Capítulo 4 Sentença
Bianca a encontrou perto da coluna de mármore, onde Ambra tentava se fazer invisível.
Ela surgiu com aquela leveza ensaiada de quem sabe que está sendo observada, a taça de champanhe equilibrada entre dois dedos, o vestido dourado colado ao corpo como uma segunda pele. Havia um brilho nos olhos dela que Ambra conhecia bem. Não era alegria. Era fome.
— Sozinha, irmãzinha? — disse Bianca, se acomodando ao seu lado sem ser convidada. O perfume doce e enjoativo dela se impôs no ar. — Você precisa aproveitar mais sua própria festa.
Ambra não respondeu. Continuou olhando o salão. Homens rindo alto demais, mulheres cochichando atrás de leques. O quarteto de cordas tentava competir com o barulho de acordos sendo fechados.
Bianca seguiu seu olhar e deu uma risadinha.
— Olha em volta. Com atenção. Papai não te trouxe de volta da Suíça porque sentiu saudade. Ele está te vendendo. E parece que tem bastante comprador interessado. Quem será o sortudo, hein? Aquele de Nápoles com três divórcios e um tic no olho? Ou aquele outro que dizem que enterrou a primeira esposa no jardim?
A crueldade vinha embrulhada em tom de brincadeira, o que a tornava ainda mais difícil de rebater. Bianca falava baixo, só para Ambra ouvir, e sorria para quem passava, como se estivesse contando uma fofoca divertida.
— Para de ser dramática, Ambra. Você devia agradecer. Pelo menos alguém vai te querer para alguma coisa.
Ambra forçou um sorriso que doeu nos músculos do rosto. Suas mãos, escondidas nas dobras do vestido preto que ainda a sufocava, tremiam. Sentiu o estômago embrulhar, uma mistura azeda de raiva, vergonha e um medo antigo que ela achou que tinha deixado no internato. Cada palavra de Bianca era um alfinete encontrando exatamente onde a pele ainda estava fina.
— Com licença — murmurou, e se afastou antes que as lágrimas subissem.
O salão de repente parecia pequeno demais, quente demais. O cheiro de charuto, de perfume importado, de ambição, tudo a enjoava. Ela precisava de ar. Precisava de silêncio.
Escorregou para fora pela porta lateral que dava para o corredor dos fundos, aquele que levava à biblioteca e que os convidados não usavam. O corredor estava escuro, fresco, em contraste com o calor do salão. Seus saltos faziam barulho demais no piso de madeira. Ela abaixou a cabeça, apressou o passo e foi quando colidiu com força em algo sólido.
Não era algo. Era alguém.
Ambra cambaleou para trás e por pouco não caiu. Levantou os olhos, assustada, com um pedido de desculpas já na ponta da língua, e as palavras morreram.
O homem à sua frente era alto, ombros largos sob uma camisa preta de linho, cabelos negros e lisos caindo até a altura dos ombros. Mas o que prendia a atenção era a máscara. Preta, fosca, cobrindo da têmpora até o maxilar, escondendo metade do rosto e deixando à mostra apenas a boca firme e um par de olhos escuros e perturbadoramente calmos.
Ele não estava na festa. Ou estava, mas não como convidado. Havia nele uma quietude que não pertencia àquele lugar. Ele não cheirava a colônia cara. Cheirava a noite, a cigarro e a chuva.
— Desculpa, eu não te vi — gaguejou Ambra, a voz saindo mais fina do que queria.
Ele não respondeu de imediato. Apenas a observou, de cima a baixo, sem pressa. O olhar não era de desejo, como os dos homens do salão. Era de avaliação fria, quase entediada. Como se ela fosse um detalhe inconveniente no caminho.
O desprezo silencioso foi pior que qualquer insulto de Bianca. Ambra sentiu o rosto arder sob o peso daquele julgamento mudo.
Sem dizer uma única palavra, ele se afastou. Passou por ela roçando de leve seu ombro e seguiu em direção ao salão, os passos firmes e sem som. Ambra ficou ali, encostada na parede, com o coração batendo descompassado contra as costelas, ouvindo o eco da festa que voltava a ficar alto.
Ela não voltou para o salão. Subiu para o quarto e trancou a porta.
Na manhã seguinte, a casa parecia outra.
O sol da Toscana entrava violento pelas janelas da sala de café da manhã, dourando a toalha de linho, fazendo brilhar as frutas na travessa de prata. Uma manhã linda, insultantemente normal.
Don Giovanni estava radiante. Isso era o mais estranho. Ambra nunca o tinha visto sorrir daquele jeito, um sorriso largo, satisfeito, que o deixava quase humano. Diana, ao seu lado, servia café com a mesma expressão de gata que engoliu o canário, os olhos cintilando.
Ambra chegou por último. Ainda pálida, ainda com o gosto amargo da noite anterior na boca. Sentou-se e, por puro automatismo, levou um pedaço de mamão à boca. A fruta estava doce, madura, mas na sua língua tinha gosto de nada.
Seu pai esperou que a empregada terminasse de servir e então pousou a xícara com um estalo seco sobre o pires.
— Tenho uma ótima notícia para dar — anunciou, olhando diretamente para Ambra. — Você se casa em três meses.
O pedaço de mamão escorregou dos dedos dela e caiu no prato com um barulho surdo.
O calor da sala desapareceu. O sangue fugiu do rosto de Ambra. Suas pernas, debaixo da mesa, começaram a tremer tanto que ela precisou pressionar os joelhos com as mãos para não desabar.
— Fechamos tudo ontem à noite — continuou Don Giovanni, como se estivesse falando de uma safra de vinhos, não da vida da filha. — É um acordo excelente para a família. Vincenzo Esposito será um ótimo genro. Sinta-se honrada, Ambra. É um homem de muito futuro.
Vincenzo. O nome caiu no silêncio como uma pedra.
Ambra não conhecia nenhum Vincenzo. Não lembrava de ter conversado com nenhum Vincenzo na festa. Talvez fosse um dos vultos que a olharam como mercadoria.
Sua boca se abriu, mas nenhum som saiu. A mente girava em um redemoinho de pensamentos desconexos. Três meses. Um vestido branco. Uma casa que não seria dela. Um homem que nunca viu. Uma prisão com outro sobrenome.
Diana sorria, triunfante.
— Finalmente vai ter alguma utilidade — murmurou ela, baixa o suficiente para só Ambra ouvir.
O silêncio que se seguiu foi denso, absoluto. E Ambra, com os olhos cheios de lágrimas que se recusava a deixar cair na frente deles, entendeu que a convocação da noite anterior não tinha sido um aviso.
Tinha sido uma sentença de morte.
