Capítulo 8 Capítulo 7 Aurora

Após a saída de Leonardo da minha casa, senti como se eu fosse apenas um objeto.

Uma peça de um acordo.

Alguém que nunca teve o direito de escolher o próprio destino.

Eu já não havia pedido aquele casamento.

Passei anos tentando aceitar uma decisão tomada por outras pessoas, aprendendo a gostar de um homem que acreditava ser o meu prometido. E, quando finalmente pensei que estava pronta para construir uma vida ao lado dele, descobri que tudo havia sido sustentado por mentiras.

Mentira sobre mentira.

Segredo sobre segredo.

Até onde aquilo iria?

Como alguém poderia construir um casamento sobre uma base tão frágil?

Aquilo jamais poderia dar certo.

Meu peito parecia pequeno demais para suportar tanta dor.

Virei-me sem dizer uma palavra e subi para o meu quarto.

Assim que entrei, senti as paredes se fecharem ao meu redor.

Eu precisava sair dali.

Precisava respirar.

Porque, se continuasse naquela casa, tinha certeza de que enlouqueceria.

Peguei minha bolsa às pressas e desci novamente.

Meus pais ainda estavam na sala, visivelmente preocupados.

Assim que me viram, levantaram imediatamente.

- Para onde você vai, filha? - minha mãe perguntou, aflita.

Passei a mão pelos cabelos e respirei fundo, tentando controlar a tempestade que existia dentro de mim.

- Eu preciso sair, ou vou enlouquecer.

Meu pai deu um passo em minha direção.

- Filha, não vá. Vamos conversar.

Olhei para ele por alguns segundos.

Era impossível não enxergar a preocupação estampada em seu rosto.

Soltei um longo suspiro.

- Não, pai. Se eu abrir a boca agora e disser tudo o que está entalado na minha garganta, vou acabar magoando o senhor.

Minha voz falhou por um instante.

- Então é melhor eu sair.

Aproximei-me e segurei delicadamente suas mãos.

- Não se preocupem. Eu não vou fazer nenhuma loucura, e também não vou sair de carro.

Vi um pouco da tensão deixar o rosto dos dois.

Mesmo assim, continuavam apreensivos.

Saí de casa sem olhar para trás.

Caminhei sem rumo por alguns minutos até chegar à avenida principal.

Levantei a mão e parei um táxi.

- Para o centro, por favor.

O motorista apenas assentiu e seguiu viagem.

Durante todo o trajeto permaneci em silêncio, observando as luzes da cidade passarem pela janela.

Minha cabeça parecia um caos.

Cada lembrança daquela noite voltava como um golpe.

As palavras de dona Celina.

O silêncio de Leonardo.

A ameaça contra a minha família.

Tudo se misturava de uma forma sufocante.

Foi então que meus olhos encontraram um bar.

Sem pensar duas vezes, tomei uma decisão.

- Pode parar aqui mesmo.

O motorista estacionou.

Retirei o dinheiro da bolsa, paguei a corrida e desci do carro.

Assim que coloquei os pés na calçada, senti o vento frio atingir meu rosto.

Fechei os olhos por um breve instante.

Talvez uma bebida fosse capaz de silenciar, nem que fosse por algumas horas, a confusão que existia dentro de mim.

Entrei no bar sem pensar duas vezes.

Caminhei até o balcão e me sentei.

- Uma dose tripla de tequila... e a bebida mais forte que vocês tiverem.

O barman apenas me observou por um instante antes de preparar o pedido.

Assim que os copos foram colocados à minha frente, peguei a tequila e a virei de uma só vez.

O líquido queimou minha garganta.

Mas a dor ainda era muito menor do que a que eu sentia no peito.

Continuei bebendo enquanto revivia, repetidas vezes, tudo o que havia acontecido naquele dia.

Eu precisava encontrar uma saída.

Precisava pensar em uma maneira de impedir que os Vasconcellos destruíssem a minha família.

Porque, se eles acreditavam que poderiam usar meu pai como moeda de troca... Estavam muito enganados. Eu não permitiria.

E, se fosse preciso enfrentar Leonardo, discutir, lutar contra ele... Eu faria.

Pela minha família.

E, dessa vez, ninguém decidiria o meu destino por mim.

Eu nem sabia explicar como aquilo tinha acontecido.

De repente, Gabriel apareceu.

Na verdade, eu não queria ver ninguém. Queria apenas ficar sozinha, tentando juntar os pedaços da minha vida que haviam sido destruídos em poucas horas. Mas o homem que insistia em me levar para casa já estava começando a me incomodar, e, no fim, acabei aceitando ir embora com Gabriel.

Só havia uma condição.

Eu não queria voltar para casa.

Não queria olhar para os meus pais.

