Capítulo 2 Você cresceu
Ambra não se lembrava da mãe.
Não havia cheiro, nem voz, nem colo. Havia apenas uma palavra aprendida cedo demais e esvaziada de significado. Mãe. Um conceito contado por terceiros, uma fotografia desbotada sobre a lareira que seu pai nunca deixava ninguém tocar. Aos dois anos, ela perdeu a única pessoa que poderia tê-la defendido da família em que nascera. Seis meses depois, Don Giovanni se casou de novo. Ambra não lembrava do casamento, lembrava da sensação. A de uma casa que já era fria ficando menor. A de uma estranha entrando no seu quarto para medir as paredes.
Diana Di Rossi não entrou na família. Ela a redecorou.
Loira, impecável, com uma beleza que exigia manutenção constante e plateia, Diana era tudo que a primeira Sra. Di Rossi não tinha sido. Barulhenta onde a outra era discreta, ambiciosa onde a outra era reservada. Trouxe com ela duas filhas pequenas, Bianca e Alessia, e uma certeza absoluta de que a mansão, o sobrenome e o marido agora lhe pertenciam. E pertencer, para Diana, significava organizar o mundo por utilidade.
Ambra nunca foi útil.
Desde o primeiro dia, a mensagem foi clara, sem nunca precisar ser dita em voz alta. Nos lugares à mesa, nos elogios que nunca vinham, nos vestidos que passavam primeiro pelas mãos das outras duas, nas fotos de família onde Ambra parecia ter sido encaixada depois. Bianca e Alessia aprenderam rápido com a mãe. Eram bonitas, mimadas, cruéis daquela forma distraída que só quem nunca foi contrariado consegue ter. Olhavam para Ambra como se olha para um móvel que não combina mais com a decoração.
A solução veio quando Ambra tinha doze anos. Foi apresentada como uma oportunidade.
Um internato nos Alpes suíços. Excelência acadêmica, tradição, disciplina. Para Ambra, foi exílio. Para Diana, foi alívio. Para Don Giovanni, foi conveniência. Ele assinou os papéis sem discutir, entregou à filha uma mala de couro e um rosário da mãe e disse apenas para não envergonhar o nome.
Foram dez invernos longe.
A Suíça não a acolheu, a lapidou. O frio, o rigor, as regras implacáveis, as meninas ricas de sobrenomes diferentes mas com as mesmas mães. Tudo ensinou Ambra a transformar solidão em autocontrole. Ela aprendeu a falar quatro línguas sem sotaque, a esquiar, a se defender em uma sala cheia de mulheres que a odiavam sorrindo. Voltava todo verão para a Itália, por obrigação. Duas semanas em que se sentia uma estrangeira na própria casa, contando os dias para embarcar de volta.
Agora, aos vinte e dois, o internato tinha acabado. Não havia mais para onde voltar.
O carro que a buscou em Milão a deixou no mesmo portão de pedra. Nada tinha mudado. As oliveiras, a fonte seca no jardim interno, o cheiro de cera e lareira. Só que tudo parecia menor e mais hostil.
Diana a esperava no hall, vestida de seda clara como se fosse receber uma visita indesejada. Estava intacta, talvez ainda mais bonita, de uma beleza que o tempo só deixava mais cara. Bianca e Alessia ao lado, já mulheres feitas, com os mesmos sorrisos finos e avaliadores da mãe. Mediram Ambra dos pés à cabeça. O cabelo mais escuro, a postura reta demais, a roupa sem etiqueta aparente. Curiosidade e desdém na mesma dose.
— Ambra, querida. Finalmente em casa — disse Diana, sem dar um passo à frente.
Não houve abraço. Houve um jantar protocolar, talheres de prata, assuntos que não lhe diziam respeito e um silêncio constrangedor toda vez que ela tentava falar. Seu pai a observou durante toda a refeição como se avaliasse uma mercadoria que havia ficado tempo demais no depósito. Falou pouco, do vinho, de negócios, de política. Só quando as mulheres se levantaram, ele a reteve com um gesto.
— Você cresceu.
E depois, com a mesma frieza com que se comenta o clima:
— Novos tempos exigem novas responsabilidades. Conversaremos amanhã.
Naquela noite, no quarto que um dia fora seu e agora cheirava a lavanda barata e a mofo, Ambra entendeu que seu retorno não era um recomeço. Era uma convocação.
