Capítulo 3 Leilão
Diana desceu as escadas como se o mármore tivesse sido polido para ela. Devagar, sem pressa, deixando cada passo ecoar. Parou dois degraus acima de Ambra, o suficiente para olhá-la de cima.
— Olha só. Minha querida enteada voltou.
Ambra não respondeu. Manteve a cabeça erguida, o queixo firme, os ombros retos. Era a única defesa que tinha aprendido na Suíça que funcionava ali também. Não revidar.
Diana sorriu. Aquele sorriso que nunca chegava aos olhos.
— Ficou muda? Que educação refinada te ensinaram lá fora.
O silêncio entre as duas pesava mais que qualquer grito. Ambra sentiu o estômago revirar, mas não deu a Diana o prazer de uma cena. Virou-se e subiu, cada degrau como um ato de desobediência. Atrás dela, ouviu a risada curta e seca da madrasta.
A casa a rejeitava. Não era impressão. Era físico. Cada cômodo tinha a marca de Diana, o perfume caro demais, os arranjos de flores brancas perfeitos demais, a ordem obsessiva de quem precisa provar que manda. O pai era um fantasma de terno que aparecia para o jantar e sumia no escritório. Bianca e Alessia passavam por ela nos corredores como se ela fosse parte da mobília antiga que Diana ainda não tinha conseguido trocar.
Não havia uma memória boa para se agarrar ali. Só paredes que testemunharam indiferença.
À noite, a mansão se transformou para a festa.
Ambra entendeu tarde demais que não era uma festa de boas vindas. Era uma vitrine. O salão principal estava lotado de homens de meia idade com relógios caros e sorrisos que não escondiam o perigo, e de esposas com vestidos claros e joias que brilhavam mais que os olhos. O burburinho era alto, animado, cheio de negócios sendo fechados entre uma taça e outra. Ninguém ali estava para celebrar seu retorno. Estavam ali para avaliar o retorno do investimento dos Di Rossi.
No quarto, em frente ao espelho, Ambra mal se reconheceu. O vestido que Diana deixara sobre sua cama era preto, justo a ponto de dificultar a respiração, com um decote que Ambra jamais teria escolhido. O tecido marcava cada curva de um jeito que não era elegante, era exposto. Vulgar. Ela se sentia nua e ao mesmo tempo fantasiada.
Desceu para procurar Diana. Encontrou-a no salão, ajeitando taças, no seu elemento.
— Por que eu tenho que usar isso?
Diana nem se virou de imediato. Terminou de alinhar a última taça e só então a encarou, com aquela satisfação cruel de quem já esperava a pergunta.
— Porque você não tem mais doze anos, Ambra. Está na idade de casar. Ninguém vai se interessar por uma menina que se veste como uma freira. Precisa aprender a se mostrar.
Não foi um conselho. Foi uma sentença. Ambra sentiu o rosto queimar. Não de vergonha, de raiva. O vestido não era um presente, era um recado. Você está aqui por concessão. Comporte-se como o produto que é.
O salão ficou ainda mais sufocante depois disso. Ambra caminhava entre os convidados sendo apresentada por Diana com toques rápidos no ombro, como se dissesse olhem o que temos aqui. Sentia os olhares percorrendo seu corpo, avaliando, calculando. Não via pessoas, via compradores.
Foi então que Don Giovanni surgiu. Impecável, com o terno escuro e o copo de uísque na mão, atraindo o silêncio respeitoso por onde passava.
Ele parou ao lado dela e pousou a mão pesada em suas costas. Um gesto que para os outros parecia afeto paterno, mas que para Ambra era uma coleira.
— Venha, minha filha — disse, com aquele orgulho frio que a fazia se sentir menor. — Deixe-me apresentar você a alguns amigos.
Ambra o seguiu. Passos curtos, por causa do vestido. Sorriso treinado, por causa do sobrenome. Enquanto era levada de um grupo para outro, como um troféu que finalmente seria exposto depois de anos guardado, ela entendeu com uma clareza brutal o que seu pai quis dizer com novas responsabilidades.
Ela não tinha voltado para casa.
Ela tinha voltado para o leilão.
