Capítulo 1 Começo

O sobrenome Di Rossi nunca foi apenas um sobrenome. Era uma sentença.

Ambra cresceu entendendo isso antes mesmo de entender o próprio nome. Naquela casa, as velas não serviam para iluminar. Serviam para deixar as sombras no lugar certo. E os segredos eram guardados com mais cuidado que o dinheiro, que as armas, que o sangue.

Ser uma Di Rossi significava pertencer a uma história que começou muito antes dela e que não pedia permissão para continuar. Riqueza, influência, respeito. E, por baixo de tudo, o poder silencioso e inegociável da família. Desde menina, ensinaram a ela que o coração era um músculo desobediente e, poCapítulo 11

Ambra estava deitada de bruços na cama, com o livro aberto sobre o travesseiro. Era o mesmo livro pela terceira vez naquela semana. Não lia por prazer, lia para não ouvir a casa.

O quarto, que nos primeiros dias tinha sido uma cela, se transformou em um esconderijo silencioso. Ninguém entrava ali sem bater, exceto Diana. As funcionárias vinham duas vezes ao dia, trocavam a água, deixavam a bandeja do café e saíam sem dizer uma palavra além do necessário, como se tivessem recebido ordens explícitas para não criar intimidade. Ambra preferia assim. O silêncio das paredes era mais gentil que as vozes lá embaixo.

A tarde estava morna, abafada, e a luz que entrava pela janela desenhava um retângulo dourado no chão de madeira. Foi quando a porta se abriu com um rangido curto, sem bater antes.

Diana entrou. Não sorria. O rosto estava impassível, os olhos fixos em um ponto atrás de Ambra, como se olhar diretamente para ela exigisse um esforço que ela não estava disposta a fazer.

— Se arrume e desça. Seu noivo está na sala — disse, com a voz firme e seca. — Cubra esse hematoma no seu rosto com maquiagem.

As palavras caíram como um tapa novo. Ambra sentiu o estômago revirar e levou a mão automaticamente à bochecha. A marca do pai ainda estava lá, roxa na borda, amarelada no centro, uma lembrança viva que pulsava a cada batida do coração. Ela achou que tivesse conseguido escondê-la ficando trancada, mas Diana fez questão de lembrar que naquela casa nada ficava escondido por muito tempo.

Diana a observou enquanto ela se levantava devagar. Era um olhar de julgamento, não de preocupação. Avaliava se a maquiagem daria conta, se a roupa que Ambra escolheria seria adequada, se o noivo notaria e causaria problemas.

Ambra foi até a penteadeira. O espelho devolveu uma imagem que ela mal reconheceu. Cabelo preso de qualquer jeito, olheiras fundas, o roxo feio na maçã do rosto contando uma história que ela queria esquecer. As mãos tremiam um pouco quando abriu a gaveta e pegou a base, o corretivo, o pó. Cada camada era um esforço para devolver alguma dignidade ao próprio rosto. Tentava cobrir não só o hematoma, mas a vergonha de ter que cobri-lo.

Enquanto se maquiava, a ordem de Diana ecoava na cabeça, misturada ao medo do encontro. Vincenzo ali, de novo, sem aviso. O que ele queria? Por que voltara tão rápido? A última lembrança que tinha dele era na biblioteca, com o anel da mãe no dedo e a frase sobre resolver as coisas. A expectativa de descer as escadas e encará-lo de novo, com a marca do pai ainda latejando sob a maquiagem, enchia o peito de desamparo.

Vestiu algo que aprendeu a chamar de seguro. Um vestido azul escuro de manga comprida, gola fechada, tecido que não marcava nada. Elegante e comportado. Depois da bronca sobre parecer uma prostituta, aprendeu que qualquer decote seria usado contra ela. O coração batia acelerado quando saiu do quarto, acompanhada por uma das funcionárias mais velhas que esperava no corredor em silêncio, como escolta.

A mansão parecia mais silenciosa que o normal. Cada passo no mármore ecoava alto demais.

Ao chegar ao hall, procurou com os olhos e não o viu na sala de estar. A lareira estava apagada, as poltronas vazias.

Diana surgiu por trás, com um passo apressado e um olhar que, pela primeira vez, parecia realmente preocupado.

— Ele está no escritório do seu pai — disse baixo, quase num sussurro, e segurou o braço de Ambra por um segundo. — Não diga a ele que seu pai te bateu.

O tom não era de proteção. Era de aviso. Um misto de medo e cálculo. Ambra entendeu na hora. Aquilo não era sobre ela. Era sobre o que Vincenzo faria se soubesse. A situação era muito mais complexa e perigosa do que um simples tapa.

Sentiu um alívio estranho por ele não estar na sala cheia de gente, e ao mesmo tempo uma tensão nova, mais fria, subindo pela nuca.

Caminhou até o escritório do pai com os passos ecoando. Cada metro do corredor parecia mais longo. Tentou controlar a respiração, tentou endurecer os ombros, repetir para si mesma que não mostraria fragilidade, que não choraria.

Bateu uma vez e abriu a porta.

