Capítulo 7 Capítulo 6 Gabriel
Não... isso não podia ter acontecido.
Eu jamais imaginei que minha avó Celina tivesse descoberto a verdade sobre o acordo, sobre quem realmente deveria se casar com Aurora.
Desde o instante em que ela revelou tudo, a única coisa que eu queria era correr atrás de Aurora, segurá-la em meus braços e garantir que tudo ficaria bem.
Mas eu não podia.
Esse não era o meu lugar.
Quem deveria estar ao lado dela era Leonardo.
Era ele quem precisava consertar a mentira que sustentou durante todos aqueles anos.
Quem sabe, agora que toda a verdade veio à tona, eles conseguissem reconstruir a confiança e, enfim, se casar.
Talvez ainda pudessem ser felizes.
Mesmo que esse pensamento rasgasse meu peito.
O silêncio foi quebrado pela voz alterada de Leonardo.
- A senhora não podia fazer isso! Ela me ama! Assim como eu amo ela! A senhora não podia ter contado!
Minha avó respirou fundo antes de responder.
- Leonardo, eu sei que você está irritado. Mas ela não ama você.
- Ama, sim! Ela já tinha marcado a data do casamento! Agora a senhora conseguiu deixar a minha noiva confusa com essa história! O Gabriel nunca quis se casar com ela, mas eu quis!
Meu coração apertou.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, meu pai voltou o olhar para Leonardo.
- Você sabia sobre o acordo?
Sua expressão era de absoluto espanto.
Até aquele momento, ele acreditava que apenas eu conhecia a verdade.
Leonardo sustentou seu olhar sem demonstrar qualquer arrependimento.
- Descobri antes mesmo de o nosso pai me chamar para conversar e dizer que eu teria uma prometida.
Virei-me imediatamente para ele.
Ainda custava acreditar no que estava ouvindo.
- Então, mesmo sabendo que Aurora era minha prometida, você aceitou se casar com ela?
Minha voz saiu carregada de incredulidade.
Leonardo deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
- Sim.
Fez uma pequena pausa antes de continuar.
- Você foi um burro por não querer se casar com ela. Aurora é a esposa perfeita. Linda, inteligente... um verdadeiro troféu. Depois do casamento, ninguém mais faria cobranças.
Naquele instante, senti meu sangue ferver.
Fechei os punhos com tanta força que minhas unhas cravaram na palma das minhas mãos.
- Aurora não é um troféu! - minha voz ecoou pela sala.- Então toda essa história de dizer que a ama, é mentira?
Pela primeira vez, Leonardo pareceu incomodado.
Mas não o suficiente para se arrepender.
- Eu gosto dela. Ela é inteligente, linda, e você sabe muito bem que as mulheres gostam de ouvir que são amadas.
A naturalidade com que ele dizia aquilo me causava repulsa.
Ele respirou fundo e pegou a chave do carro sobre a mesa.
- Agora vou até a casa dos pais dela resolver essa situação. O casamento está chegando, e eu não vou abrir mão da Aurora.
Minha avó balançou a cabeça em completa desaprovação.
- Você ainda vai insistir nisso? Acha mesmo que, depois de descobrir a verdade, ela vai querer ficar com você?
Leonardo sequer respondeu.
Passou pela porta sem olhar para trás.
O silêncio que ficou na sala parecia ainda mais pesado.
Então meu pai explodiu.
- A senhora não tinha o direito de se meter nos meus assuntos! - disse, encarando minha avó. - Já estava tudo resolvido! Leonardo se casaria com Aurora, e o acordo jamais seria quebrado!
Minha avó o encarou com os olhos marejados, mas sua voz permaneceu firme.
- A culpa de tudo isso é sua, Otávio. Eu passei anos tentando proteger esta família, tentando impedir que essa mentira destruísse a vida de todos.
Ela respirou fundo.
- E agora veja onde chegamos.
Ninguém teve coragem de responder.
O peso daquela verdade havia desmoronado sobre todos nós.
Sem dizer mais uma palavra, caminhei até a porta.
Peguei a chave do carro e saí de casa.
Precisava de ar.
Precisava colocar meus pensamentos em ordem.
Enquanto dirigia sem destino, uma única pergunta martelava minha mente.
Por que tudo precisava acontecer dessa forma?
Eu não queria que Aurora sofresse.
Foi justamente por isso que tentei evitar tudo aquilo.
Preferi carregar aquele segredo sozinho a permitir que ela fosse atingida por uma verdade tão cruel.
Mas, no fim... Fracassei.
Sem perceber para onde estava dirigindo, acabei parando em frente ao condomínio onde Aurora morava.
Desliguei o carro e permaneci ali, imóvel, observando o portão à minha frente.
Como eu queria estar ao lado dela naquele momento.
