discretamente para minha mãe em busca de alguma resposta, mas ela apenas balança a cabeça de um lado para o outro, demonstrando que também não fazia ideia do que minha avó pretendia.
Aurora inspira profundamente antes de finalmente encontrar a voz.
- Eu gosto muito do Leo, mas por que a senhora está fazendo essa pergunta?
Sua resposta veio acompanhada de uma curiosidade evidente, mas também de um certo receio, como se pressentisse que aquela simples pergunta pudesse mudar o rumo daquela noite.
Minha avó sustentou o olhar dela por alguns segundos.
Então respirou fundo.
- Porque eu sou contra esse casamento.
A declaração caiu sobre a sala como uma bomba.
O silêncio foi absoluto.
Minha mãe levou a mão à boca, completamente surpresa. Leonardo encarou a avó sem acreditar no que havia acabado de ouvir. Os pais de Aurora trocaram olhares confusos.
Todos estavam em choque.
Todos... Menos meu pai.
E esse detalhe fez um alerta soar imediatamente dentro de mim.
Aurora foi a primeira a quebrar o silêncio.
- Por que a senhora está dizendo isso? Acha que eu não sou boa o bastante para o seu neto? - perguntou, visivelmente abalada, tentando compreender o motivo daquela rejeição inesperada.
E não sabia se iria gostar da resposta da minha avó....
