Capítulo 6 Capítulo 5 Aurora

Quando aceitei o convite para aquele jantar, imaginei que seria apenas uma comemoração pela volta do irmão de Leo. Nada além de uma reunião em família para celebrar mais um momento importante antes do nosso casamento.

Mas, desde o instante em que entrei naquela casa, algo parecia diferente.

Havia um peso no ar.

Os sorrisos pareciam contidos, os olhares carregavam perguntas silenciosas, e dona Celina estava estranhamente calada. Ela me observava de um jeito que eu nunca tinha visto antes, como se estivesse tentando encontrar coragem para dizer alguma coisa.

Então veio a pergunta.

Aurora... você o ama?

Naquele momento, senti meu coração falhar por um segundo.

Não fazia sentido.

Eu e Leo estávamos juntos havia anos. Nosso noivado havia sido oficializado diante das duas famílias e, em pouco tempo, nos casaríamos.

Então por que aquela pergunta?

E, pior... Por que, de repente, ela declarou ser contra o nosso casamento?

Meu peito se apertou com tanta força que respirar se tornou difícil por alguns segundos. Mesmo assim, fiz de tudo para esconder o turbilhão que crescia dentro de mim. Não queria demonstrar meu nervosismo diante de todos.

Eu só precisava entender.

Respirei fundo e, reunindo toda a coragem que ainda me restava, refiz a pergunta.

- Por que a senhora é contra o nosso casamento? Por acaso eu fiz alguma coisa que a senhora não gostou? A senhora sabe de algo, que possa impedir o nosso casamento?

Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria, denunciando o medo que tentava esconder.

Meu coração parecia estar nas mãos daquela mulher.

E, pela primeira vez, tive medo da resposta que ela poderia me dar.

Dona Celina se aproximou lentamente. Com um gesto delicado, segurou minha mão entre as dela e levantou o rosto até encontrar meus olhos.

Havia tristeza em seu olhar.

Uma tristeza profunda, como se ela carregasse um segredo pesado demais para continuar escondendo.

Antes que ela pudesse responder, Leo voltou a falar.

- Vó, por que a senhora está dizendo essas coisas? Se até hoje mais cedo a senhora estava feliz com a chegada do meu casamento...

A voz dele carregava confusão e incredulidade.

Dona Celina voltou o olhar para o neto e seus olhos se encheram de carinho.

- Meu menino, você sabe o quanto eu amo você e o seu irmão. Vocês dois são tudo para mim.

Ela fez uma breve pausa, respirando profundamente, como se cada palavra seguinte lhe causasse dor.

Então continuou:

- Mas essa mentira, não pode ir adiante.

Meu coração disparou.

Senti minhas mãos ficarem geladas enquanto um frio percorria minha espinha.

Mentira?

Do que ela estava falando?

Olhei rapidamente para Leo, depois para Gabriel, para os meus pais, para os pais dele... Ninguém dizia uma única palavra.

O silêncio daquela sala era sufocante.

E, pela primeira vez desde que cheguei, tive a terrível sensação de que minha vida estava prestes a mudar para sempre.

- Mentira? Do que a senhora está falando? - perguntei, sentindo a insegurança tomar conta de mim. Minha voz saiu trêmula, enquanto um medo inexplicável se instalava dentro do meu peito.

Antes que dona Celina pudesse responder, Gabriel deu alguns passos à frente.

- Vó... vamos conversar.

Seu tom era calmo, mas havia urgência em cada palavra.

Dona Celina voltou o olhar para ele, e sua expressão ficou ainda mais séria. Lentamente, ela soltou minha mão e segurou a de Gabriel com carinho.

- Você não precisa fazer isso, meu filho.

As palavras dela fizeram Gabriel enrijecer a postura. Seu maxilar se contraiu, e por um instante seus olhos revelaram uma dor que eu não consegui compreender.

Era como se ele soubesse exatamente do que ela estava falando.

Como se aquele segredo não fosse novidade para ele.

- Vó... por favor. Venha comigo. Vamos conversar. - Gabriel insistiu mais uma vez, tentando conter a situação antes que ela saísse do controle.

Mas dona Celina permaneceu imóvel.

Ela não deu um único passo.

Em vez disso, desviou o olhar para o filho.

Sua expressão agora era de pura decepção.

- Você quer esclarecer tudo, ou prefere que eu mesma faça isso?

Meu sogro fechou os olhos com força, como se tentasse reunir coragem para enfrentar o inevitável. Quando voltou a encará-la, seu semblante estava pesado, claramente incomodado.

- Mãe, agora não. Depois conversamos. Tenho certeza de que a senhora vai entender.