Não queria ver o vestido de noiva pendurado no meu quarto.

Eu só queria esquecer, nem que fosse por algumas horas, tudo aquilo que apertava o meu coração.

Quando me levantei da banqueta, minhas pernas vacilaram e acabei parando em seus braços.

No instante em que seu peito encontrou o meu corpo, um arrepio percorreu minha pele inteira.

O mesmo arrepio que senti quando ele segurou minha mão mais cedo.

Franzi a testa.

Eu devo estar doente...

Aquilo não era normal.

Entrei no carro ainda tentando entender como Gabriel conseguia permanecer tão calmo depois de tudo o que havia acontecido.

Afinal, ele também fazia parte daquela história.

Também estava envolvido naquele segredo.

Depois da pequena discussão que tivemos por causa da bebida, continuei insistindo.

Eu precisava beber.

Precisava esquecer.

Mesmo que fosse apenas por algumas horas.

Enquanto observava a estrada pela janela, percebi que não estávamos seguindo em direção à minha casa.

Poucos minutos depois, reconheci o lugar.

Estávamos entrando em um hotel que possuía uma praia privativa.

Voltei o rosto para Gabriel, curiosa para entender por que ele havia me levado até ali.

Nem precisei perguntar.

Ele percebeu meu olhar.

- Aqui você pode caminhar um pouco. Tenho certeza de que vai gostar.

Cruzei os braços e fiz uma pequena careta.

- Eu só vou gostar se tiver tequila ou alguma bebida bem forte.

Gabriel sorriu discretamente.

- Se é isso que você quer, então terá.

Descemos do carro.

Antes de segui-lo, peguei o celular na bolsa e enviei uma mensagem para os meus pais.

Estou bem. Vou dormir na casa de uma amiga. Não se preocupem.

Pelo menos assim eles conseguiriam descansar um pouco naquela noite.

Guardando o celular novamente, acompanhei Gabriel até a praia.

Bastou sentir a brisa do mar tocar meu rosto para meu corpo relaxar um pouco.

O som das ondas parecia acalmar o caos que existia dentro de mim.

Caminhamos em silêncio por alguns minutos.

Nenhum dos dois parecia disposto a quebrar aquele momento.

Até que parei.

Meus olhos ficaram presos no horizonte escuro.

A lua iluminava parte da areia, enquanto algumas estrelas brilhavam timidamente no céu.

As ondas quebravam de forma constante, levando e trazendo a água como se o mar respirasse.

Sentei-me na areia sem desviar o olhar daquela imensidão.

Talvez porque o oceano fosse grande o bastante para guardar toda a dor que eu carregava.

Ou talvez porque eu simplesmente não tivesse mais forças para continuar de pé.

Ouvi passos atrás de mim.

Quando virei levemente o rosto, vi Gabriel se sentando ao meu lado.

Aquilo me surpreendeu.

Pensei que ele apenas me deixaria ali.

Mas permaneceu. Em silêncio.

Respeitando o meu tempo.

Depois de alguns minutos, sua voz rompeu a tranquilidade da noite.

- Você está bem?

Sorri sem humor.

Nem eu sabia responder aquela pergunta.

Soltei um longo suspiro antes de encará-lo.

- Ainda não sei...

Minha voz saiu baixa, quase um sussurro levado pelo vento.

Antes que eu pudesse continuar, um garçom se aproximou carregando um balde de gelo, duas garrafas e dois copos.

Ele entregou tudo a Gabriel, desejou uma boa noite e se afastou.

Gabriel colocou o balde entre nós e, com toda a calma do mundo, serviu os dois copos.

Depois estendeu um deles para mim.

Segurei o copo entre os dedos.

Ele permaneceu me observando por alguns segundos antes de falar.

- Quero que você se lembre de uma coisa.

Esperei em silêncio.

- Você é forte. Às vezes, descontar a dor no álcool pode até aliviar por algumas horas, mas isso não vai resolver os seus problemas.

Revirei os olhos.

- Você consegue ser muito chato, sabia?

Ele soltou um pequeno sorriso.

Balancei a cabeça antes de responder.

- Não se preocupe. Eu não costumo afogar minhas mágoas na bebida.

Olhei novamente para o mar.

- Mas hoje, eu preciso esquecer.

Minha voz voltou a falhar.

- Nem que seja por algumas horas.

Apertei o copo entre os dedos.

- Porque eu sei que, quando a ressaca chegar, todos os problemas vão estar me esperando exatamente no mesmo lugar.

Sem esperar qualquer resposta, levei o copo aos lábios e virei toda a bebida de uma vez.

O líquido desceu queimando minha garganta.

Mas, ainda assim... A dor que ardia dentro do meu peito continuava sendo muito maior.

Continuei bebendo.

Nenhum de nós dizia uma única palavra.