Queria responder às perguntas que certamente estavam atormentando sua mente.
Queria dizer que ela não tinha culpa de nada.
Que tudo, de alguma forma, ficaria bem.
Mas eu não podia. Não era meu direito. Aquela era uma dor que eu precisava enfrentar em silêncio.
Passei as mãos pelo rosto e respirei profundamente.
Era melhor ir embora antes que perdesse completamente o controle e batesse à porta da casa dela.
Antes mesmo de ligar o carro, vi outro veículo se aproximar.
Era Leonardo.
Pela expressão fechada e pela maneira como bateu a porta do carro, era evidente que continuava irritado.
No mínimo, tentou obrigá-la a conversar e acabou piorando ainda mais a situação.
Balancei a cabeça em negativa.
- Leonardo, depois de tantos anos, você ainda não aprendeu? - murmurei para mim mesmo. - Não adianta forçar a Aurora. Quanto mais pressionada ela se sente, mais ela se fecha.
Assim que o carro dele desapareceu da rua, dei partida no meu e segui sem destino pelas avenidas da cidade.
Precisava afastar aqueles pensamentos.
Precisava esquecer. Acabei estacionando em frente a um bar.
Entrei, escolhi uma mesa afastada, em um dos cantos mais discretos do salão, e comecei a beber.
Uma dose. Depois outra. E mais uma.
Na tentativa inútil de apagar tudo o que havia acontecido naquela noite.
Eu precisava seguir em frente.
Precisava construir minha própria vida.
Ter meu espaço. Minha casa.
Na manhã seguinte começaria a procurar um apartamento.
Chegara o momento de deixar o passado para trás.
Eu sabia que jamais poderia ter a mulher que amava. Mas, talvez...
Talvez algum dia encontrasse alguém capaz de despertar em mim ao menos uma parte do que Aurora despertava.
Já havia tomado algumas doses quando um movimento no balcão chamou minha atenção.
Reconheci aquela silhueta imediatamente. Meu coração disparou.
Aurora.
Franzi a testa, sem acreditar no que estava vendo.
O que ela estava fazendo ali?
Eu tinha certeza de que ela estaria em casa, cercada pelos pais, tentando lidar com tudo o que havia descoberto.
Decidi que o melhor seria ir embora.
A presença dela já era perigosa demais para o meu autocontrole.
Levantei-me e fui até o caixa para pagar a conta.
Foi então que vi um homem se aproximar e sentar ao lado dela no balcão.
Meu corpo inteiro ficou em alerta.
Vai para casa, Aurora... Por favor, vai para casa... - gritei apenas em pensamento.
No instante seguinte, ela ergueu o copo e virou toda a bebida de uma só vez.
Droga.
Aquilo não era do feitio dela.
Ela devia estar completamente abalada para chegar àquele ponto.
Sem pensar duas vezes, caminhei em direção ao balcão.
Quando me aproximei, ouvi o desconhecido falando com um sorriso oportunista.
- Vamos, gatinha. Eu levo você para casa. Você não está nada bem.
Meu sangue ferveu.
Parei ao lado deles e respondi antes que Aurora pudesse dizer qualquer coisa.
- Pode deixar. Eu mesmo vou levá-la para casa.
O homem me lançou um olhar desconfiado.
- E quem é você? Ela está sozinha. Não vou deixar que vá embora com um estranho.
Ao ouvir minha voz, Aurora ergueu lentamente o rosto.
Os olhos estavam marejados e levemente perdidos por causa do álcool.
Ela piscou algumas vezes, tentando focar em mim.
- Gabriel...? - perguntou, completamente confusa.
Assenti discretamente.
Sem desviar os olhos do homem, falei em um tom firme.
- Pode ir embora. Agora.
Houve um silêncio incômodo entre nós.
Minha postura deixou claro que eu não discutiria.
Depois de alguns segundos, ele bufou, levantou-se e saiu resmungando.
Voltei-me para o garçom.
- Pode me trazer a comanda dela, por favor.
Ele apenas concordou, retornando poucos instantes depois com a maquininha e a conta.
Efetuei o pagamento e, ao me virar para Aurora, segurei delicadamente sua mão. Assim que nossos dedos se tocaram... A mesma corrente elétrica percorreu meu corpo.
O mesmo arrepio que senti mais cedo.
Como se bastasse um simples toque para fazer todo o meu autocontrole desaparecer.
Aurora apertou levemente minha mão e me encarou com os olhos brilhando pelas lágrimas e pelo efeito da bebida.
- Eu não quero ir embora... - murmurou com a voz embargada. - Eu quero... sumir.
Meu peito apertou.
Aquela não era apenas a fala de alguém alcoolizado.
Era a dor de uma mulher que tinha visto sua vida inteira desmoronar em poucas horas.