Meu coração disparou.

Aquilo já havia deixado de ser uma simples discussão familiar.

Eles estavam escondendo alguma coisa.

E todos pareciam saber menos eu.

Voltei meu olhar para Leonardo.

- O que está acontecendo, Leonardo? - perguntei, incapaz de esconder a irritação que crescia dentro de mim. Só de imaginar que alguém pudesse estar mentindo para mim, meu estômago se revirava.

Ele deu um passo em minha direção, tentando segurar minhas mãos.

- Calma, meu amor. É melhor eu levar você para casa.

A maneira como ele falou. O jeito como evitava olhar diretamente para mim.

Tudo me fazia acreditar que ele sabia exatamente o motivo da atitude da avó.

No instante em que seus dedos tocaram minha mão, afastei-me imediatamente.

- Você sabe do que se trata e não vai me contar? - Minha voz falhou por um segundo, tomada pela indignação. - É assim que um casamento começa? Com mentiras?

O silêncio que se seguiu foi sufocante.

Meu pai quebrou aquele clima pesado ao encarar Otávio.

- Otávio o que está acontecendo? Por que sua mãe é contra o casamento da minha filha?

Meu sogro respirou fundo antes de responder, tentando manter a aparência de tranquilidade.

- Não é nada. Minha mãe está fazendo uma confusão.

Assim que aquelas palavras saíram de sua boca, vi o rosto de dona Celina se transformar.

Sua expressão endureceu.

Os olhos, antes marejados, agora queimavam de indignação.

Ela respirou fundo e ergueu a cabeça.

- Agora você também vai dizer que estou ficando louca?

Sua voz ecoou pela sala.

Ninguém teve coragem de interrompê-la.

Então ela olhou diretamente para mim.

- A verdade é que a menina Aurora é a prometida do Gabriel, e não do Leonardo.

O mundo pareceu parar.

Meu coração simplesmente esqueceu de bater.

- Otávio escondeu isso de todos desde o começo.

As palavras dela atingiram cada pessoa naquela sala como uma explosão.

Senti minhas pernas perderem completamente a força.

Sem perceber, acabei me sentando no sofá, incapaz de continuar em pé.

Minha mente se recusava a aceitar o que havia acabado de ouvir.

Prometida do Gabriel?

Não.

Aquilo não podia ser verdade.

Não fazia sentido.

Meu olhar percorreu a sala em busca de alguma reação que desmentisse tudo aquilo, mas o silêncio dos presentes dizia muito mais do que qualquer palavra.

Leonardo foi o primeiro a reagir.

Deu um passo à frente, completamente tomado pela revolta.

- Vó! Eu amo a Aurora! A senhora não pode falar uma bobagem dessas agora!

Sua voz saiu carregada de irritação, mas, pela primeira vez desde que o conhecia, consegui perceber algo além da raiva.

Havia medo.

Um medo desesperado de que aquela verdade destruísse tudo o que ele havia construído.

- Leonardo, você sabia desde o começo? - A voz da senhora Celina tremia de indignação. - É por isso que fica dizendo que ama a Aurora? A verdade é que ela sempre foi prometida ao Gabriel, e não a você. Então seja homem e diga a verdade!

O silêncio que tomou conta da sala foi sufocante.

Ninguém teve coragem de responder.

Olhei para Leonardo esperando que ele negasse tudo, que dissesse que aquela história era um grande mal-entendido.

Mas ele permaneceu calado.

E aquele silêncio doía muito mais do que qualquer resposta.

Senti minhas forças desaparecerem.

Olhei para o meu pai.

- Pai, eu quero ir para casa.

Minha voz saiu baixa, completamente esgotada.

- Eu a levo. Preci...

Nem deixei que ele terminasse.

- Não. Eu preciso ficar sozinha. Não queria ouvir mais nada.

Não suportaria descobrir outra mentira naquela noite.

Saí daquela sala o mais rápido que consegui. Assim que cheguei perto do carro, parei por alguns segundos e finalmente soltei o ar que estava preso em meus pulmões.

Parecia que eu havia passado todo aquele tempo sem conseguir respirar.

Minha mãe se aproximou em silêncio, segurando minha mão com carinho.

- Filha, respira fundo. Tudo vai se resolver.

Olhei para ela com os olhos marejados e apenas fiz um pequeno gesto afirmativo com a cabeça.

Eu queria acreditar naquelas palavras. Mas, naquele momento...

Nada parecia ter solução.

O caminho até em casa aconteceu em completo silêncio.

Enquanto observava a estrada pela janela, cada lembrança que havia construído ao lado de Leonardo passava diante dos meus olhos.

Os encontros. As promessas.