E, pela primeira vez naquela noite, o silêncio parecia suficiente. Não havia necessidade de conversa. Cada um estava perdido em seus próprios pensamentos, tentando lidar, à sua maneira, com o caos que aquela noite havia provocado.

O som das ondas preenchia o vazio entre nós.

De vez em quando, eu levava o copo aos lábios, enquanto observava o horizonte lentamente mudar de cor.

Sem perceber, a madrugada foi dando lugar ao amanhecer.

Os primeiros raios de sol surgiram no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados e dourados.

Foi então que tomei uma decisão.

Levantei-me devagar.

Apesar da tontura causada pela bebida, eu ainda estava consciente do que fazia.

Já estava descalça.

Olhei para o mar por alguns segundos e, movida por um impulso impossível de controlar, retirei o vestido.

Agora eu vestia apenas a lingerie.

Naquele momento, nada mais importava.

Ouvi Gabriel se levantar rapidamente.

- O que você está fazendo, Aurora? Ficou louca?

O desespero estampado em seu rosto me fez cair na gargalhada.

Havia algo quase engraçado na forma como ele tentava manter o controle de tudo.

- Não... - respondi ainda rindo. - Ainda estou sã. Só preciso dar um mergulho no mar. Só isso.

Ele passou a mão pelos cabelos, claramente impaciente.

- É melhor não. Você bebeu demais. Pode acabar se afogando.

Sorri de lado.

- Se eu me afogar, tenho certeza de que você vai me salvar.

Dei mais alguns passos em direção à água.

- Agora deixa de ser chato.

Antes que ele pudesse insistir, corri em direção ao mar.

Assim que a água envolveu meu corpo, mergulhei.

A temperatura agradável contrastava com a confusão que havia dentro de mim.

Por alguns instantes, deixei que o mar levasse embora todo o peso daquela noite.

Quando voltei à superfície, respirei profundamente.

Era como se aquela água renovasse parte das minhas forças.

Permaneci ali por mais alguns minutos, apenas ouvindo o som das ondas.

Ao olhar para a areia, encontrei Gabriel exatamente onde o havia deixado.

Estava de pé, com os braços cruzados.

Mesmo à distância, era evidente que continuava atento a cada um dos meus movimentos.

E, conhecendo a expressão séria que carregava no rosto... Apostava que estava irritado.

Resolvi sair da água antes que ele tivesse um infarto de preocupação.

Assim que meus pés tocaram a areia, Gabriel caminhou imediatamente até mim.

Sem dizer nada, estendeu um roupão.

Peguei-o, envolvendo meu corpo.

- Você é muito atrevida, florzinha.

Franzi a testa, sem entender de onde ele havia tirado aquilo.

- Eu só precisava de um banho...

Nem consegui terminar a frase.

Um bocejo escapou involuntariamente.

Sorri, envergonhada.

- Agora, deu até sono.

Pela primeira vez desde que nos conhecemos, vi um leve sorriso surgir no rosto de Gabriel.

Um sorriso discreto, quase imperceptível.

- Venha. Reservei dois quartos.

Ele apontou para o hotel.

- Assim você toma um banho quente, descansa um pouco e depois volta para casa.

Assenti em silêncio.

Naquele momento, discutir era a última coisa que eu queria.

Peguei meu vestido e minha bolsa.

Seguimos lado a lado até a entrada do hotel.

Entramos no elevador.

O silêncio voltou a nos acompanhar.

Enquanto o elevador subia, minha mente permanecia distante, tentando organizar tudo o que havia acontecido nas últimas horas.

Quando as portas se abriram, caminhamos até uma suíte que possuía dois quartos.

Gabriel abriu a porta.

- Espero que você acorde melhor.

Ele retirou uma das chaves do cartão e a estendeu para mim.

Olhei para ele por alguns segundos.

- Obrigada.

Peguei a chave.

Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim.

Assim que fiquei sozinha, apoiei as costas na madeira e soltei um longo suspiro.

Finalmente.

Eu precisava daquele momento.

Precisava me esconder do mundo, nem que fosse por algumas horas.

Caminhei lentamente até o banheiro.

Abri o chuveiro e deixei a água quente cair sobre meu corpo, levando embora o sal do mar, o cheiro da bebida e parte do cansaço daquela noite interminável.

Depois do banho, vesti um roupão limpo.

Deitei-me na cama ainda com os cabelos úmidos.

Encarei o teto por longos minutos.

O sono demorava a chegar.

Minha cabeça insistia em revisitar cada palavra, cada mentira e cada olhar daquela noite.

A partir daquele dia, eu sabia que nada voltaria a ser como antes.

E, antes de tomar qualquer decisão, precisava descobrir qual seria o caminho que escolheria seguir dali em diante.

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