Vincenzo estava sentado no sofá de couro no canto, não na cadeira do pai. Como de costume, todo de preto. Camisa preta, calça preta, o cabelo solto. Sem a máscara de novo, a cicatriz fina cortando a luz da janela. Ele tinha um copo de água na mão que não bebia e olhava fixo para a porta, como se já soubesse que ela entraria naquele exato segundo. O olhar penetrante e indecifrável se fixou nela e Ambra sentiu um frio percorrer a espinha.

Ele não disse nada. Só a observou se aproximar.

Ambra caminhou até ele, hesitante, e se acomodou na outra ponta do sofá, deixando o maior espaço possível entre os dois. O coração batia tão rápido que tinha certeza de que ele conseguia ouvir.

— Olá, senhor — disse, a voz baixa.

Vincenzo continuou em silêncio por um momento, analisando cada detalhe do rosto dela. O esforço da maquiagem, o jeito como ela inclinava a cabeça para esconder o lado esquerdo, o tremor nos dedos. O olhar dele desceu e parou exatamente sobre o hematoma, mesmo coberto.

Então, com um gesto que Ambra não esperava, ergueu a mão. Foi surpreendentemente delicado. Com a ponta do indicador, tocou o queixo dela e virou o rosto dela para si, para que a luz da janela batesse de cheio. Não havia pressa, não havia violência. Havia uma tensão sutil no ar, um magnetismo que fez Ambra ficar simultaneamente nervosa e paralisada.

— Não me chame de senhor — disse ele, a voz baixa e firme, sem hostilidade, quase cansada. — Você não é uma das minhas subordinadas. Me chame de Vincenzo. Esse é o meu nome.

O toque ainda estava ali, no queixo. O calor da mão dele contrastava com a pele fria dela.

Ambra sentiu uma onda de alívio se misturar com um desconcerto profundo. A intimidade de dizer o primeiro nome dele parecia enorme, proibida, mas ao mesmo tempo acolhedora. Era a primeira vez que alguém naquela casa lhe dava permissão para ser tratada como igual.

Ela assentiu, um sorriso tímido e trêmulo se formando nos lábios apesar do roxo que latejava sob a maquiagem.

— Tudo bem, Vincenzo — sussurrou.

E pela primeira vez, dizer o nome dele não deu medo.rtanto, irrelevante. As decisões que importavam eram tomadas em outro lugar, por outras mãos, seguindo regras antigas demais para serem questionadas.

A casa ficava no alto das colinas, uma construção de pedra fria que parecia ter nascido ali, não construída. O tempo tinha escurecido suas paredes e impregnado os corredores com um silêncio denso, quase sólido. Não era paz. Era vigilância. Ambra aprendeu a andar descalça sobre os tapetes persas para não fazer barulho, a ouvir as conversas através das portas entreabertas, a medir cada gesto porque sabia que havia sempre alguém observando.

Sua vida era uma coreografia ensaiada à exaustão. Manhãs de estudo rigoroso. Francês impecável, piano clássico, etiqueta, história da arte, tudo ministrado por tutores que não sorriam. Não eram aulas, eram molduras. Preparavam-na para ser exibida, avaliada, negociada. À tarde, o teatro continuava nos almoços intermináveis, nos jantares com sobrenomes igualmente pesados, nos apertos de mão entre homens que sorriam sem mostrar os olhos. Um círculo fechado, onde estranhos não entravam e de onde ninguém saía.

No centro desse círculo estava ele.

Don Giovanni Di Rossi não precisava levantar a voz. Sua presença bastava para alterar a temperatura de um cômodo. Alto, imponente, com os olhos pretos e atentos de quem aprendeu a calcular o valor de cada pessoa em segundos, ele nunca foi apenas pai. Foi juiz, carrasco e arquiteto do futuro da filha. Era ele quem decidia o que Ambra vestiria, com quem falaria e, sobretudo, com quem se casaria. O casamento não era um sacramento ali. Era um contrato. Uma aliança. O amor, se mencionado, era tratado como uma vulgaridade, uma fraqueza de gente comum.

Ambra aprendeu a guardar o que sentia como quem esconde joias em um compartimento falso. Para o mundo, oferecia a máscara perfeita, a herdeira fria, educada, intocável. Por dentro, colecionava silêncios.

Só à noite, quando a mansão finalmente dormia e os seguranças trocavam de turno no portão, ela se permitia existir. Sentada na beira da janela do quarto, olhava o lago lá embaixo, imóvel, refletindo a lua cheia como um espelho partido. Naqueles minutos, ela se perguntava que gosto teria uma vida escolhida. Não uma vida grande, cheia de paixões arrebatadoras como nos livros que lia escondido. Uma vida simples. Uma vida dela.

O desejo que a consumia não era por um homem. Era por autonomia. Por atravessar um cômodo sem ser avaliada. Por dizer não.

Com o passar dos anos, a corda em volta de seu pescoço foi apertada com mais elegância. Os convites se tornaram exigências, as sugestões do pai se tornaram ordens, e o futuro que sempre fora uma ameaça distante começou a bater à porta com nome, sobrenome e data marcada. Cada novo acordo fechado em seu nome a afastava um pouco mais da mulher que ela poderia ter sido.

Ambra sabia que a guerra ainda nem tinha começado. Mas também sabia que não seria mais a menina que aceitava tudo em silêncio. Se precisasse enterrar seus sonhos para sobreviver àquela família, enterraria. Só que bem fundo, onde ninguém pudesse encontrar para destruir.

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