O pedido de casamento.

Os planos para o futuro.

Tudo parecia, de repente, uma mentira cuidadosamente construída.

Já não bastava ter crescido acreditando que um dia me casaria com um homem que nunca escolhi.

Com o tempo, aprendi a gostar de Leonardo. Aprendi a imaginar uma vida ao lado dele. E agora descobrir que eu sequer era a prometida dele... Aquilo me deixava completamente perdida.

Fechei os olhos, tentando conter as lágrimas que insistiam em cair.

Por quê, Leonardo?

Por que você mentiu para mim durante todo esse tempo?

Assim que chegamos em casa, subi direto para o meu quarto.

Fechei a porta atrás de mim e meu olhar encontrou imediatamente o vestido de noiva.

Ele permanecia pendurado, cuidadosamente protegido pela capa de tecido, aguardando o dia em que eu caminharia até o altar.

Meu peito apertou.

Aquele vestido, que até poucas horas atrás representava um sonho, agora parecia apenas o símbolo de uma mentira.

Não sabia mais o que pensar.

Não sabia mais em quem acreditar.

As lágrimas finalmente venceram.

Escorreram pelo meu rosto sem que eu tivesse forças para contê-las.

Alguns minutos depois, fui despertada dos meus pensamentos pelo som de leves batidas na porta.

Respirei fundo antes de abrir.

Minha mãe entrou devagar e fechou a porta atrás de si.

Ela se aproximou e segurou minhas mãos.

- Filha, eu nem sei o que dizer. Nós sempre acreditamos que Leonardo era o homem prometido para você. Nunca imaginamos que existisse outro acordo. Mas quero que saiba de uma coisa. Você não é obrigada a se casar com Leonardo.

Seus olhos se encheram de determinação.

- E muito menos com Gabriel. Foram eles que esconderam a verdade e quebraram o acordo.

Balancei a cabeça lentamente.

- Eu não sei nem o que pensar, mãe. Quantas oportunidades o Leonardo teve para me contar a verdade e, mesmo assim, escolheu esconder tudo de mim.

Minha mãe acariciou meu rosto.

- Não se preocupe, filha. Vou preparar um lanche para você. Tente descansar um pouco. Amanhã resolveremos tudo.

Assenti, embora soubesse que dormir seria impossível.

Antes que pudéssemos continuar a conversa, vozes alteradas vindas da sala chamaram nossa atenção.

Meu coração acelerou.

Minha mãe e eu trocamos um olhar e saímos rapidamente do quarto.

Ao chegarmos à sala, encontramos Leonardo discutindo com meu pai.

O clima era tenso.

Nunca imaginei vê-los daquela forma.

- Se a Aurora não se casar comigo, o acordo será quebrado e vocês perderão tudo.

A ameaça fez meu sangue gelar.

- O que você está falando, Leonardo? - perguntei, caminhando lentamente até eles.

Quando Leonardo virou o rosto em minha direção, levei um choque.

Havia fúria estampada em sua expressão.

Uma frieza que eu jamais tinha visto.

Parecia um completo estranho.

- Estou dizendo que, se você não se casar comigo, vou exigir que o acordo seja cumprido. Sua família perderá todos os bens.

Ele deu mais um passo.

- Vocês ficarão na miséria.

Senti o nojo tomar conta de mim.

Aproximei-me dele sem desviar o olhar.

Pela primeira vez, enxergava quem Leonardo realmente era.

Toda a máscara havia caído.

- Então faça valer o acordo.

Minha voz saiu firme, apesar das lágrimas que queimavam meus olhos.

- Porque eu me recuso a me casar com um homem que se aproveita da fragilidade das pessoas para tirar vantagem delas.

Respirei fundo.

- Agora, saia da minha casa.

Leonardo passou a mão pelos cabelos, tentando controlar a própria irritação.

Quando voltou a falar, sua voz era quase uma súplica.

- Aurora, eu sei que você me ama. Eu não quero machucar você. Vamos manter o casamento. Assim, nada acontecerá com a sua família.

Balancei a cabeça em negativa.

A dor em meu peito era grande demais para permitir qualquer dúvida.

- Leonardo...

As lágrimas finalmente escorreram pelo meu rosto.

- Saia da minha casa. Agora.

Minha voz saiu baixa, mas carregada de uma firmeza que até eu desconhecia.

Ele permaneceu alguns segundos me encarando, como se ainda acreditasse que conseguiria me convencer.

Mas eu já não via o homem por quem havia aprendido a gostar.

À minha frente estava apenas um desconhecido. E era assustador perceber que eu estava prestes a me casar com alguém que nunca realmente conheci de verdade...

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