Aproximei-me um pouco mais.
- Vamos dar uma volta - falei calmamente. - Depois eu levo você para casa.
Ela balançou a cabeça em negativa, fazendo um leve bico, como uma criança contrariada.
- Eu não quero ir para casa...
Repetiu as palavras com a mesma insistência, enquanto tentava conter as lágrimas que voltavam a encher seus olhos.
Naquele momento, percebi que o maior desafio daquela noite não seria levá-la para casa.
Seria encontrar uma forma de juntar os pedaços do coração que haviam acabado de ser destruídos.
- Vamos dar uma volta. Depois decidimos o que fazer, mas eu não vou deixar você aqui sozinha. - Falei com firmeza.
Aurora me encarou por alguns segundos, como se tentasse descobrir se podia acreditar em mim.
Por fim, apenas concordou com um pequeno movimento de cabeça.
Ela desceu da banqueta, mas, assim que colocou os pés no chão, o corpo vacilou.
Antes que caísse, segurei-a pela cintura.
- Calma, ou você vai acabar se machucando.
Seu corpo ficou apoiado contra o meu peito por alguns instantes.
Ela levantou o rosto lentamente e nossos olhares se encontraram.
Por um segundo, pareceu querer dizer alguma coisa.
Os lábios chegaram a se entreabrir.
Mas ela desistiu.
Apenas suspirou, enquanto eu a ajudava a recuperar o equilíbrio.
Saímos do bar em passos lentos.
Aurora fazia um enorme esforço para permanecer em pé, embora o álcool já estivesse cobrando seu preço.
Assim que chegamos ao carro, abri a porta do passageiro.
Ela deu um passo à frente, mas parou de repente.
Ficou imóvel, como se travasse uma batalha silenciosa consigo mesma antes de entrar.
Cruzei os braços, esperando.
- Você não vai me levar para casa, vai? - perguntou, estreitando os olhos, completamente desconfiada.
Precisei morder o lábio para conter o riso.
Era impressionante como ela insistia naquele assunto.
- Não. Nós vamos apenas dar uma volta. Pode confiar em mim.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- Eu não costumo confiar em estranhos.
Mesmo dizendo aquilo, entrou no carro.
Balancei a cabeça, divertindo-me com a teimosia dela.
Até alcoolizada conseguia ser incrivelmente difícil.
Entrei no carro, liguei o motor e saí calmamente do estacionamento.
Em vez de seguir para a casa dela, decidi dirigir até um hotel que possuía uma praia privativa.
O lugar era tranquilo, silencioso e, àquela hora da noite, praticamente deserto.
Talvez a brisa do mar ajudasse a acalmá-la.
E, se ela continuasse insistindo em não voltar para casa, poderia descansar no hotel até a manhã seguinte.
Quem sabe, depois de dormir, estivesse mais tranquila para enfrentar tudo o que havia acontecido.
O silêncio dentro do carro durou apenas alguns minutos.
- Como você consegue ser tão calmo? - perguntou de repente.
Olhei rapidamente para ela.
Aurora mantinha o rosto voltado para a janela.
- Eu queria ter essa calma, mas a minha vontade é bater no Leonardo, e no seu Otávio, por terem me enganado desse jeito.
Sua voz carregava uma mistura de raiva, decepção e tristeza.
Apertei o volante com mais força.
Ela tinha todos os motivos para se sentir assim.
Respirei fundo antes de responder.
Mas ela não me deu tempo.
Virou-se para mim com uma expressão quase indignada.
- Eu quero beber mais!
Fez um pequeno bico antes de continuar.
- Vamos parar em outro lugar? Eu quero uma tequila, muita tequila! Só assim vou conseguir esquecer tudo o que aconteceu hoje.
Sorri de lado.
- Você já bebeu mais do que devia.
Ela cruzou os braços imediatamente.
- Chato...
Ignorei a reclamação e continuei dirigindo.
- Agora nós vamos apenas passear. Precisamos esperar esse álcool todo sair do seu organismo.
Ela soltou um longo suspiro teatral.
- Não seja tão chato assim! Eu mereço tomar um porre depois da noite que tive.
Fez uma breve pausa e apontou um dedo em minha direção.
- E, se você não beber comigo, eu bebo sozinha!
Aquilo me arrancou um sorriso involuntário.
Mesmo completamente abalada, Aurora ainda encontrava forças para discutir.
Balancei a cabeça, já imaginando o tamanho do desafio que teria pela frente.
Aquela noite ainda estava longe de terminar.
E eu tinha a impressão de que convencer Aurora a parar de beber seria muito mais difícil do que enfrentar qualquer negociação da empresa.
Talvez muito mais difícil até do que continuar escondendo o quanto meu coração acelerava sempre que ela estava ao meu lado...
